11.Março.08

Bizarrices da vida lamarckiana

Na mesma semana em que fico sabendo de uma jogada de tamanha desonestidade científica em uma universidade brasileira, sou convocada também a participar do primeiro blog carnival de Evolução, organizado pelo Atila - esse sim, um pequeno evento de seriedade.

A proposta do Atila é bem viajante (do jeito que eu gosto!), e dizia:


"Quando aprendemos sobre evolução, Lamarck é sempre retratado como o sujeito que errou ou "aquele cara das girafas". Quando propôs a teoria da Herança de Características Adquiridas, por mais errado que estivesse (não de todo, a biologia é a ciência das exceções), foi o primeiro a sugerir que a diferença entre os organismos deve ser gerada por leis naturais e não por força divina - nas palavras de Darwin. Por mais que tenha sugerido que os organismos mudam e se adaptam ao ambiente (e a maioria das pessoas pensa dessa forma intuitivamente), Lamarck morreu pobre e desconhecido e até hoje é tido como o cara antes de Charles Darwin que estava errado. Acho que ele merece mais reconhecimento, e como tal deixo a seguinte idéia para o Carnaval:

Como seria o ser humano atualmente se Lamarck estivesse certo? Se Lamarck estivesse certo (e ignorando como seriam todos os outros organismos), como seríamos nós, depois de todas essas gerações convivendo em sociedade? Que características adquiridas seriam passadas adiante?"

Sinceramente, eu tenho dificuldades em pensar um mundo onde Lamarck estivesse "correto". Imagine se a evolução da espécie humana fosse pautada pelo uso/desuso de Lamarck? Hoje teríamos pessoas com cabeças gigantes (para comportar tanta atividade cerebral), braços e pernas atrofiados pelo sedentarismo que a maioria se impõe, dedos maiores e afinados, olhos com péssima acuidade para a visão à distância (já que hoje a gente força mais a visão de perto: na TV e no computador). Seríamos verdadeiros ETs.

E eu me permito microviajar mais ainda. E se o mofo evoluísse lamarckisticamente? Hoje seria provavelmente impossível construir uma casa de tijolo sem mofo, já que o constante uso dele como substrato para a vida dos mofos pelas paredes seria reforçado a cada geração - e talvez os mofos "desaprendessem" a viver em outros substratos menos urbanos e se tornassem exclusivos das cidades. Será que teríamos algo como "mofojolo" à venda em algum ponto do futuro? E será que já viria em pacotes resistente a qualquer fungicida, tornando a vida dos alérgicos a mofo impossível na face da Terra e forçando o seu consequente desaparecimento?

São questões bizarras.

Pior de tudo: esse mundo onde Lamarck estava "certo" já existiu. Na Rússia, no período de Stálin, os geneticistas darwinianos foram enviados para campos de concentração, porque o regime comunista queria dar força ao agrônomo Lysenko, que era um lamarckista, ou seja, acreditava na evolução por características adquiridas que seriam passadas aos descendentes. Com isso, a evolução de Darwin foi declarada "errada" e as publicações científicas vindas da Rússia Stalinista eram obrigadas a se basear nas idéias lamarckistas. O resultado dessa lavagem cerebral russa às evidências científicas que só se acumulavam a favor de Darwin foi um atraso científico na biologia russa que até hoje tem consequências por lá, além de um embaraço encrustrado para a safra de novos cientistas daquele país.

Afinal, misturar ciência com política não é receita fácil, e facilmente pode descambar pro desastre de uma sociedade.

Tudo de bom sempre.

***************

* Mais viagens na maionese lamarckistas e girafólogas:

- Ao contrário do que está cristalizado erroneamente em praticamente todos os livros didáticos de ciência, Lamarck não comentou sobre as girafas enfaticamente como um exemplo que confirmava sua teoria de herança por uso e desuso. Falou do pescoço, aliás, apenas uma vez em toda sua obra, e não se ateve a esse exemplo para solidificar suas idéias. De onde veio então a famosa história da girafa lamarckiana? Não faço a mínima idéia.

- Não caia também na falácia de que girafas são "exemplos da necessidade de alternativas à evolução". O post supra-citado do Laelaps informa como a evolução darwiniana da girafa aconteceu - não está aberta a questões de ordem IDiótica. As teorias recentes, inclusive, já afirmam que o pescoço da girafa foi uma adaptação selecionada darwinianamente que "facilita comerem as folhas de cima da árvore", e vencerem na competição por território e fêmeas.

- Eu adoro o coração da girafa.

*Esse post faz parte do Carnaval da Evolução, organizado pelo blog do Atila. Para mais posts sobre esse tema bizarro, visite .

UPDATE: Vão lá ler o que o Hermê escreveu sobre o tema. Está puro rock'n roll!

