24.Junho.08
Por que a carne de cação é tão barata?
Os que me conhecem de outros carnavais (e acho que os que pouco me conhecem também) percebem que há tempos eu venho martelando aqui nesse blog sobre a questão da matança dos tubarões mundo a fora. O quanto esse grupo de animais é importante pro ecossistema marinho, o quanto vem sendo ameaçado, a ponto de pesquisadores pelo mundo e da própria ONU já terem declarado que os tubarões devem ser prioridade máxima de conservação no mundo atual.
Minha preocupação em disseminar tal informação (por demais esquecida pelas pessoas em geral) é tamanha que fiz questão de enfatizar isso logo no primeiro tópico do guia Malla de consumo de peixes:
"1) NUNCA compre cação. NUNCA coma cação, independente de onde você more. Tubarões ou cações são peixes ameaçadíssimos de extinção no mundo inteiro e ao comê-los, você incentiva o tenebroso comércio de barbatanas pra China. "
Há outros peixes bastante ameaçados também, como o atum, o bacalhau e o salmão. E para todos eles, o preço da carne é proporcional à sua raridade, com o bacalhau liderando o ranking dos mais ameaçados e, portanto, dos mais caros. Razoavelmente lógico, não? Mas então... por que o mesmo não acontece com o tubarão? Por que a carne de cação é das mais baratas vendidas do mercado?
Hoje, eu encontrei os seguintes preços no portal do CEAGESP:
- Polvo: R$14,00/kg
- Camarão rosa pequeno: R$12,00/kg
- Linguado: R$10,00/kg
- Salmão: R$14,00/kg
- Badejo: R$14,00/kg
- Salmão: R$23,00/kg
- Robalo: R$22,50/kg
- Atum: R$11,00/kg
- Pescada grande: R$5,00/kg
- Tilápia: R$2,50/kg
- Cação: R$4,50/kg
Sendo que no varejo o produto é vendido mais caro.
Há peixes mais baratos e sustentáveis, como a tilápia. Mas dentre aqueles extremamente ameaçados que estão à venda no mercado brasileiro, o cação é sem dúvida o mais barato de todos. Uma contradição que tentarei explicar aqui.
No Brasil, não é proibido pescar o tubarão e vender sua carne no mercado. É proibida pela portaria 121-N do IBAMA (link em pdf) a prática do "finning" - ou seja, matar um tubarão apenas para retirada das barbatanas, descartando a carcaça do animal no mar, onde o bicho tem pouquíssimas chances de sobrevivência sem a barbatana para auxiliar em seu deslocamento. E os barcos de pesca brasileiros não fazem isso. Nas palavras de um pesquisador, que lemos na reportagem da Folha de ontem:
"Hoje, a prática do "finning" em águas brasileiras praticamente não existe. Os barcos nacionais aproveitam 100% dos tubarões capturados e os estrangeiros têm observadores de bordo."
E será que por isso então é ok matar o animal? O número de tubarões perdidos por ano continua aumentando, o dano ao ecossistema continua o mesmo, com ou sem finning, independente da semântica da lei. A lei, nesse caso, é mero subterfúgio conivente a interesses financeiros maiores.
Todo pescador no mundo sabe que a barbatana é o bem mais cobiçado de um tubarão, por causa da demanda no mercado asiático. Quando um pescador pesca um tubarão, em geral a primeira ação que toma é separar a barbatana, ainda em alto-mar, e pôr para secar. E o resto do bicho vira subproduto - porque o principal já está garantido para o comprador chinês/taiuanês. Na maior parte do mundo, a carcaça vai pro mar. No Brasil, sobram nos congeladores dos barcos quilos e mais quilos de carne. Que são levadas ao continente para comércio.
Por uma razão cultural (?), os brasileiros consomem a carne do cação, que é um lucro "colateral" limpo para o pescador. O gerador de lucro mais controverso, a barbatana, já está longe há tempos quando você vê a carne de cação no mercado. O "finning", único e exclusivo, na definição simples da lei, realmente não existe no Brasil. Ele existe mascarado pela venda da carne de cação.
E é essa brecha da legislação do IBAMA que permite à indústria pesqueira nacional continuar dizimando tubarões - porque a carne é consumida. Barata, ainda por cima - quanta ironia... Para mudar essa situação em prol de um ecossistema marinho sustentável, a meu ver é fundamental que se proíba a pesca de tubarões, sua comercialização completa. Tornando essa atividade ilegal, pelo menos o IBAMA poderá coibir alguma parte desse comércio sob o amparo da lei. Seria melhor ainda se fosse possível elaborar um programa de pesca sustentável do tubarão, que acomodasse os pescadores artesanais, sua nutrição, cultura e a manutenção do ecossistema saudável; mas na atual conjuntura de quase-extinção de várias espécies de tubarões, isso soa infelizmente deveras utópico.
