11.Agosto.08
A vida na Nova Caledônia
Há um mês, a UNESCO liberou a lista de novos "patrimônios da humanidade". 27 locais selecionados: 19 de valor cultural e 8 de valor natural. Para surpresa de alguns, as lagunas de Nova Caledônia foram agraciadas com tal honraria, pela riqueza de biodiversidade dos seus recifes de corais (estima-se que cerca 700 espécies de coral vivam ali) e o alto índice de endemismo, além de ser o local preferido de um terço da população mundial de dugongs (um parente do peixe-boi). Foram 6 áreas específicas escolhidas, englobando um total de 15.700 km2 de mar. Foi o 12º sítio coralino a entrar na lista da UNESCO, é o 3º maior recife de coral do mundo e a transformação em patrimônio da humanidade é vista (com razão) pelos conservacionistas de recifes de corais como uma imensa vitória.

Visão geral do Centro Cultural Tjibaou, e atrás a cidade de Noumea, no Pacífico Sul.
Por trás dessa inserção na lista estão, é claro, o trabalho de diversas pessoas, ONGs e instituições, no âmbito político, econômico e sócio-cultural. Uma delas é a Silvia, que por coincidência é uma amiga malla. Silvia é italiana e mora em Nova Caledônia já há alguns anos, participando do Programa de Pesca Costeira da Secretaria Geral das Comunidades do Pacífico. Ela já morou nas Ilhas Marshall, e é a força-motriz responsável também pelos trabalhos de levantamento de espécies que acontecem lá, que já descobriram preciosidades no atol de Bikini e um artigo exemplar sobre a participação intensa das mulheres na conservação dos recursos pesqueiros, especialmente no atol de Ailuk (link em pdf e contado levemente aqui, com fotos acolá).
Quando soube da novidade da UNESCO, escrevi pra Silvia, parabenizando-a e perguntando se não pdoeria dar um pequeno depoimento sobre como é viver em Nova Caledônia, para eu compartilhar aqui no blog. Um lugar tão longe do Brasil, tão fora da mídia nacional (e mundial...), merecia ter um pouco de seu mistério revelado (fora minha inata curiosidade por ilhas, é claro). Silvia não só escreveu um texto muito legal como enviou algumas fotos interessantes de Noumea, capital do país, onde mora.

Mapa do arquipélago de Nova Caledônia (indicado pela seta vermelha), com sua localização em relação às outras ilhas do Pacífico sul. Retirado daqui.
A Nova Caledônia é um país de mais de 18,000 km2 formado por duas grandes ilhas (Loyalty e Grand Terre) e um conjunto de ilhotas no sul do Pacífico, localizadas a 1200 km da costa leste australiana e a 1500 km ao norte da Nova Zelândia. O país é território francês e está situado na região melanésia do Pacífico (que engloba também Vanuatu, Papua Nova Guiné, Ilhas Salomão e Fiji). Vive de minas de níquel e turismo. Uma das curiosidades neocaledonenses não-relacionadas ao mar que mais me chamou a atenção foi de que quase 2/3 das espécies de araucárias do mundo estão ali, e são todas endêmicas - ou seja, não existem em outro lugar do mundo. O país é um hotspot de biodiversidade botânica e marinha, e trabalhos intensos de conservação são desenvolvidos em Nova Caledônia. Que culminaram na indicação de suas lagunas como patrimônio natural da humanidade.
Vejam, portanto, o que a Silvia conta sobre a vida na Nova Caledônia (tradução livre minha):
"Vinda das Ilhas Marshall [nota malla: área territorial de 181 km2], a Nova Caledônia parece enorme, desenvolvida, rica, diversa... Os 400km de extensão ilhéu dão espaço suficiente para que a pessoa tenha o sentimento de estar sentado num pedaço decente de terra, quase continental! Em Majuro [n.m.: capital das Ilhas Marshall] uma pessoa podia desfrutar do nascer do sol e do pôr-do-sol sentado no mesmo local, já que 200m de largura máxima do país, sem elevações entre os dois lados opostos das ilahs, não bloqueariam a visão do movimento do sol, com o céu e o oceano se unindo como uma só entidade do seu ponto de visão.
