24.Setembro.08

O tour da sustentabilidade

Horta-4

Já há algum tempo, nós temos pensado em ter uma hortinha em casa, para pelo menos algumas verduras básicas. Em São Paulo, conseguimos manter em vasos manjericão, alecrim, orégano e hortelã. Há ainda no quintal uns pés de cebolinha, alguns de café, um pé de limão e um de amora, que garante boa geléia. Tentamos plantar tomate e rúcula, mas não foram pra frente - provavelmente erramos em algum passo. A idéia geral, entretanto, é no futuro ter uma horta decente, assim que tivermos assentado em algum lugar do mundo.

Eis então que em Bonito tive uma ótima surpresa ao me deparar em algumas das fazendas de ecoturismo com hortas próprias. As fazendas estão abraçando a sustentabilidade cada vez mais e isso é bom. Entusiasta de hortinhas, fui xeretar na horta alheia para aprender um pouco mais.

Das fazendas em que estivemos para passeios em Bonito, visitamos 2 hortas: a da Rio da Prata e da Estância Mimosa. Na horta da fazenda Rio da Prata, passamos mais tempo mallificando perguntando curiosidades ao biólogo Samuel, que nos guiou pelo que chamei secretamente de "tour da sustentabilidade" - modalidade que deveria ser incorporada ao dia-a-dia do turismo em geral. Primeiro, visitamos os montes de compostagem, onde o lixo orgânico gerado pelos turistas que frequentam a fazenda é colocado para decomposição natural. Cada monte de compostagem pode chegar a 70ºC em seu interior, indicação de alta atividade metabólica de bactérias e outros seres degradadores. Depois de um tempo, quando a temperatura abaixa, o produto da compostagem é levado ao minhocário.

No minhocário, o material orgânico é misturado ao solo e as minhocas fazem seu trabalho de aeração e adubação, tornando a terra mais fértil, fofa e preparada para o plantio. Depois que as minhocas atuaram, o solo aerado e adubado é peneirado para facilitar o manuseio e levado para a horta. É nesse solo que são plantados todas as verduras consumidas na fazenda pelos turistas e funcionários. São várias fileiras de alface, rúcula, manjericão, espinafre, beringela, tomatinho, saião, cebolinha, coentro, endro, quiabo, beterraba... e é tudo tão verde-intenso-natural, que dá vontade de comer salada imediatamente.

Horta-2Horta-3
Olha essa beringela! Ao ver a qualidade das verduras, André queria um tonel de azeite de oliva para despejar ali mesmo nas alfaces e começar a salada... :D

A horta é toda orgânica, sem nenhum uso de agrotóxicos ou defensivos químicos. Perguntei como eles evitam pragas sem usar pesticidas. A resposta foi simples: plantam em locais estratégicos vegetais que "espantam" as pragas comuns, como a citronela, o tabaco, a arruda e a pimenta (só o sabiá come a pimenta). Além disso, plantam lado a lado vegetais que se ajudam no combate às pragas. Um sistema muito interessante e facilmente aplicável em pequena escala como ali.

As verduras da horta vão depois de crescidas para a refeição das pessoas que visitam a fazenda. E eu preciso dizer que nunca comi alface com gosto tão bom como aquela. Era alface com gosto de alface fresca de verdade, não de folha de papel como as que compramos em mercados por aí. Fora as beterrabas, super-doces e suculentas.

Mas nem só da horta orgânica vive uma fazenda sustentável. O Samuel cuida também do viveiro de mudas de espécies nativas, que são enviadas para áreas onde estão sendo reflorestadas. São centenas de potinhos com mudas de aroeiras, perobas, jaracatiás, ingás, ipês... todas grandes árvores, que daqui a algumas décadas mudarão positivamente a paisagem do local. Em linhas beeeem gerais, horta no curto prazo; floresta a longo prazo; mas sempre pensando no ambiente saudável.

Horta-1Horta-6
O minhocário, onde as minhocas são as trabalhadoras "braçais". No chão do minhocário, a terra já peneirada pronta para ser usada na horta. Ao lado, as mudinhas de árvores para reflorestamento.

