Moi

22.05.08

posted by Simone Iwasso | 02:05 | 11 Comentários | #Link

Pensamentos de feriado

01.05.08

* Quando era adolescente, em dias vazios sentia tédio. Hoje sinto outra coisa, menos incômoda e mais latejante, mas ainda não sei como chama.

* O pneu do carro furou de noite e na chuva. Foi o moço do cachorro-quente que, ao me ver desolada olhando pra ele no chão, se ofereceu pra trocar. Quis pagar, ele recusou.

* Num prefácio, o autor dizia que aquele era um livro pra se ler deitado na cama, com preguiça e uma imensidão de tempo. Queria que um dia escrevessem isso sobre mim.

posted by Simone Iwasso | 11:05 | 12 Comentários | #Link

Das conversas que o dia permite

23.03.08

Foi num dia qualquer desses que ele falou que tinha um carinho especial pelo Sputnik. Piscou no email, nem prestei atenção no título e fui direto pra mensagem: "bizarrices da minha vida...descobri que eu tenho um carinho pelo satélite Sputnik!". Estava em letras azuis, ele escreve em letras azuis - sempre reparo, mas nunca me lembro de perguntar porquê. Respondi rápido, como sempre. "Eu também. Você não sabia que somos todos um satélite girando em órbita por aí?". Gosto da imagem, que não é minha (Minha querida Sputnik, do Murakami). Só queria que ele entendesse que não é o único. E que isso é bom.


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Dele, fazia tempo que não chegavam notícias. Pelo MSN, acho que para os amigos acompanharem, fica só a cidade ou país da semana - espécie de cartão postal atual, vai ver. Tantos lugares, alguns onde eu ainda nem pensei em conhecer. Quando apareceu a janelinha, tinha uma pergunta sobre uma foto. Nela, ele parecia diferente, outra pessoa. Ele dizia que as fotos simples, tiradas no susto, sem retoques, enganavam. E eu disse que o contrário: elas são as mais sinceras. Nos revelam pros outros e pra gente mesmo. No fim, chegamos à conclusão de que os fotógrafos são uns manipuladores do olhar. E que a foto pertence mesmo a quem tira, não a quem nela saiu.


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Ela disse que tinha escrito para dizer que estava com saudades. Que, parando pra pensar, era estranho morar na mesma cidade, ter o telefone quase na cabeça, viver dentro do carro, mas precisar escrever pra dizer que queremos nos ver. Lembrava as cartinhas que trocava quando era pré-adolescente com pessoas de outros lugares - nunca com os melhores amigos. Lembrou do que diziam antes, época dos avós, dos pais até, sobre a vida adulta: você se acumula de obrigações, faz sua família ou não, trabalha, e tem menos contato e tempo pros outros. Nós continuamos sem tempo, mas contatos temos. Vontades de estar perto também. É, a tecnologia ajuda sim. É mentira que afasta.

posted by Simone Iwasso | 11:03 | 3 Comentários | #Link

Dias enfileirados que formam o calendário

01.03.08

Um dia comentaram comigo que quando eu colocava alguma coisa na cabeça, nada me fazia tirar. Era como um trator atrás dos meus objetivos. Não sei se a impressão que passo é essa - não me sinto assim na maioria das vezes. Mas nestes dias, de repouso forçado em casa, me lembrei disso. Começou com um enjôo forte, insurportável até, e terminou na endoscopia e no diagnóstico de uma gastrite - um dos males de boa parte das pessoas que conheço. Acabei ficando em casa comendo batatas cozidas e bananas e bolachas água e sal, tentando repensar o que andava acontecendo comigo pro corpo gritar desse jeito, não que não gritasse antes, nas crises infernais de enxaqueca. Mas dessa vez não foi crônico, mas agudo. O lance é que percebi: pela primeira vez em algum tempo ando sentindo medo, um medo da vida mesmo, de tudo o que está por vir. Talvez justamente porque me propus a fazer tantas coisas esse ano, a encarar um mestrado em outra cidade, a entrar em novas áreas, a correr mais do que o normal, a também projetar algumas expectativas, de repente me vi assustada. E a percepção veio ao ler o Mike falando dos seus 28 anos - exatamente a minha mesma idade. A liberdade com que ele fala de tudo o que deseja e quer, a disposição de espírito de estar aberto ao que for, disposto e cheio de energia, fez cair minha ficha, foi como um cutucão. Me lembrou desse estado, no qual não nos sentimos um pontinho isolado e perdido navegando pelo mundo, mas um pontinho brilhante e receptivo, pronto pra encontrar novas conexões, fazer sinapses, se juntar a outros pontos, se expandir. Não que essa sensação de medo tenha desaparecido totalmente, ela ainda existe - mas agora tem outra força contrária, que espero crescente, pra incrementar esse sambinha pessoal - e o momento egotrip de sábado à noite.