Em Nova Caledônia, há na verdade duas costas distintas e montanhas no meio. A pessoa não se sente "presa" entre corpos d'água. A natureza é rica, esplendorosa, tanto debaixo d'água como em terra. A biodiversidade e o endemismo são espetaculares. Aqui é, aliás, um pedaço de terra descolado de um continente principal há muito tempo que permitiu que a especiação fizesse seu trabalho em plantas e animais, e ainda é longe o suficiente da Austrália para permanecer único e afastado de espécies invasoras. Ainda existem algumas das florestas primárias, e as montanhas são cobertas por pinheiros endêmicos colunares impressionantes (Araucaria sp.) entre árvores de ficus, bambus e outras plantas gigantes. Do pico das montanhas às cachoeiras, passando pela maior laguna do mundo [n.m.: , a natureza reina e oferece aos habitantes da ilha uma boa razão para se orgulhar, afinal recentemente várias regiões do país foram escolhidas como Patrimônio Natural da Humanidade.
Araucárias endêmicas da Nova Caledônia.Os moradores locais são uma mistura de imigrantes de origem européia, vindos a maioria da França, país dono do território, ou do Vietnã, do período em que a mão-de-obra ali foi requisitada, principalmente para a exploração das minas de níquel. Kanak, as verdadeira população local do grupo melanésio, ainda vivem em sua maioria em tribos, e uma minoria mora na capital Noumea, e não parecem ter uma vida extremamente feliz nem ocupada. Uma boa oportunidade para sentir melhor a cultura local é visitar o Mercado num fim de semana, onde você pode se deliciar não só com a comida local (peixes recifais, verduras, uma variedade de frutas exóticas), mas também com a música local, arte e o jeito de ser do povo. A arte é expressa no artesanato (bijuterias com conchas, artefatos de madeira, jarros), artes figurativas (pinturas e esculturas tanto de Kanaks como de Caledonianos são mostradas em diferentes galerias de arte) e a música e a dança comumente são apresentadas nos teatros. Cultura não é, entretanto, tão "insistente" no dia-a-dia das pessoas. Os esportes são levados à sério, principalmente pela população francesa: windsurfing, kite-surfing, vela e paragliding são os esportes mais óbvios praticados, devido aos constantes ventos da ilha. Ciclismo, trilhas, caiaque... os franceses parecem estar sempre em movimento para se manterem saudáveis. E claro, mergulho autônomo, para admirar os corais fluorescentes, os paredões com os tubarões-tigre e enormes cardumes de peixes. O turismo como "Indústria" não é muito presente, e a maioria dos visitantes vêm do Japão para ilhas não muito isoladas, para casar e passar a lua-de-mel perto dos recifes. A maior parte da verba do país vem da exploração do níquel [n.m.: Nova Caledônia é o maior exportador de níquel do mundo] e sua manufatura primária, mas os ganhos das duas províncias que o exploram é irrisório comparado ao ganho das empreitadas das companhias estrangeiras de exploração.
Esculturas Kanak no Centro Cultural Tjibaou, em Noumea.A comida é bem influenciada pelos franceses e você nunca se cansa dos pães, vinhos e queijos, embora a gente tenha que pagar 3 vezes mais por esses produtos aqui que na Europa. Algumas vezes, estar em Nova Caledônia parece estar no sul da França de 50 anos atrás, com menos pessoas do jet-set e sem os iates milionários. Entretanto, basta olhar para a laguna ao acordar e lembrar que isto não é a Côte D'azur, e sim uma enorme ilha colonizada por franceses no Pacífico Sul!"

O Centro Cultural Tjibaou, em Noumea, capital da Nova Caledônia, dedicado a uma das maiores personalidades Kanak da década de 80, Jean-Marie Tjibaou. Ele lutou politicamente pela independência do povo Kanak. O complexo de prédios tem um design diferente, que lembra um pouco o estilo de casas dos habitantes do Pacífico, e foi elaborado pelo arquiteto italiano Renzo Piano. No Centro Cultural existem um museu, teatro, várias salas para conferências, um palco externo, um jardim com esculturas locais e inúmeras plantas representativas da flora local.

Exemplo de casa Kanak, em exposição no Centro Cultural Tjibaou.
