27.Maio.06

Gravidez e diabetes: qual o perigo?

Faço parte no Orkut da comunidade Diabetes Brasil, que é super-dinâmica, interessada e amiga. Os membros da comunidade participam, brigam entre si, gargalham, discutem, informam, se ajudam - e muito. Parece até uma família de 3000 membros. É sem dúvida a comunidade mais movimentada entre as que faço parte, toda hora tem uma "novidade" na pauta - e não são joguinhos sem sentido. E lá na comunidade, nesse burburinho de assuntos, um dos temas mais polêmicos que de vez em quando ressurge das cinzas (e sempre gera mais discussão) é a gravidez das diabéticas.

Não é para menos. Sendo a diabetes uma patologia crônica, que requer cuidados diários e constantes para a manutenção estável da glicose, é preocupante a princípio que uma mulher diabética engravide. Por vários motivos: as mudanças bioquímicas e fisiológicas no corpo da mulher durante a gravidez são enormes, os hormônios se alteram (a placenta produz muitos hormônios que perturbam os níveis de cortisol e insulina) e esses hormônios podem alterar a glicemia - e a glicose da mãe passa pela placenta pro bebê (mas a insulina materna não passa, é o próprio bebê que produz a insulina dele). E ninguém quer um bebê com taxas alteradas de glicose. Se a glicose do feto está alta, ele pode nascer com tamanho avantajado dificultando o parto, pode começar a produzir muita insulina para normalizar tanta glicose que está chegando até ele e iniciar um quadro de resistência insulínica - o que aumenta a predisposição do bebê no futuro a ser obeso e desenvolver diabetes tipo 2 - e pode desenvolver problemas respiratórios. Se a glicose da mãe está baixa demais (hipoglicemia), o bebê também fica hipoglicêmico, e isso pode afetar o desenvolvimento pleno da criança. Portanto, é fundamental para uma diabética que, ao engravidar, ela passe a ter controle rígido da taxa de glicose em seu organismo e siga um plano pré-natal regradíssimo, que inclui pelo menos um endocrinologista, um obstetra e um nutricionista acompanhando com frequência exames, resultados, dieta e tudo o mais.

É exatamente por causa da falta de controle que as complicações de gravidez apresentadas por muitas diabéticas acontecem. Durante a gravidez, é provável que a diabética tenha que usar mais insulina para manter a taxa de glicose normal, mas não pode usar tanto que gere hipoglicemia. Uma sintonia fina, difícil de calcular, porém fundamental para a boa saúde tanto da mãe quanto do bebê. Mas... e no início da gravidez, quando a mãe tem vontade de comer certas comidas, muitas vezes cheias de açúcar? É devido aos "desejos" no início da gravidez (no primeiro trimestre, principalmente, quando o feto está se desenvolvendo muito e crescendo pouco) que uma diabética deve ser acompanhada por uma nutricionista, que lhe indique alternativas eficientes. Por exemplo, uma das meninas diabéticas grávidas da comunidade do Orkut comentou uma vez que teve desejo de bolo de cenoura com cobertura de chocolate - ela simplesmente comprou todos os ingredientes diet, fez um bolo, comeu um pedaço, mediu a glicose, tomou insulina, e matou seu desejo sem prejudicar o bebê.

Quando a mulher é previamente diabética, o controle começa praticamente no momento da concepção, e permite que toda a gravidez seja acompanhada, cuidada e no fim, nasça uma criança sem problemas. Mas às vezes uma mulher saudável, não-diabética, pode desenvolver a diabetes durante a gravidez - a chamada diabetes gestacional.

A diabetes gestacional em geral aparece no segundo ou terceiro trimestre, quando o bebê já desenvolveu boa parte de seu organismo e está apenas crescendo e especializando seu sistema. Não se sabe até hoje o que inicia o processo, mas acredita-se que o excesso de progesterona possa aumentar a produção de insulina pela mãe e levar a resistência periférica (nos tecidos como músculos e adiposo) que a mãe apresenta. Cerca de 40% das mulheres que desenvolvem diabetes gestacional, se não controladas nem tratadas, podem morrer e/ou matar o feto, em consequência, por causa da hiperglicemia materna. Entretanto, um teste super-simples - uma curva de glicose - durante o segundo trimestre da gravidez pode salvar a vida tanto da mãe quanto da criança. Cerca de 5% das grávidas não-diabéticas prévias desenvolvem diabetes gestacional, e embora a taxa seja pequena, o índice de mortalidade quando não tratada é alto, razão pela qual o teste de glicose é um dos primeiros da lista do pré-natal.

O tratamento da diabetes gestacional é simples, mas deve ser seguido à risca: dieta equilibrada e exercícios físicos, na maioria dos casos. Se essa mudança comportamental não é suficiente para manter estável as taxas de glicose, então a mãe precisa tomar insulina. Embora a diabetes gestacional seja classificada como um tipo "especial" de diabetes (depois da gravidez, em geral ela desaparece), ela de certa forma se assemelha mais a diabetes tipo 2 (forte resistência periférica à insulina) que a tipo 1 (doença auto-imune que destrói as células beta do pâncreas). E a diabetes tipo 2, no início, é tratada com medicamentos orais. Entretanto, não se sabe os efeitos desses medicamentos orais no bebê, motivo pelo qual eles não são recomendados para as gestantes. Ainda.

Depois que o filho nasce, a mãe que teve diabetes gestacional deve continuar controlando a glicose, por pelo menos uns 2 meses - apenas por precaução. Se a glicemia volta aos níveis normais, ótimo. Se não volta, ela precisa continuar o tratamento, pois sua diabetes gestacional pode ter sido uma indicação do começo de uma diabetes tipo 2. É importantíssimo que a mãe mantenha o controle glicêmico, nesse caso, para evitar futuras complicações na saúde dela própria - e poder assim aproveitar plenamente todos os momentos impagáveis que a maternidade traz.