posted by Simone Iwasso | 09:03 | 11 Comentários | #Link

Cotidiano

24.05.07

Uma xícara de café bem forte, um cachecol pra esquentar o pescoço e a rua, com mulheres que esperam nas esquinas, ônibus que ultrapassam carros e motos que não param pro casal que fez sinal pro táxi. O sol não apareceu e ainda não teve chuva pra lavar a poeira do asfalto. Na redação, o barulho ritmado dos teclados, o grito do telefone. Lá fora, a confusão de quem não sabe porque está brigando, o cruzamento de informações. E o tradicional papel de testemunha, que precisa entender, por você e pelos outros. Na agenda, lançamento, show, encontro com alguém que está de passagem. O dia está acumulado. Milhões de formiguinhas que andam se trombando, mais perdendo do que se encontrando. Tem momentos em que é preciso dizer Não. Falar bem forte, mesmo que seja pra dentro. É bom pra ter convicção. Só sei que tá na hora de fazer um pausa pra mais um café.

posted by Simone Iwasso | 12:05 | 7 Comentários | #Link

In my solitude

19.05.07

Preciso do vento fazendo curvas pra ouvir,
Mas quando olho pra fora, são só sacos de papel tropeçando na calçada,
No vidro espelhado, reflito a vítima do meu próprio eco,
Um personagem contemporâneo de um enredo ordinário.

posted by Simone Iwasso | 02:05 | 7 Comentários | #Link

Meio fútil, mas eu também mereço

12.04.07

Não sei se na vida de todo mundo é assim, mas na minha, e talvez na de parte de outras mulheres, tudo de errado ou exagerado que fazemos começa com um "eu mereço!" Não falha. Quer repetir a sobremesa? Antes da culpa calórica aparece a frase - só tomei um iogurte no café, almocei salada, ontem comi pouco, eu mereço! O cartão de crédito tá quase estourando, ainda faltam duas semanas pro pagamento e aquele vestido novo parece perfeito pro seu guarda-roupa? Ah, eu pago minhas contas sozinha, ganho meu próprio dinheiro, eu mereço! E assim você sai com uma sacola nas mãos. Precisa acordar cedo no dia seguinte porque seu médico só tem horário às 8h e o telefone toca com alguém te chamando pra sair? Sem dúvida - eu trabalho muito, tenho responsabilidades demais, preciso aproveitar a vida, eu mereço! - e você já entra no chuveiro e liga o rádio para começar a se empolgar com a noite. Uma cerveja a mais? Claro que eu mereço, já me controlo o suficiente, paro no farol vermelho, ajudo velhinha a atravessar a rua, e está tão calor. O despertador insiste em tocar e seu maior prazer naquele momento é dormir mais alguns minuto? A justificativa pode vir até dentro do sonho - hoje tenho tanta coisa pra resolver, vou dormir tarde, eu mereço! E assim a vida vai ficando mais leve, porque vamos merecendo tudo o que queremos. É verdade que nem sempre a fórmula funciona tão bem, porque às vezes merecemos também o que nem imaginávamos querer -mas ai já é uma outra história

posted by Simone Iwasso | 10:04 | 7 Comentários | #Link

Esperando Godot

17.03.07

Eu podia ter passado rímel e batom, trocado de vestido, bebido o resto do vinho, tomado um táxi, acendido um cigarro, furado a fila, entrado com você e deixado o resto pra trás; ou quem sabe seria melhor ter esquecido, me jogado na pista, cantado bem alto, gritado em coro e te beijado em público; dava também pra ter batido a porta, desligado o telefone, tomado um banho, ligado a televisão, chorado sozinha e, por fim, dormido inocente. Era possível, ainda, ter rasgado o script, levado uma folha e branco e preenchido, hora a hora, com o acaso que aparecesse de qualquer direção...

