22.Novembro.08
A realidade da pesca no Brasil
Acabo de assistir a um Globo Repórter sobre pesca, que me deixou decepcionada - com a superficialidade com que o tema foi tratado. Esses dias mesmo, comentei com o André e com o Jorge sobre a diferença vista em muitos dos grandes jornais estrangeiros, que se aprofundam e mostram uma opinião muito mais sedimentada e atual. No Brasil, parece que o fato de termos 80% de analfabetos funcionais deprime os jornalistas a tal ponto que não se animam a se aprofundar em nada, por medo (com razão) de não serem entendidos pelo grande público, que é quem dá audiência/venda, e que é o que importa no final das contas (a pagar). Textos profundos não dão ibope. (Há exceções, é claro. Mas são cada vez mais isso: exceções claras.) Os jornais são um business e os profissionais ali dentro estão subordinados, por mais que se esforcem ao contrário, ao poder do CEO. Aqui e no exterior. Problemas de mentalidade da empresa, talvez? Mas enfim, prossigamos.
A reportagem não poderia ter sido mais desfocada. Aliás, minto: havia foco, mas no ponto errado. A sensação que tive foi de matéria paga - pela indústria pesqueira. O ecólogo e seus "problemas" foram retratados de maneira lateral, assim como o pescador de Rondônia que sustentavelmente sabe que se pescar todo o pirarucu de uma vez, amanhã não terá mais. Eram exemplos de "exotismo" - o mainstream da reportagem era a produção em larga escala, saudável ao desenvolvimento do país. Mostraram-se várias cenas de pesca de arrasto, uma atividade proibida pelo IBAMA em diversos estados brasileiros até 3 milhas da costa, e que todos já sabemos ser extremamente danosa aos estoques pesqueiros. Mostrou-se o "drama" da vida do pescador de navio artesanal (com sonar? Em que difere hoje de um navio industrial, aliás? Uma linha muito tênue, quase invisível, as separa hoje em dia...). Mas não se mostrou o "drama" de todas as espécies marinhas, inclusive raias e tubarões-martelo, que são cada vez menos vistas, e muitas até já em vias de extinção. Claro, o antropocentrismo impera: o foco do programa era o Homo sapiens, essa espécie que, para sobreviver, usa as demais do planeta sem piedade, inclusive eliminando-as - mas esquece que sem a interação que o une a essas outras espécies, também tem grandes chances de colapsar.
Visitei inúmeras comunidades pesqueiras por esse Brasil varonil, da Amazônia ao Rio Grande do Sul, e em todas elas, fiz a mesma pergunta: como anda a pesca? A resposta dos pescadores é unânime: mal, muito mal. Cada vez os pescadores precisam ir mais longe, gastar mais tempo no mar, para pegar a mesma quantidade de peixes - ou menos. Em Itaúnas, lembro claramente a expressão usada por um pescador para definir o mar que ele cresceu enfrentando: rastelado.
E perante esta realidade nada bonita, temos o paradoxo: listas feitas por órgãos idôneos de pesquisa mostrando o colapso numérico da maior parte das espécies de peixe comerciais, e um governo federal que acredita que pescamos pouco (?!?!?!) e quer aumentar a produção pesqueira em 40%. É de chorar.
A reportagem do Globo Repórter se esforçou em mostrar a suposta realidade da indústria pesqueira. Então, pergunto eu: por que não assinalou a dualidade que esta indústria vive de maneira mais pungente, ao invés de criar a ilusão de que ainda temos peixes à vontade no nosso litoral? A cena da rede de arrasto cheia de arraias ainda me dói na cabeça só de lembrar, e é dessas cenas que infelizmente a massa da população guarda na memória: fartura, é isso que ela sugere. Infelizmente, fartura seria a última palavra que eu usaria para me referir aos estoques pesqueiros atuais.
Um problema lastimável que, a depender de reportagens assim, continuarão sendo ignorados pela maioria. Ou pior: desinformados. Um desserviço total.
Tudo de mar - sempre?
**************
P.S.: Para fazer justiça à reportagem, fala-se do problema da sobrepesca da sardinha. E só. O escorregão está justamente aí: como se apenas a sardinha estivesse em problemas sérios. Jornalismo deprimente.
P.S. 2: Pior de tudo: deve ter um mês no mínimo que eu não assisto a algo na Globo - ligo a TV pra ver seriados e CNN, só. Depois dessa "experiência" de hoje, o canal não terá minha audiência por mais um bom tempo.
Posts similares:
Semana Nacional da Pesca - Insustentável, entenda-se
Por que a carne de cação é tão barata?
Rastelando o mar
Post anterior: Sexta Sub: Tubarão no portfólio
Próximo post: Over/under: Arquipélago de São Pedro e São Paulo
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes. A autora do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Comentários, Trackbacks:
Moro na França e muitas vezes fico chocada diante da diferença de nivel da TV/jornal daqui e do Brasil. Aqui vemos muitos (excelentes) documentarios sobre ecologia, arte, literatura, politica. Os jornais na Internet são sérios e bem feitos. Os franceses adoram politica.
Dai cada vez que eu entro em certos sites brasileiros fico assustada com a futilidade, superficialidade e muitas vezes a vulgaridade das noticias. E' muito triste.
