29.Setembro.08
Misterioso azul do Aquário Natural
Nossa visita ao Aquário Natural de Bonito foi marcada pela chuva, como em 2003. Mas diferente da vez anterior, quando apenas garoava, dessa vez o tempo estava completamente fechado, nuvens pretas no céu, o que deu à visão embaixo d’água tons mais sombrios e misteriosos. Decidi levar uma lanterna, porque o nosso guia havia dito que dava pra ver alevinos de piraputangas embaixo de algumas árvores – e nesses locais, a escuridão chuvosa predominava.

Alevinos de piraputangas entre as raízes de árvores.
Apesar de sempre ver o Aquário em condições desfavoráveis, ele impressiona tanto quanto o Rio Sucuri ou o Rio da Prata – são flutuações diferentes entre si, na minha opinião. Enquanto a paisagem dramática domina o Prata e os tons de verde dominam o Sucuri, no Aquário são os tons de azul profundo da água que tornam o cenário tão único.

A plataforma de madeira onde começa a volta pelo Aquário Natural.
A flutuação ali é a mais curta das três. Começa-se o passeio na área de nascente do rio Baía Bonita - que dá nome à reserva. Surge em pequenas borbulhas do fundo calcáreo. A profundidade é mínima, há diversos momentos em que a gente quase encosta a barriga no chão. Nosso guia disse ter visto um jacaré nesse local, mas não avisou a ninguém, provavelmente com medo de que o resto do grupo se desesperasse. Para André, a foto de um jacaré embaixo daquela água cristalina seria perfeita, e o guia não tê-lo chamado foi um vacilo, amenizado pelo fato dele ser simpático.

A lanterna ajudou a procurar vida no escuro dos troncos caídos e na penumbra das margens do rio Baía Bonita.
Depois da área de nascente, a flutuação começa. O grupo desce o rio e um barquinho acompanha. O azul é quase marinho e a chuva o torna mais profundo. Um ar de mistério permanente envolvia o cenário submerso, realçado pelas gotas da chuva forte nas nossas costas. Água embaixo e em cima.
Terminada a flutuação, passamos por uma longa trilha onde poderíamos fazer uma tirolesa e onde supostamente haveria muitos animais. Com a chuva forte, é claro, os animais estavam todos escondidos e o máximo que avistamos foram os olhos de um jacaré dentro de um laguinho.

Cotia comendo farelo de milho deixado pelo pessoal do receptivo do Aquário Natural.
De volta no receptivo mais bonito de Bonito, com cotias no quintal, tudo que queríamos era nos aquecer. A chuva que trouxe tanto ar de mistério azul profundo no passeio já gelava o corpo e era hora de se esquentar com o melhor chocolate quente que tomei na vida, num copão gigante e com uma camada de flan de chocolate na superfície. Delícia sem igual. Que no meio de tantas paisagens inebriantes, complementa perfeitamente o passeio.
Tudo de bom sempre.
28.Setembro.08
Pareidolias da Gruta do Lago Azul
9 de cada 10 visitantes de Bonito vão a um lugar: a Gruta do Lago Azul. É o passeio mais visitado de Bonito – e o mais barato. Ironicamente, em 2003 eu entrei no grupo estatístico dos que não foram. De modo que dessa vez a Gruta não escapava dos meus anseios turísticos.
Fomos cedo da manhã e nosso guia foi o “Aza” (com Z mesmo, porque vem de "Azaléia"), um contador de histórias e piadas de marca maior. Aliás, conversamos tanto durante a trilha que no dia seguinte encontrei-o no centro de Bonito e ele me reconheceu pelo nome. Aza é guia da caverna desde 85 e sabia muitos detalhes sobre a Gruta. Esse post, aliás, é bastante baseado nesse longo papo que tivemos – fui anotando tudo em meu caderninho amarelo.
A Gruta do Lago Azul é uma caverna de constituição calcárea. Uma enorme cavidade no solo serve de entrada para a caverna. Descemos cerca de 100m até o ponto mais ao fundo, onde avistamos o famoso Lago Azul. A descida é num terreno bastante acidentado e cheio de pareidolias (tem de bruxa a Buda, passando por um suposto “LA” dentro do lago; André até criou o “índice pareidólico” da gruta, onde o número de pareidolias apontadas pelo guia é proporcional à experiência do mesmo). Na realidade, a água ali não é azul: é apenas um efeito da difração dos raios de sol que entram na caverna na água super-transparente – esta última característica resultado do excesso de calcáreo, que eleva o pH da água a incríveis 8.2.


Nosso grupo de turistas na pequena trilha que vai até a gruta. Ao lado, a cavidade por onde entramos, vista de um ponto intermediário da caminhada.
A Gruta foi descoberta em 1924 pelos índios terena que viviam no Mato Grosso do Sul e comprada por um fazendeiro da região em 1948. Pertenceu a ele até 1972, quando o governo desapropriou por falta de cuidados, já que sem regulamentação, pessoas iam na caverna e faziam de tudo, desde depredar simplesmente até treinar tiro ao alvo nas estalactites (!). Com a posse da gruta pelo governo, em 1982 foi liberada para pesquisas científicas, depois que uma equipe francesa mergulhou no lago, pôs cordas de marcação submersas e mapeou a caverna – franceses fizeram isso porque na década de 80 não havia uma equipe brasileira com equipamento adequado para tal exploração aventuresca. Abri-la para pesquisa logo rendeu frutos: paleontólogos que estudaram o local encontraram dentro do lago um fóssil de preguiça gigante e um fóssil de mamute. O de preguiça gigante não é único na região: outro foi encontrado pela equipe do Cartelle, um dos meus ex-professores de Paleontologia.
Mas é 1992 o ano-chave para a Gruta do Lago Azul. Foi nesse ano que Francisco José, da Rede Globo, fez uma reportagem especial mostrando o local com fotos sub. A divulgação em cadeia nacional repercutiu muito, e logo o ecoturismo no local foi aberto e a gruta virou atração nacional.
Desde então, a gruta é administrada pelo poder público – afinal, pela Constituição Federal, todo subsolo pertence à União. Isso, como esperado, gera certos entraves: há por exemplo projetos para construção de uma escadaria menos “agressora” dos espeleotemas, mas há anos o projeto está em discussão e nunca se chega a uma conclusão. Por outro lado, permite que o valor do ingresso seja bem barato, garantindo a mais pessoas o privilégio de ver tal beleza.
Mas à parte as querelas administrativas, a Gruta do Lago Azul é uma atração muito interessante. Não foi minha favorita de Bonito, mas sem dúvida merece ser vista, de preferência no mês de dezembro, quando o sol incide diretamente no lago e o teto maravilhoso cheio de estalactites ganha tons amarelados. É de uma beleza ímpar, e se você não tem estrutura física e/ou psicológica para encarar o Anhumas, mas não quer sair de Bonito sem ver uma caverna ou se divertir com pareidolias, essa é a melhor escolha.
Tudo de bom sempre.

A pareidolia do "LA" no fundo do lago, interpretada como "Lago do Aza" pelo Aza, "Lucia e André" por nós, mas em consenso brincalhão escolhida como "Lago Azul". ![]()
27.Setembro.08
Dia do Turismo
Hoje, 27 de setembro, comemora-se o dia mundial do turismo. Para celebrar a data, vim dar uma olhada para saber como anda um dos carros-chefes do turismo brasileiro...
Aah! Elas continuam sendo para mim uma das maravilhas naturais mais belas do mundo... ![]()
Tudo de turismo sempre.
26.Setembro.08
Visita ao Projeto Jibóia
O rapaz da foto acima chama-se Henrique e está com uma das suas jibóias de estimação enrolada na cabeça e em seu corpo. Ele não é maluco nem suicida; é somente o responsável por uma iniciativa de educação faunística em Bonito muito interessante, que visitamos num dia à noite: o Projeto Jibóia.
O Projeto Jibóia é um plano de divulgação e informação desenvolvido pelo Henrique, um entusiasta sobre cobras, principalmente a jibóia (Boa constrictor). A idéia é tentar desmistificar do imaginário popular a má reputação que a cobra possui, como o "grande animal predador comedor de gente". (Sounds familiar?)
Henrique não é um acadêmico nem um cientista de cobras embora use uma variedade de informações específicas da biologia de répteis angariadas pelos herpetólogos nas últimas décadas. Seu interesse por cobras começou em 1983, quando viajou para a Austrália e pela primeira vez entrou em contato com uma cobra de verdade em um parque. Desde então, começou a adquirir cobras e hoje é o feliz proprietário de 9 jibóias de diferentes colorações. Suas cobras possuem todas certificado de origem, são "legais" no país, adquiridas antes da proibição do IBAMA para o comércio de cobras. Ele está, aliás, mais animado na adoção das cobras como animais de estimação; deixa claro que seus anseios estão virados para o pet market.
Através de uma palestra bem vibrante - Henrique é um excelente orador - ele introduz o mundo das cobras para o público de forma inusitada: logo no início ele pega uma de suas amiguinhas e coloca em seu corpo, que se transforma em "árvore" para o animal. Por todo o resto da palestra de mais de uma hora, enquanto ele fala, a jibóia passeia pelo seu corpo.
Ele discorre sobre fatos científicos das cobras, explica o básico na identificação, problemas de conservação, aponta os entraves burocráticos do IBAMA e cia. ltda. para a existência de jibóias como animais de estimação (uma cobra criada em viveiro nos EUA custa 50 dólares, aqui de 800 a 3000 reais, devido à proibição da existência de criadouros), comenta sobre o surgimento das lendas envolvendo esses animais (como a que minha avó contava de que a cobra mamava no peito das gestantes), enfim, dá uma bela geralzona sobre cobras. Sem esquecer de frisar sempre que a cobra é um animal selvagem defensivo, que se importunado atacará - como a maioria dos animais, aliás.