A sensação que o relato da Silvia me passou é de uma ilha muito diferente da maioria das demais do Pacífico. Posso estar enganada, mas de qualquer forma, descobrir um pouco sobre o teritório só aumentou a vontade de ir visitá-la um dia - principalmente para mergulhar nas lagunas famosas. Quem sabe... ![]()
Tudo de bom sempre.
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- Para um apanhado geral de fotos da Nova Caledônia, o site da Alamy dá conta do recado.
- Vá na Wikipedia sobre a Nova Caledônia nem que seja só pra ver o emblema oficial do país: um náutilo!
- Aos interessados, o texto original em inglês enviado pela Silvia está abaixo.
"Coming from the Marshall Islands this place feels big, developed, rich, diverse…..The 400 km long island gives one enough space to be able to have the feeling to sit on a decent piece of land, almost continental! In Majuro one could enjoy both sunrise and sunset just by sitting on the same spot, since the 200 m of maximum width of the place, with no heights in between the two opposite sides of the islands, would not block the view of the sun movement. The sky and the ocean envelop the entirety of your view point.
In New Caledonia, there are actually two coasts and mountains in between and one does not feel to be trapped by water. Nature is rich, flourishing, both underwater and on land. Biodiversity as well as endemism are spectacular. This is in fact a piece of land that detached from the main continent long ago to let speciation do its work on plants and animal and it is still far enough away from Australia to remain unique and spared by invasive species. Still some primary forests exist, and mountains are covered by endemic impressive columnar pines (Araucaria sp.) among Ficuses and bamboo and other gigantic plants. From mountain peaks to waterfalls all the way to the largest lagoon in the world, nature is queen and offers to the inhabitants of the island a good reason to be proud, if nothing else at least for the recent election as World Heritage Site recently obtained by several areas of NC.
Locals are a mix of European-originated immigrants, coming mostly from France, the owner country or Vietnam, from the times where manpower was requested, especially to work in the nickel mines. Kanak, the real local people of Melanesian group, mostly still lives in tribes and the minority living in the capital Noumea doesn’t appear to have an extremely happy nor busy life. What is a great opportunity to have an idea of the local culture is visiting the Market on a week end when one gets the taste not only of local food (reef fish, vegetables, all sort of exotic fruits) as but also local music, art, and humanity. Arts are expressed as handicraft (seashell jewels, wood carving, pottery), figurative arts (paintings and sculptures from both Kanak and Caledonians are shown in the different art galleries) and as music and dances often represented at the major theaters. Culture is however not that insistent in everyday live. Sports are played instead quite seriously especially by the French part of the population: windsurfing, kite-surfing, sailing and para-gliding are the most obvious sports due to the constant blowing trade winds. Biking, hiking, kayaking…..all French people seem to always being on the move to keep in shape. And of course scuba diving to admire the fluorescent corals, the steep walls with their tiger sharks and the thick schools of fish. There is not much of a tourism industry, most visitors coming from Japan and selecting small not-so isolated islands to marry and honeymoon on the reefs. Most of the income of the country comes from the nickel exploitation and its first manufacturing, but the gains for the two provinces are irrelevant compared to the revenue obtained by the foreign exploiting companies.
Food is very French-oriented and one never gets tired of French bread cheese and wine, although we have to pay these commodities three times more expensive than in Europe. Sometimes it feels like being in southern France, 50 something years ago, with less jet set people and rich yachts. However, one needs only to look at the lagoon to wake up and remember this is not Cote d’Azur but a large French colonized island in the south Pacific!
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Comentários, Trackbacks:
Que lugar interessante, pena que e tão longe, mas valeu pela viagem virtual....
Será que vc pode me passar mais informações sobre o local, ou quem possa me passar?
Sobre a vida, o que se tem pra fazer lá, como é morar lá, o cotidiano... essas coisas e algumas outras curiosidades que eu tive sobre o local.
Abraços!
Augusto.
Depois de ter visto seu site fiquei muito interessado em conhecer essa ilha com todo esses charme Frances.
Carlos, não sei sobre a Vale lá. Mas, conhecendo o "trabalho" da empresa no Brasil, posso dizer q a filosofia deles passa longe do ecologicamente correto...
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