21.Abril.08

O "escândalo" do Lonely Planet

"Viajar é, pela minha definição - e eu espero que pela sua também - uma experiência absolutamente feita para ser compartilhada. E se você for sortudo o suficiente para descobrir uma experiência e conseguir compartilhá-la com alguém que você considera na vida - uau, não dá para ser melhor que isso."
(Peter Greenberg, consagrado escritor de livros e guias de viagem, em entrevista ao Vagabonding.)

Eis que semana passada o mundo dos guias de viagem entrou em choque ao descobrir que um dos autores do guia Lonely Planet - Colômbia, Thomas Kohnstamm, revelou nunca ter visitado o país, e construído seu texto no guia na base de plágio e invencionices. Thomas afirmava que o grupo LP não o financiara para visitar o país, então ele recolheu as informações para o guia através de uma colombiana funcionária da embaixada que ele namorava na época, simples assim.

Desleal assim. Com a credibilidade balançada, o Lonely Planet obviamente retrucou em resposta oficial, explicando os detalhes da produção de Thomas para eles e as informações que poderiam estar comprometidas - como uma edição já esgotada do guia LP-Brasil. E obviamente, o Lonely Planet mandou Thomas rodar.

Em sua página pessoal (que ironicamente vende seu livro "Do travel writers go to hell?", um relato das suas aventuras com mulheres pelo Brasil), por sua vez, Thomas tenta contar a "história verdadeira" por trás de todo esse fuzuê, mas tudo que ele consegue é repetir o que todos já sabiam e se enrolar mais, admitindo ter aceito "favores sexuais" de uma garçonete em troca de uma revisão boa de seu restaurante num guia.

É claro, toda essa confusão abala o Lonely Planet e sua credibilidade tão suadamente conseguida. Inúmeros escritores de categoria de repente devem ser escrutinizados frivolamente, porque um loser resolveu mentir ao escrever um guia, gerando uma cascata de reavaliações desnecessárias em sua maioria. Gasto de tempo e dinheiro. Complexo, e eu entendo a revolta que muitos colaboradores do LP sentem nesse momento. (O Brave New Traveler, para variar, tem o melhor post da blogosfera de viagem gringa sobre o assunto.)

Entretanto, de certa forma, eu concordo com o Jeffrey White nesse post em que ele diz:

"Guidebooks are the CliffNotes of travel writing, nothing more than a hand-holding exercise. They're good for a few names and a few addresses, some initial info, and maybe even the surprising fun fact (but you better verify it). Beyond that, they're useless. They're often wrong, more often skewed, and they seek to rob you of the only thing you have as a traveler: your impression."

Eu conheço pessoas que se baseiam 100% num guia de viagens quando visitam um lugar - querem ter as mesmas experiências descritas ao pé da letra (e reclamam quando não têm). Uma coisa é você buscar nomes, endereços e afins - para isso, um guia de viagem atualizado funciona maravilhas, você não perde tempo procurando um restaurante que fechou as portas no ano passado. As tecnicalidades e atualidades físicas são a riqueza maior de um bom guia de viagem. Entretanto, me fixar num guia fielmente esperando ter as mesmas emoções ali descritas sobre um destino é de um vazio existencial para a minha pessoa impressionante. Simplesmente não consigo. O máximo que eu quero são relances de informação, que não comprometam a minha própria construção de sentimentos e opiniões sobre um lugar, que não formem um bias na minha cabeça e atuem como um obstáculo às experiências novas que surgirão. Eu simplesmente amo quando formo a minha opinião pessoal de um lugar pelo que vivi lá, e comparo com o que o guia diz e percebo que foi muito diferente do que o que estava escrito ali. E amo quando as pessoas escrevem sobre as percepções delas, compartilham experiências e mostram que há muito mais num destino que o que um guia puntual no tempo diz - nesse sentido, ainda bem que hoje temos milhares de blogs de viagem espalhados pela rede para acumularmos mais e mais opiniões sobre os 5 cantos do planeta. Afinal, guias de viagem indicam, acrescentam até, mas não garantem - ainda bem.

