20.Setembro.08

O rio da Prata é ouro

Rio da Prata 5

Não é à toa que a flutuação pelo rio da Prata foi eleita pela segunda vez consecutiva o melhor passeio do Brasil, de acordo com os leitores do super-conceituado Guia 4 Rodas. É simplesmente o local mais imperdível de Bonito.

Rio da Prata 1
A casa-sede da fazenda, onde os turistas são recepcionados para o passeio de flutuação.

Chegando à fazenda do rio da Prata, chamada Cabeceira do Prata, de propriedade de Eduardo Coelho, já começamos a sentir aquela sensação de relax crescente, garantida pela excelente recepção da Keila, que explica o passeio e as coordenadas do local em português e inglês tranqüilo para os turistas estrangeiros (que são em número significativo). Ali, no varandão, as pessoas começam a se animar para o passeio, seja conversando com os guias, seja provando as roupas de neoprene, seja simplesmente esperando a sua vez de subir no caminhãozinho que leva à nascente Olho D'água, onde a flutuação começa. O burburinho é grande, principalmente entre os que nunca estiveram ali. Era nossa segunda vez no rio da Prata e aproveitamos aqueles momentos iniciais para trocarmos palavras com o prestativo gerente local, com alguns outros turistas e para observarmos as jandaias que agora habitam uma árvore no quintal - da outra vez que estivemos aqui, era uma sucuri que acidentalmente embelezava a mesma árvore.

Jandaia
Jandaias (Aratinga solstitialis) no poleiro feito na árvore.

O passeio é feito em grupos e nosso grupo era composto por 10 pessoas, contando o guia e biólogo Marcos, para quem demos carona de ida e volta - pudemos conversar bastante sobre diversos aspectos do ecoturismo, da biologia e da sociologia de Bonito nos 56km de estrada. O caminhãozinho passa por dentro do pasto de gado nelore e depois de poucos minutos chega à Reserva Particular de Patrimônio Natural (RPPN) Recanto Ecológico Rio da Prata, que ocupa aproximadamente 30% da área da fazenda. Uma RPPN é uma unidade de conservação privada estabelecida em caráter perpétuo: se o dono quiser vender as terras, aquele pedaço jamais pode ser mexido; em troca de tal investimento à natureza, o dono ganha principalmente isenção do imposto rural referente àquela área e alguns privilégios no Fundo Nacional do Meio Ambiente.

A RPPN do Rio da Prata é de "floresta semi-decídua estacional sub-montana" (como falou nosso ecoguia): semi-decídua porque parte das árvores apenas perde as folhas durante a estiagem; estacional porque possui 2 estações definidas, a seca e a chuvosa; e sub-montana porque está um pouco abaixo de uma região montanhosa. Na trilha de 40 minutos que nos leva até a nascente do Olho D'Água, o guia explica sobre diversas árvores comuns da região, comentando tanto aspectos científicos como de conhecimento popular. Há uma aroeira linda e enorme logo no início; um peroba rosa e um jatobá, ambos utilizados medicinalmente pelos habitantes locais. A trilha é super-fácil de andar e em determinado momento, avistamos uma ressurgência com água potável minando direto do solo. A sensação de ter a rara oportunidade de tomar água direto da fonte em forte contraste com nosso mundo atual poluído é indescritível e chega a dar vontade de chorar de emoção (eu fiquei com um nó na garganta, confesso).

Rio da Prata 9

Quando chegamos no fim da trilha, a visão é extasiante. A água cristalina, fruto da sedimentação facilitada que o excesso de calcário e sais de magnésio proporcionam, permite que vejamos os peixes e os pés das pessoas no fundo. Antes da flutuação em si começar, damos uma volta na área da nascente - que já é de tirar o fôlego de tão linda, verdadeiro aquário onde piraputangas, dourados, curimbatás e outros peixinhos habitam. Ali também crescem algas que formam esculturas naturais submersas, muitas dignas de filmes abstratos, que pincelam em tons de verde essa visão do paraíso aquático. Mas o que mais impressiona mesmo é o azul profundo da água cristalina, simplesmente inebriante.

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Depois do giro pela nascente (e com a sensação já de êxtase absoluto) começa o passeio "de verdade": começamos a flutuar os 2 km do rio Olho D'Água e da Prata. O Olho D'Água é um rio estreito e raso, e em vários momentos temos a nítida impressão de que vamos "enganchar" nas rochas - mas não engancha se você estiver flutuando direitinho. A diversidade de cenários é fascinante, um grande estúdio natural para fotografia sub e um calmante maravilhoso para a saúde mental. De vez em quando eu levantava a cabeça para olhar a mata exuberante ao redor e ouvir o canto dos pássaros. Mas esses momentos não duravam muito, porque embaixo d'água tudo é tão belo, que você não quer perder um minuto de descida.

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Pronta para o início da flutuação no rio da Prata, um caminho de água cristalina pela mata.