Na fazenda da Estância Mimosa, depois de ver as mudinhas de árvores, terminei plantando uma aroeira no fundo do quintal. A aroeira é uma madeira nobre, motivo pelo qual foi bastante dizimada da região para virar móveis. Hoje é proibido matar uma aroeira nativa para coleta da madeira. Espero imensamente que meus netos, bisnetos ou afins voltem daqui a uns 100 anos na Estância e encontrem a árvore que eu plantei bonita e frondosa.

Horta-5Horta-9
As mudinhas de aroeira, que depois plantei no quintal da Estância Mimosa. Um dia atrasada nas homenagens práticas ao dia da árvore.

Mas Mato Grosso do Sul não é Mato Grosso do Sul se não tiver gado. A pecuária é uma das maiores fontes de renda do estado e imensas áreas de pasto são vistas em todas as fazendas da região, inclusive as dedicadas ao ecoturismo. Aliás, antes de explorarem o ecoturismo, eram todas pecuaristas - e eu chamaria o turismo nessa região de agroecoturismo, já que o ecoturismo é uma porcentagem da área total das propriedades rurais ali e já proporciona mais renda que o gado em algumas fazendas. Por lei, cada propriedade deve manter 20% de área nativa (e se não tiver mais, deve reflorestar). A maior parte das fazendas está em déficit ambiental com as regras do governo, entretanto.

Horta-7Horta-10
Vacas por todo o lado: eis a cena mais comum do Mato Grosso do Sul, o centro pecuarista do Brasil. Ao lado, fazendo a Cavalgada pelos pastos enquanto ouvia as histórias pantaneiras...

Como todos sabem também, gado não combina muito com sustentabilidade. Vale ressaltar que no Mato Grosso do Sul o gado não é confinado (cria-se em média 1 cabeça por hectare) e a abundância de água minimiza os impactos gerais da atividade ali - mas mesmo assim, ver tanto pasto incomoda em minha visão de ecoturista. O problema é, entretanto, muito mais complexo: a pecuária já é uma característica cultural daquela região, desde os tempos que o Paraguai ainda era o dono dessas terras. Tirar a pecuária dali é algo como tirar o samba do Rio de Janeiro, um fator gerador não só de impacto econômico como também de um impacto cultural complicado de se lidar. Há de se minimizar o impacto ambiental, portanto, sem deixar de lado questões humanas.

Com essa visão na cabeça, foi ótimo numa tarde sair para a Cavalgada pela fazenda do Rio da Prata. Confesso que eu não sou muito fã de cavalos e se dependesse de ser amazona estava no sal completo, mas é uma forma de lançar novas perspectivas a uma paisagem tão batida. Circulamos entre enormes áreas de pasto, num sobe e desce de grama sem fim, ao lado de inúmeras vaquinhas. Depois entramos num pedaço da RPPN (área de ecoturismo) e temos uma sensação muito diferente ao fazer uma trilha de mata em cima de um cavalo. A copa das árvores está mais próxima, o animal pára toda hora para comer (afinal, às vezes o bicho me controlava) e é possível ver detalhes "altos" da floresta ciliar muito interessantes.

Nosso guia de cavalgada era o Fábio, um típico pantaneiro. Conversamos bastante durante as 2 horas de cavalgada. Ele nos contou diversas histórias e estórias que envolviam pecuária e as diferentes "querelas" pecuaristas com politicagens e problemas indígenas, mostrou um lado da cultura pantaneira fascinante e suas palavras simples mas cheias de conhecimento prático deixaram um monte de novas questões sócio-ambientais para reflexão. Nem só de horta afinal vivem as atitudes ecoconscientes.

E se um "tour de sustentabilidade" não deixasse essas questões, não teria valido tanto a pena - pelo menos para mim.

Tudo de bom sempre.

****************

- Publicado também no Faça a sua parte.