Jibóia usando a língua como ferramenta olfativa.
A mensagem central é a desmistificação do medo de cobras não-peçonhentas, mas no final das contas, o que Henrique proporciona é uma aula sobre como envolver as pessoas e tornar extremamente interessante a conservação de um predador grande na cadeia alimentar - minha sogra, professora da USP e herpetóloga, além de lecionar aos estudantes universitários, também fazia isso no boca a boca para as comunidades do Vale do Ribeira em São Paulo, quando explicava aos moradores locais a importância dos répteis e de sua preservação. O formato que Henrique usa acrescenta ares de exibicionismo: todos na platéia são convidados a tirarem uma foto com uma jibóia enrolada em si. Em minha opinião, é uma estratégia eficiente para diminuir o distanciamento que as pessoas criam desses animais supostamente "perigosos". Ao tocar o animal, senti-lo andar na sua pele, a pessoa finalmente percebe o quão exagerado é o medo que tem e a interação leva indiretamente a uma maior facilidade para a mensagem conservacionista ser incorporada. Quisera eu que pudéssemos fazer o mesmo com tubarões - já pensou uma palestra de uma hora com um tubarão-martelinho passeando por mim? Acho que faria maravilhas na proteção da espécie, afinal, uma vez criado um laço afetivo com um animal, fica difícil para as pessoas consumirem-no.
Depois da palestra, é hora de manipular a cobra. Um a um, todos a seguram. Há os que não ligam, há os jovens que querem mostrar às meninas de sua cidade o quão "corajosos" são, há as que dão chilique total. Mas há principalmente a oportunidade da manipulação e é aí que penso que esse tipo de divulgação funciona. Um projeto que merece ser visitado por todos que passam por Bonito.
E é claro, apesar de já ter manipulado uma jibóia viva nas aulas de zoologia, também entrei na brincadeira lá no Projeto Jibóia.
Não são um colar supimpa? ![]()
Tudo de bom sempre.
25.Setembro.08
Rio Sucuri impressionista
Em nosso segundo dia em Bonito, depois de rapelar pelo Anhumas, fomos relaxar à tarde fazendo uma flutuação pelo rio Sucuri, outra atração imperdível de Bonito.
É interessante quando a gente comenta sobre Bonito e fala das flutuações. Uma parte das pessoas acha que fazer somente uma flutuação na região é suficiente, pois todo o resto será "a mesma coisa". Nada pode ser mais longe da realidade, pelo menos para os minimamente interessados em paisagens submersas. Se no rio da Prata, há um cenário dramático com rochas, troncos, algas, areia e eventos inusitados como o Vulcão, no passeio pelo rio Sucuri vemos um domínio do verde intenso das plantas aquáticas por todo o percurso e da mata nas bordas. É claro, há troncos e rochas no fundo, mas a sensação de estar passando por um jardim submerso é muito mais intensa. O rio Sucuri me lembra o tempo todo uma grande tela natural de Monet em dezenas de experimentações de verde.
O passeio começa numa trilha de mata ciliar dentro da fazenda São Geraldo em área que foi transformada em RPPN. Depois de uma pequena caminhada sossegada, chegamos na nascente principal do rio Sucuri. A nascente parece um lago de lírios, tamanho o pontilismo dos tons de verde que vemos da plataforma de observação. Ali é proibido cair na água, verdadeira tortura, pois a visibilidade da água e a beleza do local convidam imensamente.
Depois da nascente, chegamos ao ponto onde a flutuação em si começa. Como era um dia calmo no Sucuri, tínhamos um guia dedicado para nós, o Kiko Canindé, um estudante de biologia bastante animado com o curso, que nos explicou com clareza diversos aspectos ecológicos e zoológicos do local. Caímos então na água - Canindé ficou no barco. No rio Sucuri, a flutuação é o tempo todo obrigatoriamente acompanhada por um barquinho de apoio (no rio da Prata isso só não acontece por causa de uma corredeira intensa num trecho do rio).
No rio, o cenário sub tem todos os tons de verde imagináveis, verdadeira aquarela de pintura. Há uma diversidade botânica considerável. Eu estava muito cansada do rapel no Anhumas de manhã, então usei o Sucuri como meu "spa" natural e flutuei como a voar por cima de um mar verde. Em diversos momentos inclusive abri os braços, para me sentir passarinha da água.
Mas o rio não era só relaxamento. Há trechos mais fundos e de correnteza um pouco mais forte, onde tive que gastar suada energia em braçadas na contra-corrente, aguardando o André, que fotografava o máximo possível e vinha atrás de mim no ritmo de fotografia. Mas mesmo tal "exercício" não comprometia meu estado psicológico geral de leveza e felicidade.
Mais ou menos na metade do passeio, o guia nos pediu para tirarmos a cabeça da água para ver um pássaro enorme. Logo depois, foi a vez de uma mamãe-lontra aparecer com 2 filhotinhos na beira da água. O sol estava delicioso iluminando a cena como no famoso quadro de Monet, e as lontras tomavam sol. Mergulharam então na água em velocidade de vapt-vupt, levantando uma poeira considerável do fundo. Mas nossa tarde já estava sorridente com esse encontro-surpresa.
Fomos flutuando em nossa velocidade. O fato de estarmos sozinhos na água colaborou para vermos mais detalhes do rio, que próximo ao final ficara mais cheio de partículas em suspensão, provavelmente devido à seca. Depois do passeio terminado e já em terra, meus olhos ainda estavam enxergando as tonalidades esverdeadas que vira embaixo d'água. Não é todo dia que voamos sob um tapete verde molhado e gosto de pensar que se Monet tivesse conhecido o rio Sucuri, sua série de quadros de flores aquáticas teria incluso visões submersas fenomenais.
Porque o quadro que a gente vê embaixo d'água ali no Sucuri é tão lindo e iluminado que deve ser guardado no recanto íntimo das artes da gente, junto com as ninféias de Monet, onde as grandes belezas do mundo se tornam inesquecíveis.
Tudo de Bonito sempre.
Aventura do dia
Um jacaré-do-Pantanal (Caiman crocodilus yacare) na beira da água em um corixo do rio Miranda, no Pantanal Sul de Miranda (MS).
Lembrando que por trás de toda foto há sempre uma pessoa operando a máquina. Nesse caso em particular, sem usar o zoom. ![]()
Tudo de bom sempre.
24.Setembro.08
O tour da sustentabilidade
Já há algum tempo, nós temos pensado em ter uma hortinha em casa, para pelo menos algumas verduras básicas. Em São Paulo, conseguimos manter em vasos manjericão, alecrim, orégano e hortelã. Há ainda no quintal uns pés de cebolinha, alguns de café, um pé de limão e um de amora, que garante boa geléia. Tentamos plantar tomate e rúcula, mas não foram pra frente - provavelmente erramos em algum passo. A idéia geral, entretanto, é no futuro ter uma horta decente, assim que tivermos assentado em algum lugar do mundo.
Eis então que em Bonito tive uma ótima surpresa ao me deparar em algumas das fazendas de ecoturismo com hortas próprias. As fazendas estão abraçando a sustentabilidade cada vez mais e isso é bom. Entusiasta de hortinhas, fui xeretar na horta alheia para aprender um pouco mais.
Das fazendas em que estivemos para passeios em Bonito, visitamos 2 hortas: a da Rio da Prata e da Estância Mimosa. Na horta da fazenda Rio da Prata, passamos mais tempo mallificando perguntando curiosidades ao biólogo Samuel, que nos guiou pelo que chamei secretamente de "tour da sustentabilidade" - modalidade que deveria ser incorporada ao dia-a-dia do turismo em geral. Primeiro, visitamos os montes de compostagem, onde o lixo orgânico gerado pelos turistas que frequentam a fazenda é colocado para decomposição natural. Cada monte de compostagem pode chegar a 70ºC em seu interior, indicação de alta atividade metabólica de bactérias e outros seres degradadores. Depois de um tempo, quando a temperatura abaixa, o produto da compostagem é levado ao minhocário.
No minhocário, o material orgânico é misturado ao solo e as minhocas fazem seu trabalho de aeração e adubação, tornando a terra mais fértil, fofa e preparada para o plantio. Depois que as minhocas atuaram, o solo aerado e adubado é peneirado para facilitar o manuseio e levado para a horta. É nesse solo que são plantados todas as verduras consumidas na fazenda pelos turistas e funcionários. São várias fileiras de alface, rúcula, manjericão, espinafre, beringela, tomatinho, saião, cebolinha, coentro, endro, quiabo, beterraba... e é tudo tão verde-intenso-natural, que dá vontade de comer salada imediatamente.


Olha essa beringela! Ao ver a qualidade das verduras, André queria um tonel de azeite de oliva para despejar ali mesmo nas alfaces e começar a salada...
A horta é toda orgânica, sem nenhum uso de agrotóxicos ou defensivos químicos. Perguntei como eles evitam pragas sem usar pesticidas. A resposta foi simples: plantam em locais estratégicos vegetais que "espantam" as pragas comuns, como a citronela, o tabaco, a arruda e a pimenta (só o sabiá come a pimenta). Além disso, plantam lado a lado vegetais que se ajudam no combate às pragas. Um sistema muito interessante e facilmente aplicável em pequena escala como ali.
As verduras da horta vão depois de crescidas para a refeição das pessoas que visitam a fazenda. E eu preciso dizer que nunca comi alface com gosto tão bom como aquela. Era alface com gosto de alface fresca de verdade, não de folha de papel como as que compramos em mercados por aí. Fora as beterrabas, super-doces e suculentas.
Mas nem só da horta orgânica vive uma fazenda sustentável. O Samuel cuida também do viveiro de mudas de espécies nativas, que são enviadas para áreas onde estão sendo reflorestadas. São centenas de potinhos com mudas de aroeiras, perobas, jaracatiás, ingás, ipês... todas grandes árvores, que daqui a algumas décadas mudarão positivamente a paisagem do local. Em linhas beeeem gerais, horta no curto prazo; floresta a longo prazo; mas sempre pensando no ambiente saudável.


O minhocário, onde as minhocas são as trabalhadoras "braçais". No chão do minhocário, a terra já peneirada pronta para ser usada na horta. Ao lado, as mudinhas de árvores para reflorestamento.
Na fazenda da Estância Mimosa, depois de ver as mudinhas de árvores, terminei plantando uma aroeira no fundo do quintal. A aroeira é uma madeira nobre, motivo pelo qual foi bastante dizimada da região para virar móveis. Hoje é proibido matar uma aroeira nativa para coleta da madeira. Espero imensamente que meus netos, bisnetos ou afins voltem daqui a uns 100 anos na Estância e encontrem a árvore que eu plantei bonita e frondosa.


As mudinhas de aroeira, que depois plantei no quintal da Estância Mimosa. Um dia atrasada nas homenagens práticas ao dia da árvore.
Mas Mato Grosso do Sul não é Mato Grosso do Sul se não tiver gado. A pecuária é uma das maiores fontes de renda do estado e imensas áreas de pasto são vistas em todas as fazendas da região, inclusive as dedicadas ao ecoturismo. Aliás, antes de explorarem o ecoturismo, eram todas pecuaristas - e eu chamaria o turismo nessa região de agroecoturismo, já que o ecoturismo é uma porcentagem da área total das propriedades rurais ali e já proporciona mais renda que o gado em algumas fazendas. Por lei, cada propriedade deve manter 20% de área nativa (e se não tiver mais, deve reflorestar). A maior parte das fazendas está em déficit ambiental com as regras do governo, entretanto.


Vacas por todo o lado: eis a cena mais comum do Mato Grosso do Sul, o centro pecuarista do Brasil. Ao lado, fazendo a Cavalgada pelos pastos enquanto ouvia as histórias pantaneiras...
Como todos sabem também, gado não combina muito com sustentabilidade. Vale ressaltar que no Mato Grosso do Sul o gado não é confinado (cria-se em média 1 cabeça por hectare) e a abundância de água minimiza os impactos gerais da atividade ali - mas mesmo assim, ver tanto pasto incomoda em minha visão de ecoturista. O problema é, entretanto, muito mais complexo: a pecuária já é uma característica cultural daquela região, desde os tempos que o Paraguai ainda era o dono dessas terras. Tirar a pecuária dali é algo como tirar o samba do Rio de Janeiro, um fator gerador não só de impacto econômico como também de um impacto cultural complicado de se lidar. Há de se minimizar o impacto ambiental, portanto, sem deixar de lado questões humanas.
Com essa visão na cabeça, foi ótimo numa tarde sair para a Cavalgada pela fazenda do Rio da Prata. Confesso que eu não sou muito fã de cavalos e se dependesse de ser amazona estava no sal completo, mas é uma forma de lançar novas perspectivas a uma paisagem tão batida. Circulamos entre enormes áreas de pasto, num sobe e desce de grama sem fim, ao lado de inúmeras vaquinhas. Depois entramos num pedaço da RPPN (área de ecoturismo) e temos uma sensação muito diferente ao fazer uma trilha de mata em cima de um cavalo. A copa das árvores está mais próxima, o animal pára toda hora para comer (afinal, às vezes o bicho me controlava) e é possível ver detalhes "altos" da floresta ciliar muito interessantes.
Nosso guia de cavalgada era o Fábio, um típico pantaneiro. Conversamos bastante durante as 2 horas de cavalgada. Ele nos contou diversas histórias e estórias que envolviam pecuária e as diferentes "querelas" pecuaristas com politicagens e problemas indígenas, mostrou um lado da cultura pantaneira fascinante e suas palavras simples mas cheias de conhecimento prático deixaram um monte de novas questões sócio-ambientais para reflexão. Nem só de horta afinal vivem as atitudes ecoconscientes.
E se um "tour de sustentabilidade" não deixasse essas questões, não teria valido tanto a pena - pelo menos para mim.
Tudo de bom sempre.
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- Publicado também no Faça a sua parte.
23.Setembro.08
No Buraco das Araras
Em 2003, quando estive em Bonito pela primeira vez, a ida ao Buraco das Araras foi marcada por chuva e apenas uma arara avistada lááá longe. Confesso que saí meio frustrada do passeio na época.
Então a oportunidade de voltar a esse local tão único foi extremamente bem-vinda - é um dos poucos lugares do mundo onde podemos ver e fotografar de cima uma arara voando. No mesmo dia da flutuação pelo rio da Prata, fomos aproveitar o fim de tarde no Buraco das Araras, que fica a poucos minutos de distância da fazenda do Prata.
O Buraco das Araras é uma formação que acho muito curiosa. Na geologia chama-se dolina, que é uma cavidade circular onde o solo de rochas calcáreas "desabou". A dolina do Buraco das Araras nos arredores de Bonito é a maior da América Latina em circunferência (aproximadamente 500m), tem 124m de profundidade e para descer, só rapelando - o que não é mais permitido. Antes ali havia uma caverna e foi o teto desta caverna que caiu em algum momento há milhares de anos. Os sedimentos do teto viraram solo e substrato para algumas plantas e até para a formação de um laguinho, onde um casal de jacarés vive há mais de 10 anos com requintes de canibalismo - comem os filhotes no período de estiagem e ninguém sabe como esses jacarés chegaram ali.
Também não se sabe como as araras vermelhas (Ara chloroptera) chegaram ali, mas fato é que decidiram fazer da área sua morada segura, talvez pela abundância da palmeira que lhes dá o fruto nosso de cada dia. De acordo com o último levantamento da avifauna, cerca de 40 casais vivem no Buraco. Havia mais araras vermelhas no passado, mas muitas foram capturadas para exportação, quando o Buraco não era ainda uma reserva, a estrada passava ali do lado e um mito local dizia que você deveria atirar ao passar pelo Buraco (!!!). A depredação exagerada fez com que as araras desaparecessem do Buraco por um tempo, mas assim que o projeto de conservação foi posto em prática, os animais foram aos poucos voltando.
As araras vermelhas são monogâmicas e uma vez escolhido o parceiro, nunca mais se separam. Por isso, é muito comum vê-las voando em duplas. Ali no Buraco das Araras, elas podem ser avistadas de 2 decks de observação, um de cada lado da dolina. Uma vegetação de cerrado circunda a trilha que leva aos decks, e expõe o visitante a aprender um pouco sobre esse bioma ameaçado - nosso guia chegou a comentar sucintamente sobre hotspots de biodiversidade, tamanha preocupação com a sobrevivência futura do cerrado. Adorei a inserção de tal divulgação científica para os turistas.
Em geral, as araras vermelhas ficam em árvores dentro do Buraco ou próximas a ele - de preferência na palmeira cujos frutos as alimentam. Percorremos todo o perímetro da trilha, e com o sol já em seus últimos momentos do dia, um grupo de araras se apossaram de uma árvore fora do Buraco e resolveram ficar lá, gralhando ao longe, em comunicação intensa. De vez em quando uma voava, outra chegava, uma se isolava em outra árvore não muito distante, mas todo o grupo rondando nossas cabeças. Foi a visão que faltava para coroar nosso dia perfeito: pôr-do-sol com araras vermelhas em seu ambiente natural, livres para voar para onde quiserem. Qualidade de vida animal para biólogo nenhum botar defeito.
Tudo de bom sempre.
22.Setembro.08
Aventura no Abismo Anhumas
A última sexta-feira começou com muito frio na barriga. Afinal foi o dia marcado para que nós fôssemos conhecer o Abismo Anhumas, aventura muito recomendada por qualquer guia de Bonito. Meu currículo de aventuras "nas alturas" inclui me jogar de um avião a 14000 pés, então em tese eu não precisava me preocupar em descer 72m amarrada a uma corda de rapel. Mas é claro, o nervosismo foi aos poucos crescendo e minutos antes de chegar ao local, eu já estava fora do meu normal completamente.
Por alguma razão que nem Freud explica, descer pela corda de rapel para o Abismo Anhumas foi mais estressante que subir - talvez pelo tempo gasto: desce-se em cerca de 3 minutos (atividade "aguda") e sobe-se em 30 minutos (atividade "crônica", dá tempo para você se acostumar). Ou talvez o nervosismo tenha sido psicológico: a idéia de entrar em um buraco escuro dentro da terra ("abismo" não é um nome que colabora, convenhamos) com um lago no fundo fez meu coração bater em ritmo de trio elétrico no carnaval de Salvador. Adrenalina a mil.
No dia anterior, fomos à noite para o treinamento do rapel na central de reservas do Abismo. De uma plataforma de 8m de altura, monitores ensinam a você as técnicas ultra-básicas para descer e subir pela corda, uso do equipamento e como evitar acidentes (não queimar o rosto na descida, por exemplo, já que o equipamento fica quente pelo atrito com a corda). O treinamento serve também para dar uma sensação de segurança maior ao turista e para interessados em física básica, uma boa oportunidade para diversão light intelectual. Afinal, tudo ali é uma mera questão gravitacional: é seu peso que trava todos os mecanismos de roldana da corda para a subida e uma alavanca libera você para a descida, na velocidade que você escolher.