Mais ou menos na metade do trajeto, nós saímos do rio e passamos por uma trilha - naquele ponto, o rio possui uma corredeira mais violenta onde não dá pra passar flutuando apenas. Há uma micro-corredeira que a gente desce sem maiores problemas e dali pra frente mais uns 20 minutos rio abaixo, encontramos o famoso "Vulcão".

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Pessoal voltando ao rio depois de uma corredeira e ao lado, o "Vulcão" levantando areia do fundo.

O Vulcão é uma ressurgência de água maior que as que vemos anteriormente, que "borbulha" constantemente no fundo (e levanta uma certa poeira na água cristalina...). Nesse local do rio, há um deck de descanso, e é o único ponto onde podemos descer em apnéia, para tocar no Vulcão. Lá embaixo, a sensação é de uma erupção de areia, muito interessante. Depois de uns minutos ali, continuamos a flutuação e chegamos finalmente no rio da Prata, onde flutuamos por cerca de 800m. Ali, o rio é mais fundo, escuro, e a paisagem sub muda significativamente. Esse trecho, aliás, pode ser percorrido de barco, caso a pessoa esteja cansada de flutuar. Nós, é claro, fomos pela água e fomos premiados com diversos dourados e piraputangas parrudos que moram por ali - aliás, há muito mais dourados dessa vez que quando viemos aqui em 2003.

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Um dourado (Salminus maxillosus) nada pelo rio da Prata.

O passeio termina numa "arquibancada" de pedra cheia de borboletas. Quando cheguei naquele ponto, a sensação que tive foi de que ficara na água por menos de meia hora - o passeio leva quase 2 horas em média. O fundo desse rio é tão cheio de cenários maravilhosos que eu não percebi o tempo passar, reflexo que praticamente todos sentiram em nosso grupo.

Na volta pra sede, um almoço de fazenda nos aguardava e o grupo já mais entrosado esbanjava sorrisos. Conversei bastante com um alemão e um grupo de brasileiros. Estava estampado no rosto de todos a satisfação que é marca registrada do local. Afinal, o rio da Prata, há muito tempo, é também um rio de ouro no cenário do ecoturismo mundial. O Brasil pode se orgulhar dessa jóia única de nosso território.

Tudo de Bonito sempre.

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Comentários, Trackbacks:

Comentário de: Chico · http://www.casadochico.blogspot.com
Lindo! Simplesmente lindo!

PermalinkPermalink 20.09.08 @ 18:49


Comentário de: Vida de Viajante · http://www.vidadeviajante.com.br
Lu!!!! que maravilha de passeio!

Não vemos a hora de chegar a "nossa hora" de ir para Bonito ;)

bjokas

Lyanne e Marcelo

PermalinkPermalink 20.09.08 @ 19:12


Comentário de: Carla · http://deusadomestica.com
Ai, que lindo. E eu moro tão perto de Bonito e nunca fui, que absurdo...

Lucia, pra fazer flutuação é muito complicado? Tem que ter prática ou curso? Eu tentei uma vez na praia, mas a combinação água do mar e snorkel acabou com a minha boca. Ver as tuas fotos me deu vontade de tentar de novo...
PermalinkPermalink 20.09.08 @ 20:06


Comentário de: Flavia · http://ladyrasta.wordpress.com
Lucia, não conheceer Bonito é uma das minhas falhas de caráter que eu preciso consertar...Descrição linda!
Na volta vou querer detalhes de tudo, inclusive quanto tempo demora pra chegar de carro (que o meu querido filho não me ouça)

beijos
PermalinkPermalink 20.09.08 @ 21:42


Comentário de: Lucia Malla · http://interney.net/blogs/malla
Chico, :)

Lyanne, vcs TEM q visitar Bonito. É ecoturismo de primeira.

Carla, eu acredito q a maioria das pessoas q faz a flutuação nunca fez snorkel na vida. Eles ensinam como usar máscara direitinho e a flutuação em si não exige muito esforço, pq vc é literalmente "carregada" pela corrente tranquila do rio. A boca fica um pouco doída na hora por causa do snorkel q vc pressiona com os dentes, mas a paisagem é tão bela q compensa o pequeno desconforto. É uma delícia. Recomendo. :)

Flavia, se eu bem te conheço, já vislumbro vc e seu filho na BR... :D

Beijos a todos!
PermalinkPermalink 21.09.08 @ 02:38


Comentário de: Luiza · http://www.licenciamentoambiental.eng.br
Parabéns pelo site e pelos textos dos posts!

Conheço o Rio da Prata e a sua descrição faz jus a beleza do local!
PermalinkPermalink 22.09.08 @ 09:26


Comentário de: Valentim
Caros Lúcia e André,
Foi legal conhecer vocês em Bonito e saber das viagens à Micronésia. Agora achei o máximo a qualidade do texto e das fotos (e fiquei contente de não ter levado câmera, pois as fotos do André satisfazem a minha necessidade estética e de documentação!). Gostaria de saber onde acho seus textos/fotos de Palau/Chuuk e as dicas de HNL?
Abraço e obrigado.
(Valentim & Lu Gentil)
PermalinkPermalink 24.09.08 @ 20:57


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