31.Agosto.10
Um dia no Cinque Terre
No nosso penúltimo dia na Itália em abril/2009, estávamos hospedados em Gênova. Eu já havia lido, através da dica do Flavio, sobre o Parque Nacional de Cinque Terre, a cerca de uma hora de trem de Gênova. O local é um Patrimônio Histórico Cultural E Natural da Humanidade, e as fotos que eu vi pela web, como nos relatos da Luisa e do Jorge Gira me deixaram impressionada.
Então decidimos que passaríamos, nem que fosse um dia apenas, pelo Cinque Terre, para apreciar um pouco aquela maravilha. Como o próprio nome diz, o Cinque Terre é um conjunto de 5 cidadezinhas italianas encrustradas em penhascos à beira do Mar da Ligúria, no estado da Ligúria (duh!). As cidades são: Monterosso al Mare, Vernazza, Corniglia, Manarola e Riomaggiore. Há trens interconectando todas elas, mas o mais bacana é sem dúvida caminhar entre uma e outra, para se deliciar com a brisa do mar, com a paisagem espetacular e parar em todos os recantos possíveis para fotografar - todos os ângulos são lindos.
Como só tínhamos um dia - pecado mortal para o turismo naquela região, entenda-se - fomos de trem direto até Riomaggiore, a última cidade. ou seja, começamos do final. Isto porque a dica mais imperdível e consistente foi a da trilha entre Riomaggiore e Manarola, a chamada Via Dell'Amore. Com esse nome, é óbvio que eu também não queria perder. :)
E não há palavras para explicar a beleza e o romantismo dessa região. Quando chegamos em Riomaggiore, a vontade era ficar o dia todo ali. Aquelas casas coloridas todas penduradas no penhasco rochoso maravilhoso, o mar clarinho em frente, os barquinhos, o clima de pacatez... ah! uma delícia. (Na definição ótima do Jorge, são as favelas do passado - e sabe que ele não está errado?) Eu, claro, só fiquei pensando na engenharia para construir aquilo tudo ali, naquele terreno super-complicado e praticamente vertical. Haja saúde.

Uma visão das construções coloridas no morro em Riomaggiore.
Começamos a caminhada pela Via Dell'Amore. Ainda era de manhã cedo, mas a trilha já se entupia de gente, como minha amiga genovesa nos avisara. Esta primeira trilha é curtinha, super-tranquila, e leva-se cerca de 30 minutos (a passo de passeio) para chegar em Manarola, o segundo vilarejo do Cinque Terre.
Manarola é supostamente a cidade mais antiga do Cinque Terre, com uma igreja de 1338 - embora o Cinque Terre acredita-se tenha começado em torno do ano 1000. Os penhascos íngremes e dramáticos, um portinho. Manarola é primeiro uma imagem dentro do penhasco - quando cruzamos o túnel deste penhasco, entendemos que a cidade está virada para o outro lado. Lindinha também.

Uma das muitas praias que vemos da trilha. Olha a transparência da água!
A trilha que leva à Corniglia, próxima cidade do Cinque Terre, é mais longa e mais "selvagem" (o conceito de selvagem aqui é extremamente urbano), mais cheia de verde intenso, plantas que nunca vira antes e prainhas de pedra que me deram muita vontade de pular na água. Uma pena que eu não fui com meu biquini - aliás, se voltarmos ao Cinque Terre de novo, certamente queremos mergulhar lá, já que pela exposição que vimos no Aquário de Gênova, a fauna sub da região parece ser muito interessante.
Ajudou também a vontade de cair no mar o fato de já ser próximo do meio-dia quando lá chegamos - e o sol começava a castigar. O final da trilha para a Corniglia não é para fracos, e nos dá um pouco da dimensão do que é a vida nesses vilarejos verticais: uma escadaria gigantesca, que requer um bom fôlego para subir. Diferente das demais cidades ali, Corniglia é toda no topo do penhasco - que aqui é um verdadeiro paredão. Mas ainda cheia de charme.
Por causa do horário e do cansaço pelo sol + subidas, decidimos pegar o trem da Corniglia até Vernazza. Chegando em Vernazza... me apaixonei. Esta se tornou sem dúvida a minha favorita das cidades do Cinque Terre. De um charme irresistível, sem tráfego de carros algum, diversos restaurantes na pequena praia dentro da baíazinha protegida que se forma com os penhascos ao redor. Uma jóia. Em Vernazza, visitamos o Castelo Doria, que fica numa pequena península protetora da cidade. O Castelo foi construído no século XV e possui uma torre de onde se vigiava o movimento do mar: qualquer invasão pirata era logo percebida.