Eu e André subindo o rapel do Anhumas. A giganteza da beleza (até rimou!) do local é impressionante.
Ainda na central de reservas, depois do treinamento, o gerente nos explicou as regras básicas da aventura, assinamos um seguro e um termo de responsabilidade, e ao que tudo indicava, estávamos então aptos para entrar (e mergulhar) no abismo.
Na manhã seguinte, já cheguei na beira do Abismo Anhumas com cara de nervosa (para não dizer quase-pânico). O monitor Rui, que cuidou da corda na parte superior do rapel, tentou ao máximo me acalmar. André e eu descemos na mesma velocidade, unidos por uma terceira corda. O início da descida é bem estreito e aos poucos a caverna vai aparecendo em toda sua grandiosidade. Na hora que comecei a ver as estalagmites e estalactites, o lago clarinho embaixo, o medo foi embora e a emoção tomou conta. Os 72m de altura (um prédio de 30 andares!) se tornaram a linha tênue que segurava meu contentamento.
A "aterrissagem" na plataforma de madeira é tranquilíssima e alivia bastante a tensão inicial, permitindo que eu volte a respirar normalmente. A calmíssima monitora Ciele nos ajudou a desmontar o equipamento de rapel e soltos das amarras de corda, começamos a apreciar mais os diversos espeleotemas ali presentes.
A caverna do Anhumas é enorme. Um salão do tamanho de um campo de futebol cheio de esculturas naturais formadas pela deposição do calcáreo da região - a gente vê os microagregados de calcáreo na superfície da água do lago que, aos poucos, afundam e se depositam por gravidade no fundo. Formam ali muitos cones, que brotam de baixo para cima a uma velocidade média de 1cm a cada 3 anos, emoldurados pelo gotejamento da água calcárea numa superfície de água (ou seja, é grosseiramente falando uma estalagmite que cai no "molhado"). De acordo com registros geológicos, a caverna do Abismo foi sempre molhada, ou seja, sempre teve um lago e levou cerca de 300 milhões de anos para formar a floresta de cones de até 20m de altura que vemos embaixo d'água - são os maiores até hoje encontrados no mundo. Em algum momento do passado, hipotetiza-se inclusive que a água deve ter chegado próxima à abertura do Abismo, a quase 70m acima do nível atual.
A água é, aliás, a continuação necessária da aventura. Não basta o rapel: chegando no fundo do Abismo, é fundamental que se faça a flutuação ou um mergulho para poder apreciar de verdade a riqueza geológica única do local. Colocamos então um cilindro da Bonito Scuba Dive nas costas e começamos a descida na água gélida (em torno de 18ºC). Nosso dive master, o Miguel, mais que acostumado àquele trajeto sub, nos guiava com zelo exemplar.

Preparação para mergulhar no Anhumas. Os pontos brancos na água são as agregações de sais de cálcio, que ficam na superfície e eventualmente afundam, ajudando na formação dos cones. Sua cor natural é mais escura, mas o reflexo do flash da máquina as tornam brancas. Há peixinhos também, mais ao fundo.
O lago tem profundidade máxima de 80m e não se conecta às demais grutas da região por canal direto, apenas por infiltração. Ou seja, não há corrente alguma ali, diferente da Gruta do Lago Azul, por exemplo, onde há uma pequena corrente contínua. O sistema é considerado de "água aberta", então o mergulho é sossegado, recreacional, à profundidade máxima de 18m, sem maiores requerimentos PADIanos de cursos avançados técnicos de caverna. A escuridão sub fez a angústia paniquenta voltar e meu coração acelerar, mas depois de um tempo embaixo d'água, a gente se acostuma com a falta de luz natural e finalmente aprecia a paisagem. Que é deslumbrantemente linda, parecendo ter saído de algum planeta numa galáxia distante. Sensação de estar fora da Via Láctea e fora da realidade. Amei.


Os cones submersos e um esqueleto de pequeno mamífero que afundou no lago do Anhumas.
Há ainda no fundo do lago esqueletos de animais que caem no Abismo e morrem por lá, obviamente porque não conseguem escalar de volta. Aliás, mesmo alguns animais com asas, como as borboletas, uma vez que entram no abismo, não saem - a falta de corrente de ar leva o animal sempre pra baixo e uma vez ali, ele não consegue se direcionar para voltar. Ciele comentou que algumas vezes eles chegam no Abismo para trabalhar e encontram um animal boiando. Praticamente todo dia tem descida e a caverna, para funcionar como atração turística, teve que passar por um intenso estudo de impacto ambiental aprovado pelo IBAMA, já que todo subsolo pertence à União, que decide, via CECAV, órgão regulamentador federal das cavernas brasileiras (também chamado pelos locais de "Entrav"), sobre licenças e burrocracias afins.
Depois de terminar o mergulho gelado, conversei um pouco com um casal de Berlim que descera antes da gente. Os pais da menina estavam no Anhumas e subiam naquele momento o rapel com motivação de gente nova - foi o ânimo que eu precisava para encarar a extenuante volta. A monitora, aliás, comentou nesse momento que o recorde é de um senhor de 78 anos, que conseguiu subir o rapel sozinho, e indicou prontamente também que como o Abismo não é uma aventura "radical" (é uma aventura, simplesmente), está aberta a qualquer pessoa - a única restrição é ter mais de 35 kg, porque esse é o peso limite para permitir a "destrava" da descida com o equipamento que eles usam.
Antes da subida, entretanto, demos uma voltinha de bote, para observar mais de perto alguns espeleotemas mais escondidos. Vimos os coralóides, que parecem corais duros; a cortina, que são mega estalactites que escorrem lado a lado formando uma verdadeira "cortina" de rocha; as "colunas", que são estalactites que se formam em torno de um eixo central; e os "repolhos" que marcam onde a água chegava em um passado remoto. A visibilidade de 40m na água permite que mesmo do barco vejamos o topo dos cones submersos. Um espetáculo de exotismo esse passeio.




Algumas das formações espeleológicas do Abismo Anhumas.
E eis que chega então o pior momento, a subida. Cansada do mergulho, já estava imaginando que iria ficar 1 hora pendurada na corda para conseguir chegar lá em cima - e só tem um jeito de sair de lá, encarando o rapel. Mais uma vez, a calma da monitora foi determinante para eu me tranquilizar e apreciar a subida. Fui devagar e sempre, em ritmo de formiguinha. Parei muitas vezes pendurada na corda para contemplar a visão lá de cima e a cada metro, uma nova perspectiva. Vimos morcegos entocados, rochas que lembravam rostos, os detalhes do teto. O lugar é muito sereno, e de certa forma, indicado a todos que curtem tranquilidade e paz em alguns momentos da vida.
Meia hora depois de iniciado o rapel de subida, estava eu lá em cima de volta ao mundo real. E se quando cheguei ali mais cedo não entendia o que leva uma pessoa a querer descer por livre e espontânea vontade o Abismo Anhumas tamanho meu nervosismo, depois que saí passei a não entender o que leva uma pessoa a NÃO querer experimentar essa aventura que é no final das contas relaxante para a cabeça. Cansa subir, as mãos dóem no final, a canela fica arranhada da corda, a cadeirinha incomoda (principalmente aos homens...), mas a sensação de plenitude por ter visitado aquele mundo atípico é tão grande, tão profunda, que todo o cansaço vira mero adendo para uma overdose de serotonina como lembrança surreal inesquecível.
Tudo de Bonito sempre.
21.Setembro.08
Árvore de cerrado
Hoje é o dia da Árvore, data criada no Brasil há 30 anos como forma de lembrar a todos da importância desses seres vivos para nosso ecossistema.
A árvore da foto é da família das Caryocaráceas, provavelmente um pequi (Caryocar brasiliense), típica do cerrado. Seu tronco grosso e retorcido é uma adaptação evolutiva aos períodos de seca prolongada e às queimadas de origem natural que sazonalmente acontecem no cerrado, bioma que agrega centenas de espécies endêmicas.
Escolhi essa árvore para homenagear no dia da árvore esse ano para que lembremos do cerrado, o bioma brasileiro mais ameaçado e esquecido. A suposta falta de estética e apelo midiático do cerrado o pôs de lado na lista de prioridades de conservação por muito tempo. Além disso, o crescimento exacerbado da atividade agropecuária onde o cerrado existe pressionou para sua destruição acelerada. Hoje, estamos à beira de perder esse hotspot de diversidade - por descaso.
A foto foi tirada anteontem no Buraco das Araras, aqui em Bonito.
Tudo de árvore sempre.
20.Setembro.08
O rio da Prata é ouro
Não é à toa que a flutuação pelo rio da Prata foi eleita pela segunda vez consecutiva o melhor passeio do Brasil, de acordo com os leitores do super-conceituado Guia 4 Rodas. É simplesmente o local mais imperdível de Bonito.

A casa-sede da fazenda, onde os turistas são recepcionados para o passeio de flutuação.
Chegando à fazenda do rio da Prata, chamada Cabeceira do Prata, de propriedade de Eduardo Coelho, já começamos a sentir aquela sensação de relax crescente, garantida pela excelente recepção da Keila, que explica o passeio e as coordenadas do local em português e inglês tranqüilo para os turistas estrangeiros (que são em número significativo). Ali, no varandão, as pessoas começam a se animar para o passeio, seja conversando com os guias, seja provando as roupas de neoprene, seja simplesmente esperando a sua vez de subir no caminhãozinho que leva à nascente Olho D'água, onde a flutuação começa. O burburinho é grande, principalmente entre os que nunca estiveram ali. Era nossa segunda vez no rio da Prata e aproveitamos aqueles momentos iniciais para trocarmos palavras com o prestativo gerente local, com alguns outros turistas e para observarmos as jandaias que agora habitam uma árvore no quintal - da outra vez que estivemos aqui, era uma sucuri que acidentalmente embelezava a mesma árvore.