Deixo então, para reflexão de todos que porventura passem por aqui, duas imagens do "processamento" de um tubarão em alto-mar. As fotos foram tiradas a bordo de uma embarcação de pesca de bandeira brasileira em território brasileiro.


Pescador retira barbatana assim que o tubarão chega, no convés do navio. Em seguida, barbatanas secando ao sol.
Tudo pelos tubarões sempre.
**************************
- Ressalto aqui o fato de que os consumidores de carne de cação também não sabem que, além de toda essa questão ecológica, comer carne de animais de topo de cadeia alimentar, carnívoros, aumenta consideravelmente a quantidade de mercúrio no organismo da pessoa. Leia aqui as recomendações do FDA para consumo desses animais por mulheres grávidas e crianças.
- Publicado também no Faça a sua parte.
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Comentários, Trackbacks:
Vou disseminar a mensagem!
que absurdo isso! e porque ninguem avisou antes!?
bjs, Graziela
Para quem vive em uma cidade pesqueira (Cabo Frio, por exemplo), não é tão arriscado, mas eu nunca me atrevi a comer cação no Rio de Janeiro... Mais uma razão para evitar.
Mas - francamente, Lucia?... - eu não creio que boicotar a carne de cação vá resolver o problema... Não se parou de criar gado para corte, só porque os botões deixaram de ser feitos de chifres e ossos de boi...
Ernesto, vc não sabe o quanto me deixa feliz ouvir isso...
Lorena, dissemine à vontade!
Danilo, as ONGs vêm avisando há algum tempo já... e basta perguntar a qualquer pescador como anda o mar no Brasil inteiro. A única unanimidade que a gente ouve é q está cada vez mais difícil pescar.
Atila, a intoxicação por mercúrio alimentar é um problema ainda pouco estudado pela medicina - é mais estudado no caso de contaminação por garimpo. Um campo aberto a novas idéias.
Graziela, peixe é realmente uma carne saudável, exceto os de topo de cadeia alimentar, por causa da bioacumulação. Há peixes mais sustentáveis de serem consumidos, cuja pesca não prejudica tanto o ambiente e que são intermediários na cadeia alimentar. Ou peixes cultivados, como a tilápia e seus derivantes (St. Peter, por ex.).
João, acho q a comparação não compete nesse caso, pq não se cria cação... não há controle na reprodução do animal.
E se eu fosse vc, evitava cação de qqer origem, não só do Rio...
Beijos a todos.
E vou além: a felicidade
reside num pé de alface.
Go veggie or bust!
abraço.
Emilia, espalhe à vontade!
Iraldo, seu poeta! Nota 10.
Chris,
Beijso a todos.
acho q p´roibir a caça não é solução pois a muitos lugares pelo brasil q são infewstados de tubarões no caso de recife por exemplo, depende de como a pesca é distribuida por cada região, isso é o p´rincipal causador do desequilíbrio ambiental, precisa-se sim haver uma fiscalização sobre esse tipo de pesca e haver um controle por quantidade de cada região.
aprecio muito a carne de cação mas como poucas vezes (bem raramente na verdade) pois sei q quase todos são na verdade são tubarões e não cações. os tubarões estão lonje de desaparecer pois são mais antigos que os dinossauros e possuem mais de 70 milhões de anos de evolução, com certeza eles vão contornar esse problema, mas realmente t~em q haver um rigor maior de proteção para as espécies mais ameaçadas.
Não tinha a menor idéia disso.
Achava que esses peixes mais consumidos eram criados pra consumo.
Não como mais cação. Tenho dito!
Paulo Ricardo, cação e tubarão são a mesma coisa, biologicamente falando.
Camila, não dá pra criar cação em cativeiro para fins de alimentação. O animal precisa de muita área pra viver bem, o que torna inviável economicamente.
Karla, as barbatanas são usadas na Ásia, principalmente na China, Hong Kong, Taiwan e Coréia para fazer uma sopa, que tem gosto de caldo de galinha. As barbatanas em si não têm gosto de nada, elas apenas dão uma textura gelatinosa à sopa. Esta sopa é um símbolo de status entre os chineses, como o caviar entre a gente.
Abraços a todos.
Parabéns pelo blog!!
Esses dias fomos a peixaria... o prato era peixe ensopado... ai não sabíamos qual peixe q casava com o prato e pedimos sujestão ao vendedor... e ele veio com esse tal de "cação" minha nossa pensei q peixe é esse... levamos p casa e quando fui preparar o prato ficamos pensando... nossa como é parecido c tubarão...
Se eu tivesse lido a tua matéria antes jamais teria comprado!!!
Valew
Paula, obrigada! Fico feliz q tenha lido. Por favor, espalhe a mensagem de q cação é tubarão, e não deveria ser jamais comido...
Obrigada a vcs pela visita carinhosa.
Beijos.
Abraços!
GIORGIO LUIGI
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