28.Agosto.08
Pipai
Quando a gente é criança, em geral vê os pais como os grandes heróis de nossas vidas, aqueles que estão sempre ali ao redor, para te proteger de toda e qualquer ameaça. Não sou psicanalista, mas imagino que isso seja o padrão mais comum.
E quando eu era criança, tive a imensa sorte de ter um pai cuja cabeça estava em eterno espírito de jovialidade e brincadeira. As outras crianças o "invejavam" porque, diferente dos pais intelectuais e ocupados da maioria dos meus amiguinhos, ele esquecia o mundo lá fora e entrava na roda infantil com a cabeça de um moleque, sem preocupações ou receios, ensinando a rodar o pião com a unha, a jogar bolinha de gude "vera" (a mais difícil de todas) e soltar pipa; tudo junto com a gente, como se ele voltasse aos seus tempos de criança no Rio. Pipas, aliás, eram sua especialidade: montava a intricada armação de bambu com papel de seda colorido, fazia rabiolas enormes coloridas, tudo na medida certa para alcançarem o céu dos nossos sonhos mais azuis em malabarismos fenomenais.
Aí a gente cresce, começa a ver que o mundo não é um eterno parque de diversões, e percebe que o herói que soltava pipa com a gente era na realidade um batalhador, que suava para se dedicar a uma carreira e à família, para pagar a escola e ainda arrumar tempo para brincar com a filha e os amiguinhos dela. Mas que conseguia fazer tudo isso com um sorriso feliz, como se cada pipa no ar fosse a reafirmação vital do seu jeito moleque de ser.
Hoje, apesar da minha idade, meu pai continua sendo meu "pipai". Assim como eu provavelmente não cresci pra ele, ele também continua o mesmo herói - só que agora com toques de mais realidade e menos fantasia. Mas a pipa continua no ar, e entre altos e baixos, tropeços e festejos, o céu azul ainda é o limite dos nossos sonhos, seguros que estamos pelo mesmo carretel de linha: a felicidade da existência mútua.
Feliz aniversário e longa vida, papai!
Tudo de bom hoje e sempre pra você, o melhor pai do mundo!
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*A foto que ilustra o post é da década de 90, do meu pai soltando pipa na praia de Farol de São Tomé, em Campos (RJ). Atrás dele, um moleque que não faço a menor idéia de quem seja. Meu pai tem um magnetismo natural com crianças inacreditável. Presenciei esse "fenômeno" inúmeras vezes: basta ele chegar num lugar para as crianças em poucos minutos o circundarem e a brincadeira começar da forma mais natural e infantil possível. Ele realmente consegue se comunicar muito bem com a molecada. Não à toa, hoje ele investe seu tempo e disposição em campeonatos de futebol-mirim, onde é unanimemente a alegria da criançada.
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