Em minha opinião, não se pode ler um guia de viagem esperando ter no destino escolhido as mesmas experiências que a pessoa que o escreveu porque o que está ali é isso: a vivência de uma só pessoa. O endeusamento de um livro como "neutro" feito apenas para guiar (não é um livro de regras...) é algo que não cai muito bem para mim. Mas eu acho que a indústria dos guias de viagem vai de encontro ao que o público padrão pede, e nesse caso, há uma parcela de culpa do comodismo geral das pessoas, que têm medo de se aventurar em lugares novos e querem ter 100% certeza de que nada sofrerão de imprevistos em seu passeio. Ironicamente, minha experiência é de que todas as viagens que fiz na vida tiveram algum imprevisto e eles são em muitos casos a parte mais divertida do ato de viajar, porque testam a nossa capacidade de se surpreender, de sentir, de amar um lugar.

Por isso, eu mais uma vez concordo com Jeffrey White, e espero imensamente que essa confusão do Lonely Planet sirva para que as pessoas abram os olhos para até que ponto elas devem confiar num guia e a partir de que ponto elas simplesmente devem deixar o lugar acontecer em suas vidas. Para que elas se desprendam mais durante uma viagem, andem um pouco sem rumo e de cabeça aberta. A experiência global provavelmente se enriquecerá dessa forma, passando de efêmera para indelével.

Tudo de bom sempre.

************

- Só para lembrar, amanhã é o Dia da Terra e tem postagem coletiva para ela, nossa casa.




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Comentários, Trackbacks:

Comentário de: João Carlos · http://chivononpo.blogspot.com
Lúcia, há dois tipos de "viajantes". Os que vão aos lugares e os que lêem sobre os lugares (que, por um motivo ou outro, nunca visitarão).

Os "viajantes físicos" usam essas referências de terceiros como "portulano". Os "viajantes vicários" (desculpe o anglicismo...) "viajam por procuração". E adoram "mentirinhas convincentes".

E isso não é de hoje; o Alemão Karl May encantou toda uma geração de europeus escrevendo épicos sobre os índios americanos e os legionários na áfrica, sem jamais ter saído da Alemanha...

Isso só comprova outra suspeita minha: os editores também são "pilotos de escrivaninha"...
PermalinkPermalink 21.04.08 @ 14:55


Comentário de: Lucia Malla Email
João, Machado de Assis tem várias referências estrangeiras em sua obra, e ele nunca saiu do Brasil.

Daí a gente imagina o grau das possibilidades criativas numa escrivaninha...

PermalinkPermalink 22.04.08 @ 08:57


Comentário de: Fabio Brito - PsychoPenguin · http://jeguiando.com
Eu fico impressionado o quanto as pessoas seguem a risca o que os guias e roteiros pré-definidos de agências indicam. Tomo de exemplo a viagem que fiz para Buenos Aires nesse último reveillon, onde optei por um pacote por causa do preço.

Em todo o grupo acho que apenas eu e Jana (minha esposa e co-autora do Jeguiando) não compramos os passeios pré-definidos.

Acredito que com isso vivenciamos bem mais a cultura portenha do que nossos outros colegas de pacote. Descobrimos a rua La Valle, que vende tudo que se acha na Florida com preços bem mais em conta, achamos alguns restaurantes e cafés em Palermo e Santelmo que não estavam nos roteiros oficiais e um magnifico album de fotografias com mais de 400 fotos. :)

Estamos planejando ir novamente, dessa vez pensando em documentar no Jeguiando e poder compartilhar a experiência com quem quiser ao menos uma referência, como já estamos fazendo com Curitiba, onde fomos nesse último feriado de Tiradentes.
PermalinkPermalink 25.04.08 @ 13:53


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