23.Setembro.08
No Buraco das Araras
Em 2003, quando estive em Bonito pela primeira vez, a ida ao Buraco das Araras foi marcada por chuva e apenas uma arara avistada lááá longe. Confesso que saí meio frustrada do passeio na época.
Então a oportunidade de voltar a esse local tão único foi extremamente bem-vinda - é um dos poucos lugares do mundo onde podemos ver e fotografar de cima uma arara voando. No mesmo dia da flutuação pelo rio da Prata, fomos aproveitar o fim de tarde no Buraco das Araras, que fica a poucos minutos de distância da fazenda do Prata.
O Buraco das Araras é uma formação que acho muito curiosa. Na geologia chama-se dolina, que é uma cavidade circular onde o solo de rochas calcáreas "desabou". A dolina do Buraco das Araras nos arredores de Bonito é a maior da América Latina em circunferência (aproximadamente 500m), tem 124m de profundidade e para descer, só rapelando - o que não é mais permitido. Antes ali havia uma caverna e foi o teto desta caverna que caiu em algum momento há milhares de anos. Os sedimentos do teto viraram solo e substrato para algumas plantas e até para a formação de um laguinho, onde um casal de jacarés vive há mais de 10 anos com requintes de canibalismo - comem os filhotes no período de estiagem e ninguém sabe como esses jacarés chegaram ali.
Também não se sabe como as araras vermelhas (Ara chloroptera) chegaram ali, mas fato é que decidiram fazer da área sua morada segura, talvez pela abundância da palmeira que lhes dá o fruto nosso de cada dia. De acordo com o último levantamento da avifauna, cerca de 40 casais vivem no Buraco. Havia mais araras vermelhas no passado, mas muitas foram capturadas para exportação, quando o Buraco não era ainda uma reserva, a estrada passava ali do lado e um mito local dizia que você deveria atirar ao passar pelo Buraco (!!!). A depredação exagerada fez com que as araras desaparecessem do Buraco por um tempo, mas assim que o projeto de conservação foi posto em prática, os animais foram aos poucos voltando.
As araras vermelhas são monogâmicas e uma vez escolhido o parceiro, nunca mais se separam. Por isso, é muito comum vê-las voando em duplas. Ali no Buraco das Araras, elas podem ser avistadas de 2 decks de observação, um de cada lado da dolina. Uma vegetação de cerrado circunda a trilha que leva aos decks, e expõe o visitante a aprender um pouco sobre esse bioma ameaçado - nosso guia chegou a comentar sucintamente sobre hotspots de biodiversidade, tamanha preocupação com a sobrevivência futura do cerrado. Adorei a inserção de tal divulgação científica para os turistas.
Em geral, as araras vermelhas ficam em árvores dentro do Buraco ou próximas a ele - de preferência na palmeira cujos frutos as alimentam. Percorremos todo o perímetro da trilha, e com o sol já em seus últimos momentos do dia, um grupo de araras se apossaram de uma árvore fora do Buraco e resolveram ficar lá, gralhando ao longe, em comunicação intensa. De vez em quando uma voava, outra chegava, uma se isolava em outra árvore não muito distante, mas todo o grupo rondando nossas cabeças. Foi a visão que faltava para coroar nosso dia perfeito: pôr-do-sol com araras vermelhas em seu ambiente natural, livres para voar para onde quiserem. Qualidade de vida animal para biólogo nenhum botar defeito.
Tudo de bom sempre.
6 viajaram comigo
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Comentários, Trackbacks:
Divirtam-se, beijos
Lindo post, Lú.
Saudade de vcs (vcs dois e das araras, ahahaha).
Beijos
Patsy, vc tem q vir aqui tbm, hem? Largar a urbe e entrar de cabeça no verde.
Alline, eu lembrei de vc o tempo TODO escrevendo esse post. É praticamente dedicado à vc.
Beijos às 3 queridas!
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