Posts similares:
O meu jardim
Tomates suicidas
Gastronomia Mimosa de fazenda

Post anterior: No Buraco das Araras

Próximo post: Aventura do dia

(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes. A autora do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)

Comentários, Trackbacks:

Comentário de: Marília · http://maroma.wordpress.com/
Adorei esse tour!
PermalinkPermalink 24.09.08 @ 14:37


Comentário de: João Carlos · http://chivononpo.blogspot.com
O caso é que a região sempre foi um "prato cheio" para a pecuária extensiva: lá se "planta" boi... Esse tipo de pecuária (por ineficaz que seja) não precisa de desmatamentos ou de maiores agressões ao meio ambiente. O desmatamento corre muito mais por conta das carvoarias e da exploração desenfreada das "madeiras de lei".

O "peão" (montado, o que não deixa de ser um contrasenso) pantaneiro absorveu muito da cultura indígena e, se não vive em paz com, pelo menos não vive em guerra com a natureza. É um relacionamento parecido com o do marinheiro com o oceano: um misto de amor e temor. Aliás, a navegação terrestre no Pantanal lembra muito a oceânica. As "comitivas" ainda se baseiam muito em uma variante dos "portulanos".

A maior ameaça a esse modo de vida vem da imigração de sulistas e suas práticas intensivas de agricultura e pecuária (devidamente importadas da Europa).

Mas, se há algum lugar na face da Terra onde se pode pensar seriamente em "desenvolvimento sustentável", eu aposto no Pantanal.
PermalinkPermalink 24.09.08 @ 15:15


Comentário de: denise rangel · http://drang.com.br
Lucia, fico até com vergonha de minha hortinha. Que coisa maravilhosa. Realmente, o sabor do vegetal fresquinho é algo indizível. Meu tomateiro também não vingou, não sei o porquê. Mas, vou aprendendo aos poucos.
Que passeio incrível, hein, Malla. Amei.
beijo, menina
PermalinkPermalink 24.09.08 @ 16:11


Comentário de: Lucia Malla · http://interney.net/blogs/malla
Má, fico muito feliz q tenha gostado. :)

João, vc mais uma vez faz uma excelente colocação. No Pantanal, as condições naturais são muito mais favorecedoras da pecuária que em muitas áreas onde a atividade é intensa, mas às custas do ambiente. Apesar de alguns eucaliptos no MS, o Pantanal parece ser terreno fértil para boas idéias de sustentabilidade, e não só envolvendo turismo. Aguardemos com torcida.

Denise, tomate é difícil cultivar! Principalmente em hortas menores. Mas não desista. :)

Beijos a todos.
PermalinkPermalink 25.09.08 @ 01:06


Deixe seu comentário:

Seu endereço de email não será exibido nesse site.
Sua URL será exibida.

Trackback:

http://www.interney.net/blogs/htsrv/trackback.php/24518

As aventuras de Lucia Malla pelos 5 cantos do planeta: um blog de viagens...

Perfil da Malla

As fotos postadas neste blog também podem ser vistas nos sites abaixo:

Stock photography by Andre+Seale at Alamyartesub button

Interney Blogs

Feeds

Passeios virtuais

Na mala da Malla

Tubarão não é sopa

SHARKWATER

Friend of The Right Blue

Coral Reefs Forever - coral.org

Faça a sua parte

DECALOGO.jpg

Verbeat Blogs

BonitoWeb

I am a hard bloggin' scientist. Read the Manifesto.

Creative Commons License
Copyrighted by
Creative Commons License.

Add to Technorati Favorites

TwitterCounter for @luciamalla

Uêba - Os Melhores Links

As fotos deste blog são de uso exclusivo de Lucia Malla e André Seale. Caso queira utilizar as imagens contidas aqui para fins diversos, por favor contacte a Lucia: mallablog ARROBA gmail PONTO com. A gente precisa saber pra que "viagem" ela vai antes de liberar...

Sign by Danasoft - Images for Myspace Layouts


[ La Brute - Jogo Online em Flash Grátis ]