UPDATE 2: Outros participantes do Carnaval da Evolução:

Ibrahim 1001 gatos
Carlos Hotta
Hermenauta
Atila
Hiroshi
Rafael
Mauro Rebelo
Shridhar
Luxcie in the sky with no diamonds
Osame




Posts similares:
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O fenômeno do "Sardine Run" na costa da África do Sul
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(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes. A autora do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)

Comentários, Trackbacks:

Comentário de: Marília · http://maroma.wordpress.com/
Viagens interessantíssimas!

Engraçado imaginar os humanos como ETs... e engraçado pensar que, as pessoas que criaram os estereótipos de ETs eram lamarckistas (cabeças grandes = seres evoluídos).
PermalinkPermalink 12.03.08 @ 00:28


Comentário de: Lucia Malla Email
Marília, acho q a ficção científica tem um pouco de "teoria maluca"... :P
PermalinkPermalink 13.03.08 @ 00:25


Comentário de: Rafael · http://rnam.blogspot.com
Olá Lúcia,
Venho informar que seu post foi citado na minha postagem do CArnaval da evolução.
Afinal carnaval de blog é como coração de girafa: sempre cabe mais um.
Até
PermalinkPermalink 15.03.08 @ 02:00


Comentário de: Shridhar · http://www.entropicando.com
Oi Lúcia! Texto interessante, hehe. Apesar de eu ser semi-lamarckista! Acho que os mecanismos epigenéticos são um mecanismo lamarckista de funcionamento. Lógico, não lamarckismo puro, mas não deixa de ser.

Eu escrevi faz um tempo atrás um texto sobre Lysenko.

Infelizmente não foi só uma fraude vergonhosa: a baboseira que ele fez causou crises gravíssimas de fome na USSR...

PermalinkPermalink 15.03.08 @ 11:44


Comentário de: Patola
Posso ser um pouco mala? Eu acho que essa abordagem sobre Lamarck está meio errada. Ele não foi o primeiro nem o único a propor essas leis de uso e desuso e transferência dos caracteres adquiridos - de fato, ele foi um popularizador (em termos) e não inventor da idéia.

A outra coisa é que mesmo Darwin foi um pouco lamarckista na Origem das Espécies, por não conhecer direito os mecanismos de herança genética.

Como Dawkins já apontou, o lamarckismo não é uma teoria completa. De fato, ele não explica a maior parte da evolução, que são as novidades evolutivas - como apareceu o primeiro olho, se não era "usado" antes? Como algumas coisas evoluem mudando de função, como as substâncias que dão origem aos torpedos do besouro bombardeiro? De fato, uso e desuso não explicaria quase nada na evolução. Imagine então coisas mais complicadas, como o porquê dos mamilos existirem nos machos.

Também não tem sentido dizer que teríamos cabeças enormes: no seu tempo de vida, "pensar mais" não faz a cabeça crescer, então cabeças infladas não seriam passadas como característica aos seus descendentes.
PermalinkPermalink 15.03.08 @ 16:57


Comentário de: Lucia Malla Email
Rafael, anotado e linkado! :)

Shridhar, muto bom seu texto sobre Lysenko, hem?

Patola, aqui todo mundo pode concordar, discordar e afins, contanto q seja educadamente, como vc o fez. Portanto, tranquilex.
Quanto ao comentário em si, eu concordo com boa parte dele (principalmente de que o lamarckismo não é "completo", por isso minha dificuldade em escrever ou mesmo imaginar um mundo em que Lamarck estivesse certo), mas discordo da parte do aumento do volume da cabeça. O maior uso do raciocínio durante a vida, ou o "acúmulo de informações" numa visão bem leiga da coisa, aumenta naturalmente o número de sinapses entre os neurônios - ao mesmo tempo que o desuso de certos "conhecimentos" poderia fazer certas sinapses desaparecerem. Partindo do princípio de que a idéia é "lamarckista", esse aumento de sinapses se traduz num aumento de massa cerebral (mínimo, mas ainda assim, aumento), e o aumento total seria o balanço entre uso e desuso daquela sinapse. Como o conhecimento geral é "cumulativo", esse balanço tende a ser positivo e tende então a aumentar o volume do cérebro - mínimo, mas ainda assim aumento. Ao longo de gerações, esse crescimento poderia se traduzir em um aumento do volume total da cabeça. É uma viagem, eu sei, principalmente porque o que vemos linhagem evolutiva darwinista dos primatas é uma diminuição da cabeça com um aumento da eficiência e compactação das sinapses no cérebro, que permitem o pensar. Mas no mundo lamarckista, acho q a idéia da cabeça grande até funcionaria bem. :)

Beijos a todos.
PermalinkPermalink 15.03.08 @ 17:32


Comentário de: Tad
hehehe, o defensor do criacionismo da mackenzie é apresentado como cientista, mas nem cadastrado no CNPq ele é.
PermalinkPermalink 15.03.08 @ 20:54


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