Mas estávamos com fome, e aproveitamos para almoçar ali em Vernazza. Naquele clima romântico, uma macarronada de molho pesto genovês, um vinho local e um sol lindo colorindo ainda mais aquela paisagem única e sensacional. Estávamos na Itália, num vilarejo dos mais pitorescos e lindos que já vi e queria respirar mais daquele lugar. A felicidade realmente existe.
Então decidimos (com aperto no coração...) que não visitaríamos a última cidade do Cinque Terre, Monterosso Al Mare. Já era tarde, e preferimos aproveitar mais de Vernazza, andar pelas ruelas, espiar um pouco as habitações, os habitantes e entender a dinâmica daquele povoado, da movimentação de sobe-e-desce, dos barquinhos de pesca, das visões dos telhados e varandas para o mar. Plantações de oliveiras, a cada passo uma sensação diferente, um mirante mais emocionante. Nos perdemos um pouco por ali, pra cima e pra baixo, e acho que estava difícil tirar o brilho dos olhos a cada nova curva que aparecia morro acima. Vernazza superou toda expectativa e é uma jóia muito rara mesmo.
Foi difícil dizer tchau. Mas este é sem dúvida um lugar que eu quero voltar na Itália: para mergulhar, curtir o mar, a fauna sub que não vimos, para fazer um passeio de barco e ver toda essa costa maravilhosa do mar. Para sentir de novo aquela brisa verticalizada, apreciar mais os penhascos sem fim e as macarronadas perfeitas. Curtir as cidadezinhas ao redor. Para amar.
Ah... a Itália...
Tudo de bom sempre.
29.Agosto.10
Divagações sobre turismo nublado
Hoje o dia amanheceu nublado aqui em Honolulu.
Da janela da minha casa, eu vejo o mar. Ele está lá, todo dia azul, convidando a um mergulho, a uma visita, a uma respirada salgada. O tempo aqui deste lado da ilha é em geral muito ensolarado o ano todo e raros são os dias em que não vemos o céu azul. E o mar azul.
Em dias como hoje, entretanto, o mar está cinzento, sem um pingo de charme, como falando: "fiquem longe de mim". Em dias assim, geralmente nos convencemos a ficar em casa ou, se queremos fazer algo divertido, vamos a museus.
Mas me dá uma dorzinha no coração quando nubla o tempo aqui em Honolulu. Porque eu fico só pensando no turista que guardou seu dinheirinho suado pra passar "3 dias no paraíso" (essa é a média da estadia por aqui, de acordo com a Secretaria de Turismo). O fulano veio passear, descansar, curtir uma praia e tem pouco tempo para tal. Aí - azar dos azares - pegou dias nublados justo nos dias que escolheu com trocentos meses de antecedência. Ele não sabe (e talvez seja melhor nem falar), mas perdeu o melhor do Havaí, que é justamente admirar (e curtir, pros que querem) as diferentes tonalidades e possibilidades do azul.
O Havaí é um estado outdoors em sua essência. O turismo aqui, por sua vez, reflete essa característica. Praia, surfe & variações, snorkel, mergulho, caminhadas, cachoeiras, churrascos, vistas magníficas do Pacífico. A diversão está fora de ambientes fechados, à beira-mar (ou nas montanhas vulcânicas). E, para boa parte dessas atividades funcionarem, um dia de sol é muito preferencial - para não dizer fundamental.
(É claro que há shopping, clubbing, turismo gastronômico, etc., coisas indoors. Dá para tapar buraco na agenda se tiver um dia feio. Mas o quente aqui é a praia - e suas variações.)
Enfim, tudo isso pra dizer que: se você veio aqui, pegou chuva torrencial ou céu nublado, praia sem graça, não viu um arco-íris sequer... saiba que esse não é o normal dessa ilha. Se dê mais uma chance e pense em voltar. Para curtir o Havaí com todas as opções naturais que ele oferece. E efetivamente ter seus dias "no paraíso". :)
Tudo de azul sempre.
PS.: Eu ia discursar um longo parágrafo sobre o quanto eu acho esse conceito de "paraíso" pessoal... mas, desisti. Porque é claro que os que me lêem sabem que todo lugar tem prós e contras. Todo lugar pode ser o "seu" paraíso, basta ter as características que você deseja. Entretanto, é assim que o Havaí é propagandeado pelas agências de turismo: o paraíso tropical americano. Por isso as aspas do texto.
28.Agosto.10
Os golfinhos d'A enseada - de novo
Há alguns meses eu postei uma resenha do filme "The Cove" ("A Enseada" em português) aqui no blog. Lá, eu comento um pouco sobre um pouco do meu incômodo com o modo como o filme aborda certas questões, incluindo aí alguns preconceitos que fomenta. Principalmente, como aumenta esse sentimento de culpa generalizado e nos deixa pouca brecha pra ações efetivamente equilibradas, pensadas, elaboradas em prol da conservação dos golfinhos.
