27.Janeiro.09
Show me the money!
Numa conversa sobre divulgação científica esses dias (criticava-se a falta de informações para o público geral do site de um instituto de pesquisa X), um renomado cientista opinou o seguinte: para melhorar a divulgação científica e o conhecimento sobre ciência das pessoas em geral, basta que os pesquisadores sejam extremamente bem pagos [viajamos em algo em torno de 250 mil dólares/ano como exemplo de um salário médio satisfatório para a categoria]. A carreira se tornaria então atrativa a mais pessoas ($$$) e estas se interessariam em saber mais sobre o tema, puxando toda a educação e o jornalismo científicos consigo. Dinheiro puxa mídia que puxa interesse e conhecimento, basicamente.
Será?
A gente sempre fala em aumentar salários para cientistas para melhorar a ciência em si, o ato de pesquisar e suas ramificações mais próximas (congressos, colaborações, etc.). Minha pergunta interna foi: será que aumentando absurdamente os salários, isso traria melhoras para a divulgação também? Seria a capenga mídia científica que temos atualmente em última análise uma consequência do desinteresse pela carreira em si, gerado por sua vez pelo fato notório de que se ganha pouco (e se trabalha muito) na ciência? Ou seria uma característica da média das pessoas (média no sentido estatístico do termo) de não se interessar por ciência? (A tabela deste post do Rafael pode ser extrapolada para a vida real também?)
O que vocês acham?
Posts similares:
Educação científica: pela divulgação eficaz
Mulheres na ciência
As (con)sequências de Kozak
Post anterior: Malla no Interney - 1 ano
Próximo post: No cercadinho dos golfinhos
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes. A autora do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Comentários, Trackbacks:
Bom ponto!
Eu penso que existe um outro problema sério ai... a questão da educação, do ensino de ciência nas escolas. Fala a verdade, como é que um jovem que tem aquelas aulas que são pura decorebas de nomes, que mal chega ao que se considera uma alfabetização científica funcional, vai se interessar por essa carreira?
Às vezes me pergunto qual é a fatia da população que realmente entende o que é divulgado? para quem essa divulgação é dirigida?
bjo
Fato é que muitos das pessoas potenciais super-cientistas largam esse ramo pela falta de incentivo (salário). Eu mesmo trabalho em uma área que não tem nem um pouco ha ver com a minha. Porque na minha eu ganharia bem menos e com isso não dá pra eu pagar minhas contas e tal.
Aliás, é interessante notar que até mesmo na técnica avanços tecnológicos são considerados secundários em detrimento a questões econômicas maiores. Lembra-se do pró-álcool? Se não me engano, estava pululando lá nos idos de 1979. Mas só agora, mais ou menos ligado ao 11/9, o etanol "estourou".
Eu trabalharia como divulgador de ciência com um salário bem menor, inclusive até bolaria um blogue de assuntos aleatórios com curiosidades e fontes alternativas, de graça. (lol)
Mas tua pergunta esconde outra questão, mais profunda: será que a pesquisa pura, e tudo aquilo que ela pode dizer e indicar, enfim, será que o PENSAMENTO atual não é desmerecido em função de critérios exteriores, pouco pensantes?
Marília, às vezes eu penso que essa é a melhor resposta, sabia? Encarar o fato de q as pessoas intrinsecamente não se interessam por ciência. E bolar qqer estratégia para ser mais eficiente na divulgação com isso em mente. Por isso a questão da grana...
Miriam, hj a divulgação é voltada para pouquíssimos. Se vc fizer uma pesquisa rápida sobre os interesses das pessoas ao abrirem um jornal de papel, verá q poucos contabilizam o caderno "ciências" como seu favorito. A resposta passa sem dúvida por educação básica. Mas acho q passa tb por um melhor incentivo (entenda-se $$$$) para a profissão. Adolescentes não querem ser modelos e jogadores de futebol só por causa do glamour: há o fator dinheiro pesando substancialmente. Sabe-se q se bem-sucedido nessas profissões, a recompensa é imensa. Meu pai lida com escolinhas de futebol e repete isso incessantemente: todo pai/mãe acha q tem um Ronaldinho em casa. Mas não apenas acha por conta do talento com a bola: pela grana q o filho pode gerar se for bem-sucedido, pelo conforto q ele pode trazer pra casa.
Cleber, quis exagerar no salário ideal exatamente para elevar a profissão de cientista a um patamar quase-glamouroso. Para expor essa falha do sistema: paga-se mal e consequentemente divulga-se mal, pq poucos são os que se interessam em perpetuar esse conhecimento, e até mesmo fazê-lo encantador, despertando interesse de outros.