Jandaias (Aratinga solstitialis) no poleiro feito na árvore.
O passeio é feito em grupos e nosso grupo era composto por 10 pessoas, contando o guia e biólogo Marcos, para quem demos carona de ida e volta - pudemos conversar bastante sobre diversos aspectos do ecoturismo, da biologia e da sociologia de Bonito nos 56km de estrada. O caminhãozinho passa por dentro do pasto de gado nelore e depois de poucos minutos chega à Reserva Particular de Patrimônio Natural (RPPN) Recanto Ecológico Rio da Prata, que ocupa aproximadamente 30% da área da fazenda. Uma RPPN é uma unidade de conservação privada estabelecida em caráter perpétuo: se o dono quiser vender as terras, aquele pedaço jamais pode ser mexido; em troca de tal investimento à natureza, o dono ganha principalmente isenção do imposto rural referente àquela área e alguns privilégios no Fundo Nacional do Meio Ambiente.
A RPPN do Rio da Prata é de "floresta semi-decídua estacional sub-montana" (como falou nosso ecoguia): semi-decídua porque parte das árvores apenas perde as folhas durante a estiagem; estacional porque possui 2 estações definidas, a seca e a chuvosa; e sub-montana porque está um pouco abaixo de uma região montanhosa. Na trilha de 40 minutos que nos leva até a nascente do Olho D'Água, o guia explica sobre diversas árvores comuns da região, comentando tanto aspectos científicos como de conhecimento popular. Há uma aroeira linda e enorme logo no início; um peroba rosa e um jatobá, ambos utilizados medicinalmente pelos habitantes locais. A trilha é super-fácil de andar e em determinado momento, avistamos uma ressurgência com água potável minando direto do solo. A sensação de ter a rara oportunidade de tomar água direto da fonte em forte contraste com nosso mundo atual poluído é indescritível e chega a dar vontade de chorar de emoção (eu fiquei com um nó na garganta, confesso).
Quando chegamos no fim da trilha, a visão é extasiante. A água cristalina, fruto da sedimentação facilitada que o excesso de calcário e sais de magnésio proporcionam, permite que vejamos os peixes e os pés das pessoas no fundo. Antes da flutuação em si começar, damos uma volta na área da nascente - que já é de tirar o fôlego de tão linda, verdadeiro aquário onde piraputangas, dourados, curimbatás e outros peixinhos habitam. Ali também crescem algas que formam esculturas naturais submersas, muitas dignas de filmes abstratos, que pincelam em tons de verde essa visão do paraíso aquático. Mas o que mais impressiona mesmo é o azul profundo da água cristalina, simplesmente inebriante.
Depois do giro pela nascente (e com a sensação já de êxtase absoluto) começa o passeio "de verdade": começamos a flutuar os 2 km do rio Olho D'Água e da Prata. O Olho D'Água é um rio estreito e raso, e em vários momentos temos a nítida impressão de que vamos "enganchar" nas rochas - mas não engancha se você estiver flutuando direitinho. A diversidade de cenários é fascinante, um grande estúdio natural para fotografia sub e um calmante maravilhoso para a saúde mental. De vez em quando eu levantava a cabeça para olhar a mata exuberante ao redor e ouvir o canto dos pássaros. Mas esses momentos não duravam muito, porque embaixo d'água tudo é tão belo, que você não quer perder um minuto de descida.


Pronta para o início da flutuação no rio da Prata, um caminho de água cristalina pela mata.
Mais ou menos na metade do trajeto, nós saímos do rio e passamos por uma trilha - naquele ponto, o rio possui uma corredeira mais violenta onde não dá pra passar flutuando apenas. Há uma micro-corredeira que a gente desce sem maiores problemas e dali pra frente mais uns 20 minutos rio abaixo, encontramos o famoso "Vulcão".


Pessoal voltando ao rio depois de uma corredeira e ao lado, o "Vulcão" levantando areia do fundo.
O Vulcão é uma ressurgência de água maior que as que vemos anteriormente, que "borbulha" constantemente no fundo (e levanta uma certa poeira na água cristalina...). Nesse local do rio, há um deck de descanso, e é o único ponto onde podemos descer em apnéia, para tocar no Vulcão. Lá embaixo, a sensação é de uma erupção de areia, muito interessante. Depois de uns minutos ali, continuamos a flutuação e chegamos finalmente no rio da Prata, onde flutuamos por cerca de 800m. Ali, o rio é mais fundo, escuro, e a paisagem sub muda significativamente. Esse trecho, aliás, pode ser percorrido de barco, caso a pessoa esteja cansada de flutuar. Nós, é claro, fomos pela água e fomos premiados com diversos dourados e piraputangas parrudos que moram por ali - aliás, há muito mais dourados dessa vez que quando viemos aqui em 2003.

Um dourado (Salminus maxillosus) nada pelo rio da Prata.
O passeio termina numa "arquibancada" de pedra cheia de borboletas. Quando cheguei naquele ponto, a sensação que tive foi de que ficara na água por menos de meia hora - o passeio leva quase 2 horas em média. O fundo desse rio é tão cheio de cenários maravilhosos que eu não percebi o tempo passar, reflexo que praticamente todos sentiram em nosso grupo.
Na volta pra sede, um almoço de fazenda nos aguardava e o grupo já mais entrosado esbanjava sorrisos. Conversei bastante com um alemão e um grupo de brasileiros. Estava estampado no rosto de todos a satisfação que é marca registrada do local. Afinal, o rio da Prata, há muito tempo, é também um rio de ouro no cenário do ecoturismo mundial. O Brasil pode se orgulhar dessa jóia única de nosso território.
Tudo de Bonito sempre.
19.Setembro.08
Sexta Sub: flutuação no Rio da Prata
A Sexta Sub de hoje segue o tema Bonito e é representativa da essência do ecoturismo na região: eu estou aí flutuando no rio da Prata ao léo, com piraputangas e vegetação exuberante.
Ela também é a "chamada" para o próximo post. Stay tuned. ![]()
Tudo de sub sempre.
18.Setembro.08
Com as piraputangas no Balneário Municipal de Bonito
Balneário é uma palavra que nunca me soou bem. Por um motivo bobo: quando criança, sempre ouvia que Guarapari, cidade vizinha de onde cresci, era um "balneário de verão" - e eu detestava Guarapari no verão, gostava de lá nas demais estações, quando dava pra aproveitar a cidade. Então na minha cabeça balneário virou sinônimo de lugar cheio e chato. É claro, a gente cresce e percebe que esse pré-conceito é uma grande besteira. Mas lá no fundo, eu ainda carregava um certo ranço.
Então, quando chegamos cedo em Bonito ontem e escolhemos ir pro Balneário Municipal, eu tive receio de que encontrasse por lá algo não tão legal, como nas minhas tonterias de criança. Mas a simpática Juliana nos explicou que o Balneário de Bonito era um dos lugares com a maior concentração de piraputangas da região, e isso foi o suficiente para nos convencer a irmos para lá.
O Balneário é gerenciado pelo poder público local. Num primeiro momento, poderíamos pensar que seria algo totalmente largado, dado o histórico dos políticos em geral no Brasil. Mas não. Uma visita ao local vale MUITO a pena. É um pedaço curvo do rio Formoso onde ele forma uma pequena piscina natural rasa de água clarinha e os peixes se agregam ali pela razão óbvia: têm mais comida - as lanchonetes do local vendem ração para peixes e quem quiser pode alimentá-los, uma atitude controversa que tem trazido problemas de obesidade aos peixes. São muitas piraputangas, alguns dourados e pacus. A água é gélida, mas nada que uma boa roupa de neoprene não dê jeito. A visibilidade da água é fenomenal.
O local é organizado para o turismo, com lanchonetes, vestiário e quadras de vôlei de areia. Além disso, uma escadinha de pedra circunda essa área do rio e torna a descida para a flutuação muito fácil. É passeio para todos sem restrições. Quando estávamos lá, vi algumas crianças com seus pais, que sentados na pedra, arremessavam ração para ver o movimento frenético das piraputangas próximo à superfície. Há ainda uma pequena "divisão" natural com pedras, onde uma pequena corredeira deixa o passeio pelo local mais interessante. No período que estivemos lá, avistamos um tucano também, além das araras que ficam pela área da lanchonete nos galhos das árvores.
Passamos a tarde toda no Balneário e nem vimos o tempo passar. Foi muito relaxante, porque como não há guia para essa atividade, cada um faz no seu ritmo. Quando quer, para, vai tomar um suco de guavira (a "uva do cerrado"), e volta pra água interagir mais com as piraputangas.
A piraputanga (Brycon hilarii) é um peixe de uns 30 cm de comprimento e é também o peixe-símbolo do ecoturismo em Bonito, tanto que virou uma bela estátua na praça principal da cidade. É facilmente visto em qualquer das atrações aquáticas da região. No Balneário, às centenas, elas vieram nos "saudar" para uma bela estadia na cidade. E ajudaram a tirar da minha cabeça o ranço bobo com a palavra "balneário", que passou a significar lugar agradável e de boas horas de diversão. Pelo menos em Bonito é assim.
Tudo de Bonito sempre.
17.Setembro.08
De São Paulo a Bonito
Diferente da expectativa habitual, a saída de São Paulo foi tranqüila, sem maiores problemas de trânsito. Era antes das 7 da manhã quando começamos a longa travessia da Raposo Tavares, rodovia que tomamos ontem do início ao fim, em nosso rumo ao Mato Grosso do Sul.
Estava frio em São Paulo e a primeira parada foi numa padaria perto da cidade de Alumínio para um café rápido. Certos trechos da Raposo estavam bem cheios de névoa e o asfalto justamente nesses trechos não colabora; mas depois de Ourinhos, o tempo ficou firme, a paisagem mudou radicalmente para enormes campos de plantações variadas, o asfalto melhorou e a viagem começou a tomar ares de périplo mesmo.
A paisagem de plantações de cana-de-açúcar, milho e demais gramíneas forrageiras é por demais monótona, mas totalmente diferente da monotonia da paisagem na Patagônia, por exemplo, onde a vegetação de estepe, a amplitude do relevo e as retas eternas da estrada são lindas, mas dão sono. No interior de São Paulo, esses campos têm de vez em quando um ipê amarelo florido, ou uns boizinhos alinhados, ou vemos um mega-silo fotogênico, ou uma penitenciária de segurança máxima, de modo que muda um pouco a paisagem e não cansa tanto.
Nossa idéia inicial era fazer o trajeto até Bonito em 2 etapas, parando em Presidente Prudente para passar a noite. Mas era ainda 1 da tarde quando chegamos a esta cidade. Em Presidente Prudente, gostei do que vi logo de cara: o Parque do Povo, área de lazer no centro da cidade, conta com academia de ginástica ao ar livre. Equipamentos todos estilo heavy duty, debaixo da sombra de árvores enormes - ou seja, mesmo com um calor de rachar, você consegue se exercitar numa boa. Isso que é acesso à atividade física para a população, parabéns ao gestor que teve (ou copiou de alguém) tal idéia vencedora.


Presidente Prudente em dia ensolarado. Ao lado, um lugar-comum nos campos do Brasil: os cupinzeiros. Acho-os extremamente fotogênicos, principalmente com as diferenças de solo.
O sol estava lindo e convidava a continuar pela estrada. Chegamos então em Presidente Epitácio e vimos aquele "mar" de água que é o rio Paraná ali na divisa de São Paulo com o Mato Grosso do Sul - uma placa na beira da estrada mostrava a divisa na realidade antes da ponte, apesar de no mapa vermos claramente a divisa pontilhada no meio do rio. Será então que aquela água toda pertence só ao estado do Mato Grosso do Sul? Fiquei na dúvida.
Elocubrações geográficas à parte, alguns minutos depois de passar por cima do rio Paraná, estávamos em terra firme no Mato Grosso do Sul, estado brasileiro que tem a maior área do complexo aquífero do Guarani, uma verdadeira mina de ouro dos tempos modernos, reserva para o futuro seco que nos espera.


Chegando ao Mato Grosso do Sul. Ao lado, quem chegou também: a plantação de eucalipto.
No MS, a BR267 piora muito. Tráfego intenso de caminhões, monopista e asfalto esburacado. Deu saudade dos trechos "ruins" da Raposo. Em compensação, a paisagem de plantações ganha agora novos componentes "voadores": siriemas e emas, que de vez em quando passeiam na beira da estrada. Passamos por Bataguassu e terminamos o dia em Casa Verde, há mais de 100km da divisa. Um vilarejo no meio do nada, com assentamentos do MST e um hotel de beira de estrada okzinho. Já entardecia e era hora de descansar das 9 horas seguidas na estrada.
(Dica malla: se você for de carro para Bonito, pare em Bataguassu, que pelo menos parece ter uma pousadinha mais decente.)