Um tempo depois houve no blog do Riq uma longa discussão na caixa de comentários sobre golfinhos em cativeiro (e o filme foi citado), num post em que o Riq aparecia beijando uma golfinha no parque Discovery Cove de Orlando, e o Mauoscar também complementou sua opinião sobre a questão dos golfinhos em um post de uma visita ao Aquário de Baltimore (que eu ainda não conheço, by the way...)
Então que esta semana eu esbarrei num post do WaterNotes em que a Sarah expressa o mesmo incômodo que senti. No post dela, aparecem 2 vídeos criticando e analisando alguns dos dados expostos no "The Cove". Os vídeos são anônimos, feitos por um usuário chamado "sachemoV", que nos deixam com a pulga atrás da orelha - e eu gosto disso. Pode ser que o usuário seja alguém ligado à indústria de entretenimento de Aquários e Parques (apesar do disclaimer dele afirmar que não, mas... não ponho minha mão no fogo); pode ter sido feito por algum grupo japonês tentando melhorar a imagem do país depois do filme; pode ter sido feito por um simples curioso que, como eu, ficou incomodado com tanto maniqueísmo. Não interessa. Fato é: os vídeos estão aí expondo mais dados, e, mesmo que queiram expressar no fundo a visão parcial do outro lado, são um ingrediente a mais nessa receita apimentada que, a meu ver, ainda não cozinhou suficiente.
Aos interessados no tema "golfinhos em cativeiro", assistam e tirem suas próprias conclusões. Um aviso apenas: o vídeo é monótono, um pouco repetitivo e em inglês (2 partes de aproximadamente 10min cada).
Minha opinião geral: o filme continua a ter muitos méritos, é extremamente válido ao suscitar muitas das discussões e precisava ser feito - e para mim merecidamente ganhou o Oscar. Mas o filme também precisa ser assistido com olhos mais críticos pela maioria das pessoas, em especial as que se impressionaram demais e se questionaram de menos.
Tudo de exercício de ceticismo sempre.
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- Feliz aniversário, Papai! :)
27.Agosto.10
Sexta Sub: abstrato
Porque a gente encontra espaço para abstrações coloridas mesmo na mais rotineira e molhada realidade.
Tudo de bom sempre.
(Foto de um Thalossoma trilobata tirada num domingo nublado em Hanauma Bay.)
24.Agosto.10
Uma volta em Nova York - literalmente
Nosso plano da viagem de julho começou com um convite de casamento: meu ex-rommate e amigo adorado Chris ia se casar em Rhode Island. Como tanto eu quanto André estávamos precisando de férias de verdade - não essas viagens a trabalho que são mais corridas que maratona São Silvestre - decidimos prestigiar o casamento e esticar até o México para ver o tubarão-baleia (e esta terminou sendo a principal motivação da viagem, no final). Mas o fato é que tínhamos que passar primeiro pela costa leste americana.
André nunca fora em NY. Eu, brincando, disse para ele: "Como cidadão do mundo, você precisa conhecer a capital do mundo." E, como toda brincadeira tem sempre um fundo de verdade, é assim na realidade que eu vejo NY: é uma Cidade com C maiúsculo, que transcende os EUA. NY pertence ao mundo e se o mundo fosse viajantemente justo, devíamos todos passear por suas ruas pelo menos uma vez na vida para entender o que ela tem que a faz ser tão única. Porque não adianta tentar explicar aqui: só ouvindo as buzinas dos táxis amarelos, enlouquecendo na dinâmica das ruas enumeradas, andando pelo seu metrô sujo e histórico, vendo a imensa diversidade de pessoas, que você começa a entender NY. Começa só, e fique feliz com isso, porque NY é uma Cidade que nunca termina, tamanho dinamismo numa ilha só.
Mas tergiverso. Fato é que quando decidimos dar uma passadinha rápida por NY pro André sentir um pouco a vibe da cidade, rapidamente me veio na cabeça a oportunidade de: 1) Fazer o passeio que me pareceu o mais bacana já lido num fórum, a volta pela ilha de Manhattan - e para uma islomaniac como eu, ver todos os lados da mais famosa ilha do mundo seria imperdível; 2) Conhecer ao vivo e a cores amigos blogueiros que compartilham comigo tantas conversas online, e com quem tenho tantas afinidades.
Então marcamos. O passeio de barco que dá a volta pela ilha sai do píer 42, no lado oeste da ilha. Segui a dica do Riq, e fiz a reserva para o último horário, pra pegar o sol do entardecer - valeu muitíssimo a pena.