Acho que a única coisa do jornalismo da Globo que ainda presta é um programa largado lá na programação da terça-feira (começa depois das 23h) chamado "Profissão Repórter". O programa é comandado pelo Caco Barcellos e tem uma equipe de repórteres novatos, aprendendo a lidar com os vários lados de uma mesma notícia. Acho que vale a pena dar uma olhada pelo menos neste programa - começa terça-feira, depois do "Toma lá dá cá" (ou seja, vc tem que esperar a novela, depois o "casseta e planeta", depois o "toma lá...", pra aí sim começar o programa).
A pesca está mal no mundo todo. Na Itália, peixes tropicais estão invadindo o Mediterrâneo e os daqui começam a escassear. Italiano consume muito atum e salmão. O primeiro, cheio de mercúrio; o segundo, em extinção. Mas não é tudo: o preço da abobrinha (muito consumida por aqui) triplicou. Com as abelhas dizimadas por agrotóxicos as plantações simplesmente não vingam. Enquanto isso, na Inglaterra, os cientistas pesquisam o desaparecimento de 2/3 dos pássaros de Londres.
Se fossem só os peixes já seria péssimo.
André, eu assisti a apenas um "Profissão Repórter", sobre trabalho no mar, inclusive. Mas confesso q fiquei igualmente deprimida com ele, e nunca mais me animei a assistir, por causa de uma cena de "heroísmo" de um pescador agarrado a um tubarão-martelo enorme no convés do navio pesqueiro. Como se o bicho fosse um troféu - e é, para ele. A Globo mostrar aquilo, que é de certa forma um "incentivo" à pesca do tubarão, foi deplorável.
Allan, pois é. Os peixes estão longe de serem os únicos nessa cadeia de devastação. Por isso é de uma irresponsabilidade gigantesca passar a informação contrária numa reportagem. Seja com que grupo animal for.
Abraços aos 3.
Ainda vai piorar muito, antes de começar a melhorar. Foi esse desânimo com a quantidade de abobrinhas superficiais que me levou a "batizar" meu Blog de "Chi vó, non pó"...
Por um acaso eles tiveram a dignidade de dizer q a industria de camarões de cativeiro destroi manguezais? E sem manguezais nao vai ter mais peixe pra ninguem? Duvido...
Também não dá pra esperar muita coisa da Globo. Até o nível da Globonews (onde ficava a vida "inteligente" do sistema Globo de Comunicação) caiu bastante nos últimos tempos.
Abração
Claudia, disseram. Mas meio en passant. Focaram mais no camarão como gerador de empregos, "sustentável" (pq fazenda), etc. Triste.
André, então, eu só vi um episódio do "Profissão repórter" e foi justo esse q me entristeceu. De repente, o programa mudou um pouco de curso desde então, sei lá. Vou dar uma olhada uma madrugada dessas.
Beijos a todos.
Reportagem bem infeliz essa...
Muito bom post. Apenas uma observação: quanto ao "com razão", dos jornalistas terem "medo de não serem entendidos pelo grande público, que é quem dá audiência/venda, e que é o que importa no final das contas (a pagar)".
Você toca precisamente em qual é, ou deve ser, o papel do jornalista. Veja que o baixo nível se "preocupa" com a audiência não instruída. Mas você mesma mostra a razão mais secreta: é ela que paga. O que significa dizer: o jornalista não está nem um pouco preocupado em instruir, em trazer o nível "para cima"; quer, sim, é a "venda", proporcionada pela "audiência".
Que "razão" é essa, que os jornalistas têm? Uma razão instrumental, baseada na mera venda de produtos. Não uma razão preocupada com o papel público do próprio jornalista (e tomo "público" em sentido bem preciso, da esfera pública contraposta à privada, a construção de uma esfera pública em ddetrimento a ganhos pessoais, um país ao invés de 'jeitinho', e assim por diante)
Catatau, perfeita sua colocação! Há uma falta de comprometimento da "massa jornalística" com o papel público do jornalista. Por razões de mercado. Não deveria ser assim.
Bjs!
Muito bem pontuada a questão da decepção com o jornalismo, posso dizer, que no meu caso, como bióloga, a decepção é ainda maior com o jornalismo ambiental que vem trabalhando a favor da devastação.
Assisti ao globo reporter e a sensação que tive foi a mesma de todos vocês: um programa comprado pelas empresas e indústria da pesca. A quantidade de inverdades presentes na matéria foi assutadora, a começar pela sardinha, e depois sobre o mero, que tem sua pesca proibida. A matéria para mim parecia que estavam querendo mostrar o quanto a pesca é necessária e sustentável. Não sei se quem comprou a reportagem foi a industria pesqueira ou se foi o governo, que está em fase de se transformar uma secretaria em ministério, e que ainda pretende investir no desenvolvimento da tecnologia pesqueira a serviço da exploração.
ABSURDO!
O relatório do Greenpeace, disponível no site: www.greenpeace.org.br/oceanos tem informações concludentes sobre o setor nacional pesqueiro para quem se interessar por uma excelente compilação de informações de mais de 46 profissionais da conservação marinha.
abraços
leandra
Parabéns especialmente pelo relatório do Greenpeace. Eu já li e acho fundamental p/ q se tenha um parâmetro numérico desses para poder começar a barganhar algo ambiental nesse país.
Adir, repórter funcional: essa vou guardar pra um próximo post. Gostei.
Beijos aos 2.
Acho que toda mídia é tendenciosa. Nós mesmos somos também - descaradamente a favor de fazer a nossa parte pelo meio ambiente, né? ;-) Só que nossa tendência é "do bem".
Força pra vcs, de coração.
Deixe seu comentário:
Trackback:
http://www.interney.net/blogs/htsrv/trackback.php/27661 