Mas o que eu realmente quero deixar claro aqui é o seguinte: o fato da mulher ter diabetes (previamente ou durante a gravidez) não a impede, em geral, de ter filhos, muito menos indica que seu filho será diabético também. Quando bem controlada, bem tratada, a diabetes não oferece perigo nem à mãe nem ao bebê, que nascerá saudável como todo bebê deveria ter o direito de nascer nesse "mundão sem fronteira".

Tudo de bom sempre.

******************

*Hoje é o dia Mundial de Luta Contra a Mortalidade Materna. A Denise organizou uma blogagem coletiva sobre o tema, e alguns blogs aceitaram o desafio - o tema é difícil de ser abordado e eu apenas toquei de leve no assunto. Portanto, aos que participaram um super-parabéns pelo desafio alcançado!!




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Comentários, Trackbacks:

Comentário de: clivia
Olá,eu gostaria de saber uma gravidez com diabete quais são os risco p/o bebê!Eu descobrir que o valor é 155 qual dieta que vc me indica p/ñ atingir o meu bebê!des de já te agradeço poderia me responder mais rapido que possivel!clívia
PermalinkPermalink 28.07.08 @ 20:02


Comentário de: Ana Cristina Casale Navegante
boa tarde!!
tenho 32 anos,e sou diabetica e descobri recentemente que estou gestante, tomei um susto danado pois qnd tve uma gravidez tubaria o medico disse q eu não iria mais engravidar fiquei 5 anos sem pevenir e realmente não engravidava, agora descubro ja com 3 meses estou morrendo de medo pq diz q tem q ter cuidados maiores nas 8 primeiras semanas qndo alguns orgãos do feto ta se formando, e nesse periodo tve alteração alta de glicose.
Recentemente passei por uma internação aq na minha cidades jau, e fui encaminhada p/ botucatu para fazer pré natal de alto risco la, de certa forma fiquei um poco mais tranquila,mas e esse tempo que não tomei os devidos cuidados?
se puder responder me deixara um pouco mais calma.

parabéns pelo trabalho é de muita importancia as futuras mamães gestante.
grande abraço
Cristina
PermalinkPermalink 23.11.08 @ 18:53


Comentário de: Lucia Malla Email
Pessoal, não sou médica. Vcs devem consultar o médico de vcs para obterem conselhos e os valores de índice glicêmico que são melhores pro caso de vcs.


PermalinkPermalink 23.11.08 @ 18:59


Comentário de: JUCIONE
SOU DIABETICA A 17 ANOS, ESTOU A 13 SEMANAS DE GESTAÇAO, GOSTARIA DE SABER + A RESPEITO DE ALIMENTAÇAO NO PERIODO DA MINNA GRAVIDEZ.*ME MANDE TUDO A RESPEITO DA GESTAÇAO DM1*GRATA.
PermalinkPermalink 01.12.08 @ 17:39


Comentário de: Mayra
Eu tenho uma diabete muito discontrolada, muitu alta e tambem tenho muitas hipoglicemia, nao sabia qua estava gravida e no meu serviço carreguei muito peso e as vezes ainda carrego, tenho medo de contar para as pessoas do trabalho que estou pq posso ser mandada em bora, pois estou no periodo de esperiencia e preciso muito desse dinheiro para criar meu filho, pois so o salario do pai nao da, estou com um mes e poco. Gostaria de saber se isso ja pode ou podera prejudicar minha gravadez e se sim, o que poderia fazer para reverter esse quadro,tem como??
Agradeco desde ja..
Muito obrigada mesmo!!
PermalinkPermalink 09.12.08 @ 23:50


Comentário de: Mayra
Discupa..mas como eu faco pra ler a resposta??
nao recebi ela por i-mail!!
obrigada .!
PermalinkPermalink 11.12.08 @ 23:00


Comentário de: Lucia Malla Email
Mayra, a resposta só seu médico pode dar, depois de avaliar uma série de parâmetros e exames. Eu não sou médica. Sou apenas uma curiosa/estudiosa de diabetes. Desculpa.
PermalinkPermalink 12.12.08 @ 09:05


Comentário de: Mayra
Magina,eu agradeco..
tudo de bom!!
PermalinkPermalink 14.12.08 @ 21:57


Comentário de: Elaine Trevelin
Tenho Diabete e estou gravida de 24 semana,se possivel me mande informações
PermalinkPermalink 05.05.09 @ 17:13


Comentário de: Lucia Malla Email
Elaine, por favor leia meus comentários acima.
PermalinkPermalink 05.05.09 @ 17:15


Comentário de: Angela soany
Sou diabetica, tenho 33 anos, estou gravida de 12 semanas, gostaria de saber quais os riscos que corremos principalmente o bebê? a minha glicemia chega no maximo de 177 a noite no decorrer do dia ocila, em jegum 80, antes do almoço 140 chegando a 177 a noite, esses valores são prejudiciais? quais os valores que devo manter?
PermalinkPermalink 10.11.09 @ 16:27


Comentário de: Lucia Malla Email
Angela, não sou médica. Vc deve consultar seu médico sobre esses valores. Posso te dizer, entretanto, q minha prima diabética teve neném semana passada. Foi uma gravidez difícil, mas hoje, tanto ela quanto bebê passam bem. :)

Boa sorte!
PermalinkPermalink 10.11.09 @ 17:47


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