Ema e siriema, ambas na beira da BR.
Hoje de manhã cedinho, mal terminamos o café da manhã, já estávamos na estrada de novo, rumo ao nosso destino. A paisagem aos poucos se tornava realmente mais "densa". As plantações ainda existiam - inclusive de eucaliptos, que infelizmente já chegaram ao Pantanal (notícia triste) - mas agora havia mais árvores rebuscadas, mais carcarás e cada vez menos caminhões, principalmente depois de Maracaju, cidade cujo trevo central exibia 3 máquinas de irrigação enormes como decoração. Agrobusiness é isso aí.
Chegamos em Bonito antes do meio-dia, bem antes do previsto, que era de noite. Foi ótimo, porque pudemos dar uma volta pela cidade. Que, aliás, cresceu muito - mas no sentido certo do desenvolvimento. Há 5 anos estive em Bonito pela 1ª vez, e a cidade tinha uma infra-estrutura muito mais simples; hoje, virou uma cidade turística mesmo, de nível internacional, que não deixa nada a desejar aos melhores destinos ecoturistas das Filipinas ou Indonésia. As ruas são bem sinalizadas, há mapas em qualquer lugar para o turista, informações em inglês e envolvimento da população saudável nas interação com o turista. Lindo será o dia que outras cidades que circundam destinos importantes tiverem organização como esta: será o dia que o Brasil poderá se vender como um dos melhores destinos de ecoturismo do planeta sem vergonha nem complexo de inferioridade algum e que o turista virá sem medo. Somos lindos e pronto.


Silo em Maracaju. Ao lado, o Monumento às Piraputangas, na praça principal de Bonito.
A cidade ganhou uma praça com uma escultura central magnífica: o Monumento às Piraputangas, peixe-símbolo do ecoturismo em Bonito. Depois de uma volta deliciosa ali, fomos nos acomodar com calma no nosso hotel, o Águas de Bonito. Conheci a Juliana, que cuidou de todos nossos passeios em Bonito, e a Regina, proprietária simpática do hotel. Vale comentar que este hotel participa de um projeto bacana de sustentabilidade e economia no consumo d'água junto com a ONG Instituto das Águas da Serra da Bodoquena e só por esse engajamento verde, já ganhou pontos no ranking malla de ecoturismo - apesar da piscina. ![]()

Hotel Águas de Bonito: nosso quarto aconchegante e a piscina pra refrescar desse calorão...
Como a tarde estava livre, decidimos então fazer o nosso primeiro passeio, que foi supimpa. Mas essa história fica pro próximo post...
Tudo de Bonito sempre.
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- A Pati venceu o Desafio Malla Premiado! A foto do post passado foi o primeiro banner do meu blog, e ficou um ano "no topo" de todas as aventuras que eu contava aqui. Pati, parabéns! ![]()
16.Setembro.08
Uma Malla pelo Brasil
Quando vocês estiverem lendo estas linhas hoje, eu e André já estaremos possivelmente a muitos quilômetros de distância de casa, iniciando mais um périplo malla. Estamos animados e com uma vontade imensa de rever lugares queridos e conhecer um pedaço do Brasil que desconhecemos e estamos curiosos. A lei é ter liberdade temporal em certos pedaços do trajeto para curtir e ver alguns amigos (blogueiros queridíssimos inclusos).
Nas vezes passadas em que viajei, o blog ficou meio às moscas, com posts espaçadérrimos, porque confesso que tenho um certo bloqueio psicológico para blogar "ao vivo" minhas viagens, porque requer um tempo que minha curiosidade inata só quer gastar conhecendo o local onde estou. Valorizo MUITO quando encontro relatos de viagens "em tempo real" pela rede porque imagino o quão cheios de dedicação especial eles são feitos, uma vontade de compartilhar momentos mesmo. E eu normalmente prefiro escrever sobre os lugares por onde passei depois que já cheguei em casa, com as fotos já organizadas, as idéias mais assentadas e todo o tempo do mundo a meu favor.
Então pensei em deixar uns posts prontos para evitar o marasmo pelas bandas desse blog. Mas aí não tive tempo (óbvio) e terminei deixando prontas apenas as Sextas Sub e um post-surpresa. E dessa vez estou resolvida a encarar o desafio: vou blogar ao vivo, quero me auto-comprometer a pelo menos um post de cada local e/ou passeio por onde passar (de preferência um post por dia, para eu logar de verdade a viagem). Essa é minha meta blogueira pro próximo mês e espero muito conseguir cumpri-la.
Nosso primeiro destino é Bonito. Coincidentemente, o passeio pelo rio da Prata foi eleito anteontem pelos leitores do Guia 4 Rodas como o melhor passeio do Brasil (lista completa dos passeios aqui). Escolha mais que merecida, por sinal. O convite inicial para visitar Bonito partiu da Estância Mimosa Ecoturismo e do Recanto Ecológico Rio da Prata, que estão há mais de um mês discutindo com a gente detalhes dessa ecoparceria maravilhosa. Tanto eu como André já conhecemos Bonito, mas sempre pensávamos em voltar lá um dia. Pois chegou o momento.
Então convido a todos que passarem por aqui para afivelarem os cintos de segurança porque a viagem vai começar nos próximos posts!! ![]()
Tudo de viagem sempre.
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E pra iniciar a festa na estrada...
- DESAFIO MALLA PREMIADO! Alguém lembra "algo top" da foto que ilustra este post? Quem acertar a resposta ganha um presentinho especial de Bonito. ![]()
15.Setembro.08
Quem vai defender o Alaska?
Não ando muito animada para comentar política exterior em geral, muito menos as eleições americanas - prefiro ler os diversos blogs competentes dos amigos que vêm fazendo coberturas e análises ótimas de tudo que se passa pela campanha na terra do tio Sam. Mas também não consigo me abster totalmente do assunto, já que qualquer ser humano com 2 neurônios funcionais pôde perceber nos últimos 8 anos o quão importante é a figura do presidente americano para a (des)ordem política mundial - e o quanto essa figura simbólica influencia direta ou indiretamente vidas alhures, independente se você mora no Zimbábue, na Bolívia ou no Afeganistão.
Mas mesmo lendo apenas lateralmente as grandes discussões políticas atuais sobre Obama x McCain, não posso me ausentar de linhas e links sobre o tema que mais me interessa nessa bagunça toda, a política ambiental. Li com carinho as respostas de Obama no Science Debate 2008 (iniciativa de fazer inveja, aliás), e estou no aguardo das de McCain para todas as questões levantadas ali - será muita falta de estratégia da campanha dele se não responder às maiores organizações científicas americanas que estão representadas no debate.
Dado o que McCain já falou anteriormente sobre seus planos de governo para questões fundamentais de ciência e meio ambiente, não consigo imaginar em que dimensão vivem os republicanos em matéria de ecoconsciência. Porque é quase um universo paralelo das preocupações atuais.
John McCain e Obama focam (com razão) boa parte de suas bases políticas ambientais na questão energética. Mas em minha opinião, McCain erra ao querer investir mais em energia nuclear e minimizar investimento em tecnologia para fontes de energia renováveis, mais limpos - Obama diz que só investirá em nuclear depois de se certificar de questões como o lixo radioativo e segurança das usinas. Precisa-se também analisar o gasto energético excessivo americano. Como bem disse o João nos comentários desse post do Adilson, o que acontece nos países desenvolvidos não é apenas uso de energia, é desperdício em demasia. Uma das maneiras de diminuir esse desperdício, além de educando para um uso controlado, é aumentando a eficiência energética, e para isso, investimento em pesquisa e tecnologia mais condizente é fundamental. McCain também parece não relevar o gasto econômico que a escolha nuclear traz consigo. Numa economia em crise como a americana, é sempre bom lembrar desses detalhes numéricos.
Mas mesmo com a escolha energética controversa, McCain ainda possuía até algumas semanas uma postura moderada ok e um certo bom senso: pelo menos não delirava enxergava teoria conspiratória no aquecimento global. Mas aí, numa estratégia super-arriscada (e sagaz) para ganhar votos com a ala mais conservadora do partido, convidou para sua vice Sarah Palin, do Alaska, até anteontem uma pessoa que não acreditava que as atividades humanas poluidoras eram em grande parte responsáveis pelas mudanças climáticas - mesmo tendo uma cidade derretendo no quintal de seu estado. Mas Palin mudou de idéia de repente sobre o aquecimento global. (Por que será, não?
) Sua escolha para vice não agradou os ambientalistas nem "patriotas verdes", pois sua história "verde" tem mais tons de cinza que as nuvens do furacão Ike - e decoração animal, literalmente. A política ambiental republicana virou um caso peculiar do "concordar na discordância".
Palin é atualmente governadora do Alaska, estado gelado localizado na região ártica, a mesma região que vem sofrendo com o degelo em ritmo acelerado. Seu mandato foi um festival de destruição ambiental. Seu apoio irrestrito (e ilegal) ao aumento das perfurações por petróleo é o reflexo claro de uma visão focada apenas no curto prazo. Desculpem os mais pragmáticos, mas a meu ver política bem feita tem que ser orientada para o longo prazo. Pode até haver projetos mais emergenciais, mas jamais se deve esquecer os resultados a longo prazo, que serão deixados para outras gerações. E ambiente é assunto a longo prazo por excelência - e mesmo o sendo, já tem gente pensando eficientemente em curto prazo.
Além de sua visão curta para a matriz energética ("oil forever!"), Palin ainda assinou como requerente um processo judicial pedindo para não incluir o urso polar na lista de animais ameaçados de extinção - exatamente por causa das perfurações de petróleo, que seriam dificultadas segundo ela pela existência de uma espécie ameaçada e tão "emblemática". (Ahn?)
O Alaska é um dos locais de ecossistema mais inóspitos e delicados existentes, cheio de biomas diferentes, todos relacionados às temperaturas gélidas: florestas boreais, oceanos frios, taiga, tundra, estuários, montanhas fascinantes - o belo e temido Denali está lá. É habitat natural de diversas espécies de seres vivos, entre elas grandes mamíferos como as baleias jubarte, belugas e lontras, todos ameaçados de extinção. Isso para não falar das plantas, fungos e da sua importante e rica área costeira.
Hoje em dia, entretanto, aparece em qualquer lista de "fadado ao desaparecimento em pouco tempo". Porque infelizmente, o mesmo Alaska que tem essa diversidade de biomas gelados e que tem sofrido tão de perto os efeitos do aquecimento global, também é dono de jazidas substanciais de petróleo - a fonte energética preferida dos republicanos, que por sua vez é a facção política dominante no estado. Então o que vemos na política da região é uma tendência clara a fazer a balança pender muito mais para o lado do desenvolvimento econômico predatório a qualquer custo que pro lado da conservação e do desenvolvimento sustentável, das alternativas ecologicamente mais limpas. Seria necessário para não perdermos a riqueza que o ecossistema saudável do Alaska representa e que vale mais que o petróleo de seu subsolo [link em pdf] que houvesse primordialmente vontade política para ler os dados já existentes e investir num plano elaborado de desenvolvimento sustentável, olhando para o ambiente com carinho e entendimento, incorporando o componente humano quando é possível fazê-lo, e não com desprezo e olhos de urubu faminto que avistaram carniça.
Mas, dado o pálido discurso de Sarah Palin e seu histórico ambiental cor de petróleo, cada vez que leio sobre ela, suas bizarrices de política verde e penso na hipótese de que ela possa vir a assumir cargo de tamanha importância no cenário mundial, uma mesma pergunta preocupante paira na minha cabeça: quem vai realmente defender o Alaska?
Tudo de bom (?) sempre.
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Para refletir colateralmente:
- A ONU quer fazer mudanças na forma como a política ambiental é administrada dentro da organização. As propostas são interessantes e centralizadoras, para que as diferentes agências conversem melhor entre si. Podem vir praticidades boas dessa proposta. Aguardemos.
- Uma clara análise sobre a visão de Sarah Palin nas questões ambientais e no ensino de ciências. Ah sim, não esqueçamos que ela está aberta ao ensino do criacionismo em salas de aula... De sentar e chorar.
- Das colunas sobre Sarah Palin que li nos últimos dias, essa do Guardian foi a que mais gostei, pelo tom contundente mais que adequado.
13.Setembro.08
5 momentos de fim de inverno na Paulicéia
Nas últimas semanas, fiz alguns passeios e baladas pela cidade que merecem ser mencionadas, apenas para meu registro pessoal. Eis os 5 "eventos" que marcaram meu fim de inverno na capital:
1) Show do Yamandu Costa - Leio na seção "Grátis" do caderninho de cultura do Jornal da Tarde (versão papel) que meu ídolo número 1 do violão iria tocar gratuitamente. O endereço era estranho, um teatro no Itaim. Mas como sou fã, liguei para saber como seria o esquema de distribuição de ingressos (já perdi as contas de quantos shows gratuitos excelentes perdi ultimamente por chegar atrasada) e fui anyway. Não podia ter sido melhor. Na realidade, o teatro Décio Almeida Prado, que fica dentro de uma escola municipal do Itaim, estava sendo reinaugurado com esse show do Yamandu. Tinha uma fita na entrada para ser cortada por uma autoridade (no caso, foi o Secretário da Cultura do Estado). Sobre o show, desnecessário muitos comentários: Yamandu é rei. E eu estava na 2ª fila para sentir cada acorde profundamente. Acabado de chegar do Canadá, estava ainda abalado com a morte recente de Dorival Caymmi. Para homenageá-lo, entrecortou todas as músicas do show com músicas do Caymmi. "Sampa" versão Yamandu com acordes de "Saudade da Bahia" é o mais próximo que meus ouvidos podem chegar do êxtase completo. Foram quase 2 horas de magia e simpatia - Yamandu conversava com o público como se estivesse numa roda de chimarrão. E na saída, a última surpresa que a cidade poderia dar: um coquetel de reabertura do teatro, com quitutes maravilhosos e champanhe à vontade. Eu me perguntei por que mais pessoas não estavam ali também, já que o evento fora anunciado em jornal comum (foi assim que eu achei, ué). Mistérios da Paulicéia.
2) Show do Arnaldo Antunes e Edgard Scandurra - No Studio SP, a convite do Gravataí. Presentes também Juju, Pat, Tuca e Ana. O show foi simplesmente sensacional. Arnaldo pertíssimo do público, cantou só músicas lado B da sua carreira, em arranjos diferentões. Destaque para "Judiaria" que eu adoro e ficou nota 10 com o efeito vocal do Scandurra, e para "O Buraco do Espelho", que sempre me assombra. Na saída do Studio SP, a decepção e raiva: quase fomos literalmente esmagados pela desorganização e falta de educação dos seguranças da casa. Local devidamente riscado das minhas atividades noturnas paulistanas.
3) Visita ao Embu - Já tem mais de 1 mês que fui de sopetão passar uma tarde de sábado na cidade do Doni. Eu não conhecia Embu das Artes e achei uma delícia só. A feirinha é interessante, cheia de quinquilharias deliciosas, e o clima todo da cidade no fim de tarde é agradável. As lojas de artesanato e decoração têm preços um pouco salgados, mas se eu estivesse atrás de objetos interessantes para pôr na minha casa, com certeza teria me fartado por lá. Fotograficamente, a cidade também oferece ótimos ângulos - que não consegui explorar direito, já que estava só com a minha snapshot.