Problema: antes de chegar no píer, decidimos dar uma passadinha na B&H, a melhor loja de equipamentos fotográficos do planeta. Era só uma passadinha, mas toda a experiência de andar por aquela loja paraíso dos fotógrafos nos fez ficar mais de 1 hora ali, contemplando e nos maravilhando. Inúmeras possibilidades de compra, se o cartão de crédito deixasse. :D
Saindo da B&H, fomos à pé até o píer 42. Já na fila, encontramos a Marcie e a dupla Mau e Oscar - pronto, nossa mini-ConVnVenção viajante ia começar em NY - e em grande estilo. Subimos no barco.
Conhecer pessoas da internet com quem você conversa praticamente todo dia no twitter é uma coisa engraçada. Já temos uma certa intimidade online, então a coisa offline só se expande, vira conversa na cozinha de casa, tomando café e comendo broa de milho. A Marcie é PhD em NY, coloca um monte de dicas bacanas da Cidade em seu blog, e deu muitas risadas quando eu, no auge do meu desconhecimento pleno da Cidade, confundi as Nações Unidas com o Guggenheim - é, eu viajo na maionese mesmo. Enquanto fofocávamos e tricotávamos sobre viagens e afins, André sorrateiramente foi fotografando o passeio.
Que é lindo mesmo, não dá para explicar - tento em vão mostrando as fotos neste post, mas, como quase tudo em NY, você precisa estar lá pra entender.
Saímos pelo rio Hudson, o que por si só já é uma delícia - ventinho no rosto num barco em pleno verão é sempre bom. O barco leva mais de 2 horas num passeio que passa por todos os marcos da Cidade à beira d'água: pontes, arranha-céus, a tal Estátua.
Vemos o Distrito Financeiro e sua Wall Street, coração da economia do mundo. Passamos por Queens, Brooklyn, um pedaço do Bronx. Aprendemos que as construções mais altas em Manhattan estão condensadas em 2 áreas principais, nas pontas - no centro da ilha, o solo não permite que grandes arranha-céus se sustentem (embora "grandes arranha-céus" aqui tenham uma conotação completamente diferente que no resto do mundo não-verticalizado).
Aprendemos também que Manhattan é circundada pelo rio Hudson e pelo estuário do Leste - não é um rio, embora pareça e assim seja chamado (o East River).
E há bizarrices pelo passeio. Inúmeros faróis, que antigamente marcavam o caminho para a entrada naquele emaranhado fluvial, e que hoje são apenas pontos pitorescos - a Cidade os engoliu.
Um deles fica em cima de um prédio - devia ser dos mais iluminados no longínquo tempo em que o caminho precisava ser iluminado para se chegar na Cidade.
E há detalhes. Inúmeros, a cada janelinha que nos espia. NY tem várias histórias a cada andar (e você tem que ser muito maluco para querer ouvir e digerir todas. Contente-se: não dá, simples assim.).
Vimos também de onde vem a energia da Cidade - literalmente. Uma das termelétricas que mantém viva NY está ali, jogando poluição no ar.
Próximo a ela, o prédio do Citigroup, cuja idéia inicial era que fosse 100% eficiente de energia, via um gigantesco painel solar no teto - a idéia micou pelas metades da construção. Sinto uma certa ironia vendo termelétrica antiga e engenheiração da energia tão próximos um do outro. Tomara que a termelétrica vire um dia um Centro Cultural ou algo que o valha. Tomara que os arranha-céus da cidade um dia funcionem à base de painéis solares de verdade.
Ao fundo da ilha de Manhattan, outra surpresa: um paredão verde. Uma encosta de vegetação estuarina, preservada (?). Para quem acha que verde em NY é só no Central Park, vale conhecer o backstage da Cidade, cujo verde é bem mais intenso e denso.
O passeio termina de volta ao píer 42, em frente da Embaixada Chinesa - e prova-se aos iludidos pela urbanidade que sim, Manhattan é uma ilha e você pode dar a volta completa por ela.
Mais: a cada ângulo, a Cidade nos revela uma nova faceta. NY é uma ilha cercada de infinidades por todos os lados. NY não termina nunca, mesmo.
Tudo de bom sempre.
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- Milhões de agradecimentos à Marcie, ao Mau e ao Oscar pela companhia neste passeio delicioso e imperdível para qualquer um que visite NY!
- Os posts definitivos sobre este passeio, com dicas, preços e informações mais detalhadas e menos maionesísticas, você encontra no blog do Mauoscar e no blog do Riq.







