Acontece que a maquiagem borrou, o roteiro tá improvisado demais, a direção nem é minha, o cenário ficou muito quente e não gostei do figurino. Nenhum dos atores em cena agrada, e meus protagonistas estão em outras estréias. Sem palco, nem camarim, muito menos espelho. Minha voz tá rouca. Hoje não subo ao palco, nem encaro platéia. A peça pode acontecer, mas um dos papéis foi cancelado.

Quando se mistura drama com comédia, fica arriscado desacelerar, mas não tem outro jeito. É difícil sustentar a ironia e manter a criatividade. Essa noite, meu teatro do absurdo vai estar fora de cartaz.

posted by Simone Iwasso | 11:03 | 9 Comentários | #Link

Alta noite

23.12.06

Sonhei que morria. E, ao morrer, sonhei que ainda existia. Enquanto existisse, sairia por aí voando, para qualquer lugar. Ainda assim, fui obrigada a voar sozinha, ou então cairia. Não caí, mas algo me puxou. Acordei dentro de um útero, prester a nascer. Só me lembro que, na hora, preferi fechar os olhos.

posted by Simone Iwasso | 04:12 | 2 Comentários | #Link

Faxina

Fiz limpeza de ano-novo no meu pequeno coração. Água, sabão, detergente, esparadrapo e álcool em gel. Perdi a conta das horas, mas encontrei de tudo ali guardado. Fui puxando um por um e tirando o pó do que estava por baixo. Descobri curativos sob feridas já cicatrizadas. Em outros machucados, só deu pra fazer um remendo. Das grandes fissuras, estanquei o sangue, provisoriamente. Mas os ralados tinham formado casquinha e de uns hematomas mal encontrei vestígio. Amores vencidos, mágoas antigas, insistências cegas, dores que perderam o sentido, esquecidos que passaram, esperanças desesperançadas foram para a lata de lixo. Eternos amores, amigos inteiros, lembranças vivas, momentos doces, novas aquisições e pessoas sempre queridas foram reorganizadas e, por enquanto, ganharam mais espaço. Sempre haverá novas entradas, ainda bem. Mas, pelo menos por hoje, sinto que carrego um coração mais leve.

posted by Simone Iwasso | 03:12 | 6 Comentários | #Link

Para sorrir mais fácil

02.11.06

Cheiro de chuva; bolinho de arroz; beijo na nuca; salto alto; sombra de árvore na praia; livro novo; janelas grandes; foto em preto e branco; gato dormindo; brigadeiro de colher; corte de cabelo; cinema vazio; abraço que não acaba; mesa de bar; lead bem feito; não ter hora pra despertar; roupa nova; amigos sinceros; brisa em dia quente; outro sorriso.

posted by Simone Iwasso | 10:11 | 1 Comentário | #Link

Buraco da fechadura

15.10.06

Beijo e provo o gosto dos outros. Olho para os lados, topo com o cotidiano. Leio e me ocupo de pensamentos alheios. Busco no rádio um ritmo distinto. Tateio a pele para despertar sentidos. Na bagunça do quarto, na pilha de livros, nas chamadas do telefone, entre abraços, pelas fotos do mural, nas horas do trabalho, por trás da fumaça que passa pelo computador, tudo está para ser feito e falta tempo. A cabeça gira, o relógio acelera e o sono chama. Pílulas aliviam as sensações. O corpo pede cuidado e repouso. O apartamento vira o mundo, e ainda assim temo perder o caminho de volta.

Mas a estação mudou há dias e já é primavera.

Hora de desabrochar.

posted by Simone Iwasso | 02:10 | 2 Comentários | #Link


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