Rua do Embu das Artes e um sambinha animado num bar da pracinha central.
4) Adventure Fair 2008 - A feira da Aventura, evento gigante lá no Centro de Exposições da Imigrantes que aconteceu semana passada, que fiquei sabendo pela Lyanne lá no BlogCamp. Reuniu os grandes nomes do ecoturismo e turismo de aventura do país. Fui um dia apenas e fiquei impressionada com a preocupação em reciclar/reutilizar do evento inteiro - embora ainda ache extremamente contraditório ver stands de carros do tipo SUV como opção de turismo consciente. Havia um stand da Secretaria de Turismo de São Paulo onde um livrinho tipo "Passaporte de Trilhas" estava sendo vendido: basicamente um guia completo das trilhas de todos os parques do estado, com fotos e descrições várias. Excelente compilação. Tinha também um tanque de mergulho e números stands dos diversos estados brasileiros, propagandeando seus destinos de aventura. Percorri todos os stands de destinos - e fiquei com vontade especial de entrar na "geleira" (imitação das condições do Perito Moreno) que o stand da Argentina montou. Fomos muito bem recebidos e informados nos stands de Mato Grosso do Sul e Paraná, e fiquei envergonhada pela falta de tato com o público do stand do meu estado querido, o Espírito Santo. O Greenpeace montou uma grande "onda" e na parte interna, a gente passeava pelos principais "problemas" que os mares do mundo enfrentam hoje. Achei interessantíssimo. No final, conheci a Leandra Gonçalves, com quem já havia trocado alguns emails - ela é a responsável pela campanha dos oceanos do Greenpeace Brasil "Entre nessa onda" e comentou alguns dados tristes sobre a situação dos mares no Brasil. O casal supimpa do Vida de Viajante tem mais detalhes sobre a Adventure Fair, aos mais interessados.


Área do café, com balcão feito de garrafas PET recicláveis. Ao lado, o espaço infantil.


Guia das trilhas de São Paulo e o stand-projeto de mini-hortas de apartamento. Muito interessante.
5) Casamento da Prima - Tive a chance de conhecer o Mosteiro de São Bento por dentro, no casamento da prima do André (que é minha prima de tabela). Nunca tinha ido a essa igreja, e embora bastante eclética em seu estilo, gostei da conservação primorosa. E vai pro céu de Darwin (conhecido também como Ilhas Galápagos) quem inventou essa moda tão brasileira de distribuir chinelos havaianas no final das festas de casamento. Para descansar do martírio de horas com saltos altos, nada melhor que isso.


Dentro do Mosteiro de São Bento e o garçom da festa com uma bandeja de chinelos.
Tudo de bom sempre.
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- Sábado passado, fui encontrar com a Eva em meu habitat natural, o aeroporto. Ela a caminho da Irlanda. Conheci a Vanessa e foram algumas horas de papos engraçados sobre viagens e afins. Os relatos da Eva por email sobre sua jornada em Dublin estão uma delícia! Se tudo virar post, será garantia de boa leitura a todos.
12.Setembro.08
Sexta Sub: reflexos de um riacho
Essa foto foi tirada a alguns centímetros de profundidade, num riacho no Parque Nacional de Seoraksan, na Coréia do Sul - um dos meus passeios prediletos naquele país, diga-se de passagem. O fundo do riacho era de cascalho, a água cristalina e gélida, e estávamos no outono temperado - a folhinha laranja boiando entrega a época da foto. A imagem tem sua profundidade exagerada pelo reflexo na superfície da água, que também nos dá uma sensação abstrata em meio ao verde quase-musgo. Muito viajante.
Tudo de sub sempre.
10.Setembro.08
Constatação randômica
Hoje eu estava num ônibus em São Paulo sentada ao lado de uma mocinha. O ônibus encheu e logo minha vizinha de banco se ofereceu para segurar em seu colo a bolsa enorme e pesadíssima de uma mulher que estava em pé.
Taí um costume tipicamente brasileiro, que eu não lembro de ter presenciado em outro lugar do mundo. Em geral, oferece-se o lugar, não para segurar "coisas".
Alguém lembra de já ter visto essa atitude no exterior?
Tudo de bom sempre.
09.Setembro.08
Eddie would go
Se um dia você for ao Havaí, perceberá que a frase do título do post talvez seja, depois de "Aloha" e "Mahalo", a mais fácil de ser vista pelas ruas da cidade. Está em adesivos de carro, camisetas, cartazes, na maioria dos lugares onde os havaianos locais (os kama'ainas) frequentam. No início, achei até que era uma marca de alguma coisa - ignorância completa da história heróica por trás de tal afirmação.
E quando se fala a palavra "Havaí" para qualquer ser humano do planeta, um pensamento logo cruza a cabeça de todos: surfe.
Faz todo sentido: as ilhas havaianas são a meca do surfe mundial, com inúmeras praias onde os corajosos podem desfrutar ondas gigantes, pra lá de radicais. Além do mais, o surfe nasceu ali, nessas mesmas praias que hoje são palco dos grandes campeonatos mundiais: surfe é parte fundamental da tradição havaiana.
Pois a frase "Eddie would go" está, como não poderia deixar de ser, relacionada ao surfe. Porque - hoje sei - não dá pra falar de surfe no Havaí sem citar o nome de Eddie Aikau.

Eddie Aikau em seu posto de salva-vidas em Waimea Bay, onde ele reinava único. Foto do Honolulu Advertiser escaneada do livro de Stuart Coleman.
Eddie é considerado o maior surfista de todos os tempos. E isso, no Havaí, não é pouco. Junto com Duke Kahanamoku e Israel Kamakawiwo'ole (ou simplesmente Iz), Eddie é um dos representantes roots da cultura e dos valores havaianos. Um verdadeiro mito do Pacífico.
Sua vida foi deliciosamente contada no livro "Eddie would go", de Stuart Holmes Coleman, que tive o prazer de ler há alguns meses. É um livro não só biográfico, mas também histórico: conta a saga inicial do surfe no cenário mundial, como e quando ele ganhou outras praias além das havaianas, e o papel crucial que Eddie Aikau e sua turma tiveram para tal feito. Aliás, em muitos momentos, a história do surfe se mistura à de Eddie e temos a sensação de que sem ele o esporte não seria o que é hoje.
Eddie era um homem simples, com pouca educação formal, e na época o salva-vidas de Waimea Bay, um dos points mais radicais de surfe no mundo. Reconhecido na ilha por sua diplomacia inata para lidar com querelas do surfe, destacava-se dos demais pelas poucas palavras e múltiplos gestos de amizade. Tentava apaziguar todas as confusões armadas pelos surfistas de outras bandas que chegavam ao Hawaii (australianos, californianos e sul-africanos, principalmente). Toda vez que uma briga grande se formava, era Eddie Aikau o convocado para conversar com os egos envolvidos. Isso, em tempos de ódio aos haoles, era tarefa árdua, que ele desempenhava com primor exemplar.