Catatau, renda não é exclusivo mas pesa muito. Imagine a cabeça de um moleque de 15 anos, tendo q se decidir sobre o q fazer de seu futuro hj. Em meio à crise, vendo pais se sacrificando para pagar a mensalidade de uma escola particular (qdo isso é possível...). A chance de q esse moleque escolha uma profissão q lhe dê um retorno financeiro mais substancial para aliviar esse peso é imensamente maior, a meu ver.
Sua pergunta spin-off é excelente. Eu tb acho q o pensamento é deixado de lado em prol de externalidades outras.
S. Wayne, concordo, as crianças são curiosas, mas falhamos muito ao fazer essa curiosidade morrer - e fazemos isso talvez pq nossas carreiras na ciência são desintere$$antes.
Abracos a todos.
Será que muitas crianças tem o perfil para se tornar cientista? Não basta ser curioso, tem que ter iniciativa, persistência, capacidade de aceitar críticas...Talvez a categoria cientista também possa ser um nicho para pessoas que estão interessadas em ser ricas e ganhar muito dinheiro, principalmente na área da biologia. Isso eu já ouvi de um aluno, que escolheu seguir essa profissão.
E o nível de educação da população vem decaindo a cada geração e no mesmo ritmo o nível das reportagens, porque simplesmente os leitores não conseguiriam entender.
Viajei demais...
O problema da pesquisa é semelhante ao da educação, e vários outros: em outros países vemos também divulgação científica ruim, mas sobretudo vemos substancialmente coisa boa (e muito da brasileira é apenas requentado disso). Isso porque existe financiamento massivo, e um bom pesquisador não se define apenas pelo talento individual.
Por aqui temos excelentes pesquisadores, em todas as áreas. Mas infelizmente muito desse sucesso não se refere a financiamentos massivos, valorização pela pesquisa pura, desenvolvimento próprio de tecnologias... o que se vê é o contrário: privilégio de financiamento apenas em matéria "aplicada", importação de tecnologia, e o tema corriqueiro da fuga de cérebros.
É claro que no Brasil existe pesquisa, boa pesquisa, e financiamento para pesquisa. Mas deveríamos perguntar o quanto isso é "estrutural", o quanto a pesquisa pura, por exemplo, é prioridade (pois a aplicada é apenas desenvolvimento da pura, grosso modo), o quanto se valoriza pesquisadores em relação às valorizações de outras profissões, e assim por diante. Isso difundiria a divulgação científica, e faria com que um bom pesquisador não o seja somente porque superou os perrengues e desenvolveu individualmente seu talento.
Além disso, muitos médicos no Brasil ganham pouco ou trabalham exageradamente e em diversos lugares pra pagar as contas e ter um salário decente... São Paulo é uma ilha isolada no mar do Brasil, nesse sentido. Meus amigos médicos do ES e do Rio estão constantemente reclamando (a não ser aqueles q escolheram cirurgia plástica, é claro).
Pat, é realmente insustentável todos ganhando dinheiro. Nenhum governo quer isso. Mas na roda da produção de capital, o investimento final em ciência tem sido muito subvalorizado. Eu tb sou da opinião q ciência não é profissão pra todo mundo seguir - assim como teatro, voleibol etc. Passa pelo interesse individual, as aptidões desenvolvidas por cada um. Dado isso, o q me entristece são 2 fatos: 1) as pessoas q têm aptidão científica podem efetivamente estar optando por outras carreiras por questões financeiras; 2) os que escolhem ciência permanecem subvalorizados, de certa forma sacrificando-se em prol da mesma sociedade de produção q supostamente investe neles como base da manutenção da roda-viva.
É de doer, sinceramente. (E viajar demais aqui nunca é problema: é pré-requisito. Desencana.
Catatau, acho q meu ponto 2 na resposta p/ Pat vai ao encontro do seu comentário. É a voz social q é abafada qdo não se paga bem um cientista. E isso puxa a divulgação, o interesse da população em geral...
A pesquisa pura hj, no Brasil, acho q é fruto de brilhos individuais. O financiamento geral, em estados não-São Paulo, beira o patético. Além de ser o 1º ponto de corte do governo qdo precisa arroxar os gastos. Deprê.
Deixe seu comentário:
Trackback:
http://www.interney.net/blogs/htsrv/trackback.php/29122 