Waimea Bay, a "casa" de Eddie no North Shore havaiano.
Mas o que tirou Eddie Aikau da condição de simples homem para a de herói foi um evento trágico, como não poderia deixar de ser. É fascinante nesse ponto como o livro é conduzido: a introdução pincela em grossas linhas essa tragédia. Aí no primeiro capítulo voltamos no tempo e começamos a entender a vida e a perspectiva do garoto Eddie, que amava o mar e sua raiz havaiana acima de qualquer outra coisa. Quando ao final do livro a tragédia é recontada, a leitura é completamente diferente, porque compreendemos agora o homem atrás do mito - e isso arranca lágrimas, confesso.
A tragédia foi um acidente no mar, local que Eddie considerava sua casa. Um esforço antropológico, científico e político queria mostrar que os polinésios há centenas de anos conseguiram chegar às ilhas havaianas não por acaso, mas por conhecimento detalhado da navegação no Pacífico. Isso sempre fora uma teoria até então, mas chegara o momento em que se queria provar essa hipótese. Começou então a construção do Hokule'a, uma típica canoa de navegação polinésia. A primeira viagem feita em 1976 conseguiu chegar sã e salva no Taiti, usando apenas instrumentos rudimentares e reproduzindo as condições dos antigos donos do Pacífico. Entretanto, havia um barco de apoio, que viajou com eles sem dar palpites - era o Hokule'a quem decidia a rota e, a não ser que errassem por muito, o barco de apoio levantaria a voz. Após uma viagem cheia de brigas internas mas bem sucedida em seu objetivo final, decidiu-se que se provaria de uma vez por todas a rota dos polinésios da forma mais roots possível: dessa vez o Hokulea viajaria sem o barco de apoio. Eddie foi então convidado para essa segunda jornada. O Hokulea saiu pro mar então pela 2ª vez no dia 17 de março de 1978 do píer de Honolulu e 5 horas depois, na passagem do canal próximo à ilha de Molokai, a canoa virou devido a uma tempestade e os tripulantes perderam controle total da situação. Sem rádio para pedir ajuda, muitas horas depois de nenhum sinal de avião ou navio por perto, Eddie corajosamente pegou sua prancha de surfe e se dispôs a nadar até a ilha de Lanai, que ele supostamente achava estar próxima. Desapareceu no mar, e seu corpo nunca foi encontrado - o restante da tripulação foi salvo depois que um avião de passageiros percebeu o pedido de SOS vindo do mar e passou sua localização ao resgate havaiano. Mas ali, naquele acidente, nasceu o mito Eddie Aikau.
Porque ele não desistiu de ajudar seus companheiros e mostrou a coragem que o povo havaiano até hoje venera com relação ao mar. De modo que, nos anos subsequentes, além de inúmeras homenagens pela ilha, um campeonato de surfe foi montado em Waimea Bay pela Quiksilver e se chama "Quiksilver Big Wave Invitational In Memory of Eddie Aikau". Nesse campeonato, somente os melhores surfistas do planeta são convidados a participar e as condições das ondas na baía chegam a níveis insanos para que o torneio seja realizado - é aventura radical para pouquíssimos enfrentar aqueles paredões de água.
E aí, no campeonato Eddie Aikau de 1986, as ondas estavam impossíveis de serem surfadas para qualquer pessoa. Os organizadores debatiam se o campeonato deveria ou não ser cancelado, porque o mar urrava desastre, se seria seguro que os surfistas fossem para a água naquelas condições. Foi quando Mark Foo, um dos especialistas em surfe de ondas gigantes, disse para um cameraman que estava por ali: "Eddie would go". A frase ficou e virou símbolo de uma tradição e de uma tribo. O exemplo da coragem de um havaiano sobre o mar pelo qual dedicou sua vida e a jogou nele. Eddie went to the sea and became a Hawaiian legend.
Tudo de surfe sempre.
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Para viajar mais...
- Os herdeiros de Eddie Aikau recentemente arrumaram confusão no North Shore havaiano por questões de uso da imagem.
- Um post do Alohapaziada sobre a "gang" que queria profissionalizar o surfe em 1974, história que é contada detalhadamente no livro de Stuart.
- Dá pra ler (e ver) todo o surf report de Waimea Bay nesse link aqui, atualizado diariamente.
08.Setembro.08
Construindo uma estrela
...em Hollywood, entenda-se bem - afinal, estrelas do céu "nascem", não são "construídas" no sentido humano da coisa. E meu ínfimo conhecimento de astrofísica não me permite aventurar pelas avenidas confusas de como nascem as estrelas do céu. Já pelas avenidas de Hollywood...
Mas enfim, eis que na semana passada, li no caderno de Turismo do Jornal da Tarde (versão de papel sem link online) que a Calçada da Fama em Hollywood estava em reforma. Eles estavam reconstruindo algumas estrelas, limpando outras, dando lustro nas mais apagadinhas. Achei a notinha interessante, porque quando estive em Los Angeles no ano passado, vimos algumas delas sendo construídas e/ou reformadas. É um processo curioso.
A Calçada da Fama em Hollywood é uma das maiores atrações da Grande Los Angeles. Fica em frente ao Chinese Theater, onde também estão as impressões de mãos e pés de diversos artistas. Mas, diferente desse pedaço de cimento, a Calçada da Fama se estende por alguns quarteirões do Hollywood Boulevard, e é habitada por uma "fauna" de artistas de rua hilária, como vocês podem ver nas 2 fotos abaixo, onde a Mulher-Gato e Homer Simpson passeiam e se oferecem para fotografia a turistas incautos. Por causa da maior amplitude da calçada, um número muito maior de famosos é contemplado com uma estrelinha ali do que com as mãos e pés na frente do Chinese Theater.
A Calçada da Fama foi criada em 1955 e foi uma maneira criativa que uma empresa de construção civil achou de homenagear as personalidades que fazem Hollywood ser o que é - e aumentar seus lucros. Essa empresa de construção vendia "terrazzo", o material do qual as estrelas são feitas, e viu na idéia uma oportunidade de clientela d boa qualidade. Na época, foi um investimento de risco, porque a região do Hollywood Boulevard era muito degradada, uma espécie de cracolândia de Los Angeles. Mas, pelo que vemos hoje, o risco valeu a pena.
Cada estrela da Calçada tem o nome do artista e um símbolo que indica de onde veio seu sucesso,. A estrela da foto abaixo, por exemplo, tem o símbolo do cinema, que é obviamente onde esse moço fez a sua fama. As outras categorias são: Televisão, Rádio, Música e Teatro/Performance. No site oficial da Calçada da Fama, você pode procurar por seu ídolo e saber exatamente onde a estrelinha dele está. E na Wikipedia, há uma lista completa de todos os estrelados até o ano corrente.
Para construir uma estrela dessas, usa-se um tipo de mármore chamado "terrazzo" (com um pouco de granito "misturado") nas cores rosa e preta, e uma mistura metálica de cobre e zinco, que forma a bordinha dourada da estrela. Como vemos nas fotos abaixo, os construtores de estrela (que nome legal para colocar na carteira de trabalho, não?) pegam a calçada no cimento grosso, colocam a forma metálica estelar dourada com nome e categoria já delineados e marcados com fita vermelha (para depois serem polidas e brilharem douradamente), e preenchem o resto com os terrazzos. Primeiro o preto ao redor, depois o róseo de dentro. Depois de pronta, a nova estrela é inaugurada em cerimônia oficial com a presença do homenageado.
Para ter seu nome na Calçada da Fama, o artista precisa ser indicado. Sua indicação é então avaliada pelo Comitê da Calçada da Fama, parte da Câmara de Comércio de Hollywood, e, se aceito, o artista é obrigado a comparecer na cerimônia de inauguração da estrela - a não ser, é claro, que já tenha morrido e seja uma homenagem póstuma.
E para os reles mortais que não são artistas, dá para construir a sua própria Calçada da Fama onde quiser. Nesse post aqui do Mavromatic (que é na realidade a introdução de uma série de 4 posts), há a descrição passo a passo da estrela que ele fez na casa dele. Diversão certa para cinéfilos hardcore, não?
Tudo de bom sempre.
07.Setembro.08
A São Paulo dos cartões postais
Há umas 2 semanas, fizeram alguns raros dias maravilhosos em São Paulo, de céu super-azul e pouca poluição visível no horizonte (porque invisivelmente, a poluição está sempre aí, a irritar olhos, gargantas e brônquios). Os dias estavam com uma luminosidade primorosa. Nós então decidimos largar o que fazíamos para sair por São Paulo fotografando - aproveitar esses raros momentos. Eu adorei as fotos que saíram dessa investida fotográfica. São Paulo carece de belezas naturais, mas há recantos muito fotogênicos esquecidos na correria do dia-a-dia, do trânsito e das buzinas de motoqueiros.
A intenção das fotos não foi ser "artístico" nem mostrar uma São Paulo exótica ou abstrata, de linhas retas e cruzamentos. Foi simplesmente mostrar que São Paulo, a cidade com complexo de "patinho feio", é bela à sua maneira. Um aglomerado urbano com visões ótimas de cartão postal. Julguem o resultado vocês mesmos.
O passeio começou pela Avenida Paulista, é claro. Eu adoro andar por ali.
Onde o destaque é, sem dúvida, o MASP.
Depois, fomos descendo a Avenida da Consolação, onde um carro antigo vermelho compôs melhor uma das visões que mais gosto da cidade, no cruzamento com a Maria Antônia.
No final da Consolação, fica a Igreja da Consolação, que considero um oásis arquitetônico em meio aos demais prédios da região. A foto da direita poderia ser em uma cidadeziha da Europa, não?
Paramos então para uma subida no Edifício Itália, talvez o passeio mais chavão de um turista na cidade. Nos dias de semana, das 3 às 4 da tarde é de graça a visita.
Vale a pena andar pelo terraço, e se deslumbrar com a enormidade concreta que é essa metrópole.
Num dia de sol claro e sem muita poluição, dá também pra ver o quadrado vermelho do MASP imponente.
No centro da cidade, fica a Catedral da Sé. Uma construção belíssima, em minha opinião, que não deixa a desejar a muitas catedrais do mundo.
De lá, esticamos para a zona sul, e assistimos ao pôr-do-sol no Museu do Ipiranga - hoje é 7 de setembro, supostamente o dia para comemorar o local, que tem um parque muito agradável, onde vale a pena passear e descansar.
No dia seguinte, aproveitando a maré de bom tempo, fomos pela Marginal Pinheiros visitar o novo cartão postal da cidade, a Ponte Estaiada (que muitos chamam de ponte "Estagnada" ou "Estilingão").
A Marginal em si tem um bom skyline.
Seguimos então para a Praça Cazuza, na subida para a Vila Madalena, de onde se tem uma visão melhor do Instituto Tomie Ohtake, o modernoso prédio rosa da Pedroso de Moraes.
Para terminar esse 2º dia de fotos, assistimos ao pôr-do-sol... da Praça do Pôr-do-Sol, em Pinheiros, onde a gente pode sentar na grama e deixar o tempo passar sem preocupações. Sentimentos de cidade de interior numa metrópole.
Dias de um inverno que insiste em não existir numa cidade que se revela aos olhos de quem presta atenção nela. E que cada vez aprendo mais a gostar.

Essa foto do Monumento aos Bandeirantes perto do Parque Ibirapuera é mais antiga, de 2006, mas também tirada num dia de sol lindo. O monumento foi feito por Victor Brecheret no início do século passado e os cavaleiros estão voltados para o interior, como a galgar para o início de suas bandeiras. Eu o acho o monumento mais representativo da saga desenvolvimentista dessa metrópole desvairada.
Tudo de São Paulo sempre.
05.Setembro.08
Sexta Sub: Flor de vitória-régia para o dia da Amazônia
A vitória-régia (Victoria amazonica), como devem saber, é a flor-símbolo da floresta Amazônica. A foto dessa flor particularmente não é das mais bonitas, mas representa bem a situação geral do que vem contecendo à Amazônia como um todo: diversos pontinhos queimados, um viço que aos poucos se esvai - mas que insiste em ser belo até o último respiro.
Para o dia da Amazônia, eis a reflexão.
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A Amazônia não é a minha "praia", no sentido literal e no sentido figurado. Dou meus pitacos aqui e acolá sobre os problemas da floresta, mas tenho plena consciência de que são isso aí apenas: pitacos. Há intenção sincera de compartilhar informações lidas, vistas e/ou ouvidas, mas não há a menor possibilidade de solucionar os problemas da Amazônia assim. Porque para enfrentar tais problemas, são necessários muito mais que pitacos: precisa de vontade política, incentivo à educação dos moradores da própria região, entendimento das complexidades da floresta (que são enormes). Viver o Amazonian Way of Life.
Exatamente por saber que as complexidades que o tema "Amazônia" traz à qualquer mesa de discussão (política, econômica, ambiental, social), às vezes me incomodo com alguns textos e spammails que circulam por aí. Vozes inflamadas, querendo cegamente salvar aquele pedaço de floresta, gritos vindos de pessoas que nunca viram sequer um pé de açaí, ou entraram na mata para entender sua giganteza. Soa extremamente utópico, e utopia não resolverá as questões pertinentes da Amazônia.
(Toda vez que leio textos assim, aliás, lembro de uma cena de "Good Will Hunting", em que o personagem sabichão de Matt Damon é desmontado lindamente pelo personagem de Robin Williams: "So if I asked you about art, you'd probably give me the skinny on every art book ever written. Michelangelo, you know a lot about him. Life's work, political aspirations, him and the pope, sexual orientations, the whole works, right? But I'll bet you can't tell me what it smells like in the Sistine Chapel. You've never actually stood there and looked up at that beautiful ceiling; seen that.")


Uma família em seu transporte mais comum, o barco, numa reentrância do rio Solimões. Ao lado, um mateiro local nos ajuda em trilha no meio da floresta inundada. Sem sua ajuda, seria impossível andar pela mata.
Por isso valorizo muito os discursos em primeira pessoa, feitos por quem está (ou esteve) lá, que felizmente os tempos de internet nos permitem acesso. Porque esses discursos são providos de mais realidade e menos utopia - mesmo que escritos na forma de posts lights num blog. São o retrato da vida cotidiana na maior floresta tropical do planeta.
Antes dos blogs, eu já ouvia discursos assim de pessoas próximas: do Lucio (e suas aventuras atrás de abelhas pelas florestas do Acre), do Bião (e seu amor pelos macacos, especialmente o uacari de Mamirauá), do Bill (um gringo que mora no Amazonas e faz mais pela Amazônia que qualquer outra pessoa que conheço), da minha querida sogra (que se embrenhou incontáveis vezes descalça pela floresta à procura dos lagartos que estudava). Esses são relatos que mostram uma realidade mais pé-no-chão do que lemos em geral na mídia, bombardeada que está por delírios de "internacionalização" em entrelinhas pegajosas.


Bill dando literalmente seu sangue pela pesquisa científica na Amazônia. Ao lado, casa ribeirinha no rio Solimões: aí moram os verdadeiros guardiões da floresta.
Eu também já estive na Amazônia. Uma vez só - e é exatamente por isso que falar sobre a Amazônia me incomoda. Não me sinto confortável de maneira alguma para palpitar seriamente sobre o tema. O máximo que a gente faz é distribuir informações e fomentar discussões, tentar conscientizar pessoas que um problema grave de administração e ambiente existe por aquelas bandas, mas mais que isso realmente não dá. Porque em uma única ida, vi outras nuances que pouco conhecemos, diluídas que estão no discurso chavão de proteção a qualquer custo. Numa das conversas que tive com a Alline lá em Mamirauá - uma reserva de desenvolvimento sustentável administrada em boa parte pelos ribeirinhos - ela me contou que na primeira oportunidade que surgiu, os ribeirinhos, com o lucro que ganharam na reserva, compraram uma TV de plasma para a comunidade deles. Afinal, tudo que eles queriam era "inclusão brasileira": assistirem às mesmas novelas, ouvirem o Galvão Bueno narrar os jogos de 4a à noite, darem "boa noite" ao William Bonner todo dia. E inclusão social, se sentir brasileiro como a média, a TV de plasma, no barraco de palafita, psicologicamente trouxe.
As pessoas que estão na região Amazônica querem desenvolvimento - sustentável ou não. Porque desenvolvimento significa na cabeça deles (e da maior parte dos seres humanos do planeta...) melhoria de vida. E quem não quer melhorar, né? Por isso que meu pitaco-mor (além de ficar distribuindo informações sobre o tema sempre que cabe) é a necessidade de se educar os moradores da região, principalmente aqueles que estão em contato direto com a floresta, para as complexidades do local em que estão. Tratá-los com dignidade e respeito, como cidadãos brasileiros que são e compartilhar a informação que pesquisadores, ambientalistas e afins geram na teoria. São esses moradores locais que cuidarão na prática da Amazônia, não os que a defendem fervorosamente do sudeste (que no máximo cuidam dela na teoria...). Se os habitantes locais estiverem munidos de informação, leis contextualizadas (e não viajantes na maionese...) e recursos bem-administrados, o benefício que a utopia dos demais sonha pode ser alcançada: salvar a floresta que nos é tão querida.
Tudo de bom sempre.
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- Se você curte arqueologia, na National Geographic dessa semana há uma reportagem sobre a rede de cidades que existia na Amazônia antes da chegada dos europeus no século XV.
- Esse post é dedicado a todos os que passam por aqui e são da região coberta pelo tapete verde que é a Amazônia. É gratificante ler o que vocês têm a contar sobre a vida nas cidades do Norte. Também faz parte da blogagem coletiva do Faça a sua Parte para o dia da Amazônia.
04.Setembro.08
Fisgada como tubarão
Uma artista inglesa ajudou numa "ação" de marketing azul visualmente impactante em prol dos tubarões: aceitou ser "fisgada" com anzóis e pendurada na vitrine de uma loja em Londres. No vidro, estava escrito uma mensagem sobre os 100 milhões de tubarões que são mortos anualmente para sustentar a crendice e costume chineses de comer sopa de barbatana de tubarão.
A campanha foi feita pela empresa de cosméticos orgânicos Lush em conjunto com a ONG de proteção marinha Sea Shepherd. As fotos são "doloridas", eu diria... Mas curti a "ação" - pelo menos me atingiu mais que o normal.
(Via Claudia Chow, no twitter.)
Tudo de tubarão sempre.
03.Setembro.08
Quem quer viajar de avião?
Era uma vez o tempo em que vôos internacionais eram sinônimo de glamour e conforto.
Considero um marco negativo na história das viagens de avião a notícia que li com tristeza no Gadling e depois no Rodrigo: a United Airlines vai passar a cobrar por refeições em seus vôos entre EUA e Europa a partir de 1º de outubro. Mesmo na 1ª classe, serão servidos snack box e uma refeição apenas. É a primeira vez que ouço uma empresa cortar refeições em vôos internacionais, abrindo um precedente deprimente numa indústria ameaçada pelo aumento do combustível e pelos preços de manutenção cada vez mais altos. No caso da United, eu diria que é uma decisão drástica de desespero mesmo. Fazer turismo já não é mais a mesma coisa há tempos, mas essa notícia só traz mais desânimo a viajantes menos empolgados. Ao invés de atrair mais clientes, a indústria parece os afastar cada vez mais.
E não é a 1ª vez que uma notícia assim chega aos ouvidos dos viajantes americanos. No último ano, o viajante-padrão foi bombardeado por notícias-regrinhas desse naipe: empresas que passaram a cobrar pela água servida no vôo, pelo travesseiro e cobertor disponíveis até então de graça, pelas bagagens despachadas, que removeram coletes salva-vidas dos assentos ou os aparelhos que passam filmes para diminuir o peso e economizar combustível, que não aceitam mais dinheiro vivo para comprar tudo isso nos vôos... Isso tudo quando não entram direto com pedido de concordata mesmo.
Há quem adore esses cortes na comida de vôo: os lojistas dos restaurantes e fast-foods do aeroporto, que têm agora grandes filas pré-embarque e garantia de lucro. Mas há também quem esteja reclamando: as empresas que fornecem comida pras companhias aéreas, é claro.
Infelizmente o consumidor não deve se animar e achar que todos esses custos novos serão descontados dos preços de passagens: eles continuam os mesmos ou maiores, até. O que estamos vendo no mercado americano - e um pouco respingando na Europa e no Brasil também - é uma verdadeira mudança gradual no paradigma das viagens de avião, que passou a ser o que originalmente nasceu sendo: transporte, puro e simples.
O preço do combustível é a espinha dorsal desse movimento de depreciação das viagens aéreas - combustível nos EUA sempre foi ridiculamente mais barato que no resto do mundo e agora com o aumento do preço do barril de petróleo, as companhias aéreas americanas estão sentindo mais o baque. Não vêem a luz no fim do túnel tão cedo, e vão cortando mais e mais serviços que antes assumíamos estar inclusos ao preço do tíquete. Hoje, pagar uma passagem significa apenas o direito de ser carregado de ponto X a ponto Y - todo o resto pode vir a ser cobrado, dependendo da companhia e de sua situação econômica geral.
É claro, essa situação não é no mundo todo nem em todas as companhias. As companhais asiáticas, por exemplo, donas de um serviço impecável, têm crescido estrategicamente e atuado com boas margens de lucro (UPDATE: também reportaram recentemente perdas), apesar dos pesares do mercado. Mas independente desses respiros, o que percebo nitidamente é uma mudança da filosofia de viajar de avião da parte dos consumidores, calejados das trapalhadas sofridas por essa tenttativa de minimizar o custo por todos os lados. Aeroportos se transformaram em sinônimo de chateação para muitos, quando não de pesadelo. Uma pena.
Apesar do meu otimismo e da minha paixão por viajar intermitente, acho difícil que as empresas consigam sair dessa sinuca de bico sem se arranharem com o consumidor. A tendência que vejo é de só os mais insistentes (aqueles que amam viajar de verdade) e os que precisam viajar (negócios, emergências e afins) encararão tantas restrições sem muita frustração. O viajante casual tende, a meu ver, a se tornar mais casual ainda - ou optar por uma jornada por terra/navio. Realizar o sonho de visitar lugares nunca d'antes pisados requer agora doses extras de persistência. Se antes o glamour e o conforto das viagens de avião não era alcançável a todos por causa do preço, hoje, na era das low-costs/low-service, é a paciência de todos que não está ao alcance dos malabarismos das companhias. Aguardemos o que o futuro pode trazer.
Tudo de viagem sempre.
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- Hoje é o dia do Biólogo. A todos os amigos de profissão, meus parabéns!!! Meu presente é antigo, mas de coração: em 2005, escrevi um pequeno texto de que gosto muito, em homenagem a profissão que abracei com tanto carinho. Os biólogos que passarem por aqui na data de hoje, sintam-se por favor abraçados por mim na forma dessas letras antigas.
02.Setembro.08
Papel de trigo
Li com atraso no World Changing que a revista Canadian Geographic aceitou um desafio supimpa: fez sua edição de junho com 60% de papel feito a partir de trigo. Aparentemente, os leitores não notaram a diferença, e a sensação do papel era a mesma do papel feito com a celulose do eucalipto.
A idéia de fazer papel a partir de trigo é extremamente interessante, a meu ver. Por 2 motivos: 1) utiliza-se o "galhinho" do trigo que é normalmente jogado fora pelos produtores - que aproveitam apenas o grão para suas vendas - dando portanto função a um "lixo" agrícola; 2) tira um pouco da pressão enorme que a monocultura tenebrosa plantação de eucalipto gera no ambiente [link via GReader do Tiagón].
Eu cresci no Espírito Santo, um dos maiores produtores de celulose do país (devido à presença da Aracruz Cellulose, talvez a empresa mais greenwashed que já vi). Nos quase 20 anos que vivi por lá, entre incontáveis descargas poluentes que a indústria liberava na calada da noite (o cheiro podre chegava na minha casa com frequência), muitas modificações no ambiente (e em outras "cositas") decorreram da produção em demasia de celulose do eucalipto. Eu ainda era criança, mas lembro do biólogo Augusto Ruschi dizendo nos jornais que o estado sofreria um grave problema hídrico se as plantações de eucalipto continuassem no ritmo que estavam - Ruschi já morreu, mas suas "previsões" foram acertadas: o Espírito Santo hoje tem uma área de 220 mil hectares considerada "deserto verde" (e crescendo...), onde só há eucalipto, lençóis freáticos secam a uma velocidade estarrecedora e o abastecimento de água é problemático.
Dado o gigantesco impacto que o eucalipto produz no ambiente, a notícia de reutilização de um subproduto do trigo para produzir papel é, a meu ver, muito esperançosa. Claro, melhor seria se economizássemos papel, ponto. Mas como na vida real a burrocracia humanidade em geral ainda insiste em existir no papel, tudo que posso dizer é: tomara que as dificuldades técnicas ainda existentes a produção via trigo sejam superadas, que se torne logo economicamente mais viável usar o trigo para fazer papel, e que em breve toda vez que a gente precisar usar papel, este seja de preferência com uma tecnologia mais ecoconsciente como esse de trigo parece ser, para aliviar um pouco o avanço desastroso do eucalipto pelo planeta.
Tudo de bom sempre.
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- Publicado também no Faça a sua parte.
01.Setembro.08
Pequenas anotações de viagens virtuais 37
1) Um blog com as explicações matemáticas de todos os episódios da série "Numb3rs" (que eu adoro!), feitas por um professor do departamento de Matemática da Northeastern University, nos EUA. (Dica malla: fuce os arquivos do blog.)
2) 8 dicas para escrever um bom projeto científico - e aumentar as chances de tê-lo aprovado por uma agência de fomento.
3) "Imagine você, derretendo nas ruas de Belém do Pará, ao som de Kraftwerk. Surreal."
Tem descrições que só O Primo consegue fazer para você. Ah, ele também fez uma tabela de medalhas olímpicas mais acurada que a oficial, onde venceu como país mais eficiente em Beijing... a Nigéria. Viva a estatística.
4) Descubra quem é o "Landlord" dos oceanos. (Mas quem frequenta o blog por meio segundo já pode imaginar quem seja... hehehe)
5) A Luisa está contando toda sua saga para viajar à Rússia - e não é só Moscou e St. Petersburg, ela quer ir numas cidadezinhas escondidas e provavelmente super-interessantes. Transporte é um problema $ério nos planos de viagem para um país de tais dimensões. As dificuldades começam no visto, mas não desanimam, porque deve ser realmente fascinante conhecer aquele pedaço de mundo. Se esse é seu destino, as dicas da Luisa são as melhores que eu já li sobre preparativos para a Rússia.
6) Obama, antes de lançar oficialmente sua candidatura pelo partido democrata, passou férias no Hawaii e agiu como verdadeiro kama'aina: surfou em Sandy's (point dos locais, raramente vemos turistas por ali), viu a ilha de Oahu do topo do Pali Lookout, fez picnic no Ala Moana e snorkel em Hanauma Bay (esse o passeio mais "turístico" de sua visita). Nada de gastos excessivos; todos locais que qualquer mochileiro pode ir sem medo de deixar toda sua verba ali. Pontos para Obama.
7) CSI nos EUA: na vida real, as coisas não vão nada bem mesmo para esses profissionais forenses... Nem mesmo o iPod-PCR pode resolver os problemas estruturais que a ciência forênsica parece estar passando nos EUA.
8) No DivePhotoGuide, uma reportagem com o responsável pelas fotografias e filmagens sub durante as provas de natação das Olimpíadas de Beijing. Interessante.
9) Meu post do dia mundial da fotografia foi o gancho pro Tiago contar um pouco sobre a fotografia de surfe no De Chinelo. Os nós da rede se interconectando... é esse dinamismo que me encanta.
10) Pra finalizar, o blog do Lonely Planet pergunta onde se come a melhor pizza do mundo - e sugerem que Nova Iorque ou a Itália seriam as vencedoras. Gab Nancarrow obviamente nunca esteve em São Paulo. ![]()
(Minha favorita na cidade, by the way, é a do Santa Pizza. Mas eis aqui a opinião de quem realmente entende do assunto.)
11) Tudo de bom sempre.






















































































