Pra mim, o Peru é colorido - ou foi cheio de cor. As roupas têm listras, figuras, desenhos, relevos. O céu tem tons. A comida tem tantos gostos e cheiros, que também parece colorida (e de tão variada e diferente fez com que até eu, na minha caipirice, me rendesse às pimentas e aos frutos do mar). O Peru também é pobre, também é indígena, também falta infra-estrutura e também tem, como nós, uma forte desigualdade social e um sentimento classista que chega a ser repugnante - me contaram que, nos balneários caros próximos à Lima, as funcionárias só podem ir para a praia em certos horários, para não se misturarem aos hóspedes...
As ruínas incas, que estão até mesmo no meio da cidade de Lima, são uma atração especial. Blocos enormes de pedra, muitas vulcânicas, permanecem encaixados há séculos, sobrevivendo à tempestades, terremotos, colonização espanhola e turistas afoitos. Acredita-se que, conhecendo muito bem a estrutura de uma pedra, os incas conseguiam, usando outros instrumentos feitos também de pedras, talhar, cortar e polir esses blocos. Há vestígios de templos, de casas, de mesas de sacrifício, de galpões para armazenar comida. E, claro, há o grande ícone delas, a cidade perdida de Machu Picchu - sobre ela, não tem nada que possa ser mais dito, é preciso ver mesmo.
Cuzco é uma festa - é uma gringolândia, é fato. Restaurantes perto da praça central, enorme e linda à noite toda iluminada, aceitam dólares e euro, crianças pedem dinheiro por toda parte e você pode ouvir idiomas reconhecíveis e irreconhecíveis. As lojas vendem artesanatos caros e exploram mesmo seu potencial turístico. Mesmo assim, mesmo assim, vale a pena. Mesmo assim é encantador. Dá vontade de ficar por ali, observando, caminhando, conversando com quem aparecer pela frente.
E Lima, por fim, é semelhante em muitas coisas a cidades como São Paulo. Trânsito caótico, desigualdade social, Miraflores e suas ruas arborizadas e agradáveis, o centro meio abandonado e meio recuperado, os bairros da periferia onde a classe média morre de medo de colocar os pés. Ah, mas tem mar. E tem um mar cinza, pouco claro, gelado como mares do Pacífico costumam ser. Só que deixa o ar úmido, com uma névoa própria, peculiar, que acaba arrastando a gente.
Também de lá tem fotos aqui.
Ao pisar en La Paz, essa capital esquecida de um país tumultuado, há três primeiras impressões inevitáveis: ela é fria, alta e barata. É mais difícil respirar, é mais cansativo caminhar e é mais barato viver - quer dizer, para nós, que chegamos de fora. A quarta impressão é que você está, literalmente, dentro de um buraco - a cidade, que já foi parte do império inca, foi construída dentro de uma cavidade geográfica natural, uma maneira de se proteger de ataques inimigos. O centro está bem na parte mais baixa desse buraco, e conforme vai escasseando o dinheiro, as famílias vão se abrigando nas partes mais altas. Buscar o horizonte em La Paz é encarar casas sem reboco montanha acima.
A quinta impressão te deixa perdido no tempo - cadê a tal globalização? para o bem e para o mal? É uma capital, de um país vizinho ao seu, que não ostenta grandes redes de lojas, produtos e serviços. É uma economia local, de pequenas lojas, de comércio familiar, que mantém a cidade. São as choclas (as índias aymará e incas) que vendem jornais, chicletes, resfrigerantes e chocolates nas esquinas. São seus filhos que pedem dinheiro ou tentam te vender artesanatos. É a folha de coca que dá alento, histórico já, para que eles caminhem e sobrevivam - ao frio, à altura e à pobreza.
Mas daí, no meio disso tudo, tem um funcionário da prefeitura vestido de zebra coordenando o trânsito, que funciona sem divisão de pistas nas avenidas. Tem um restaurante simpático, conduzido por um francês casado com uma boliviana, que serve carnes nobres e onde, pela primeira vez, eu experimentei ratatouille - antes do filminho eu nem sabia que isso existia - e descobri que é bem gostoso. Tem também bares onde pessoas jovens, politizadas ou não, orgulhosas ou não, saem para dançar durante os dias da semana. Não tem McDonald´s, a Inka Cola, peruana, é mais popular que a Coca-Cola e há protestos nas ruas praticamente todos os dias; pacíficos, aglomeram estudantes, indígenas e profissionais sindicalizados.
No inverno, o ar é muito seco - e quem não está acostumado, sofre. O nariz arde, sangra, você quer tomar um banho a cada meia hora só pra aproveitar aquela nuvem úmida do chuveiro. As pessoas são baixas - eu, com meu 1,60m, tão baixinha por aqui, por lá sou do tamanho das mais altas. É difícil sintetizar o que uma capital assim provoca, ou melhor, o que uma capital assim é de verdade. Para o olhar estrangeiro, é uma transição, um caminho no tempo para um futuro indefinido; só eles podem saber o quantão conseguirão unir a tradição indígena com as exigências do mundo moderno.
Tem imagens, para ilustrar, ou contradizer tudo o que escrevi aqui.
Desperdício dizer dos locais que fui, que todo mundo que viaja vai - e acaba por fim reconhecendo depois, mesmo que com um olhar diferente. Também sei que é super chato ficar dando opiniões sobre as diferenças entre os mundos, as leis, os comportamentos. O que importa, no fundo, é o que fica para cada um. E o que se consegue trazer de volta - é isso o que não se perde jamais.
Enfim, nos dias fora, entre outras coisas, mais ou menos óbvias, eu vi:
- Borboletas saindo do casulo no meio de uma trilha nas montanhas. As pessoas paravam para olhar, surpresas até entenderem o que era aquele bater de asas coloridas, desviavam respeitosamente do caminho e seguiam em frente - algumas virando ainda o olhar para ver um pouco mais. Eu fui uma dessas.
- Um jovem pedindo esmola em frente aos grandes bancos de um dos principais centros financeiros do mundo. Nos quinze minutos que fiquei observando, foi um entra e sai de homens engravatados, mulheres elegantes e turistas equipados. Ninguém reparou nele. Nem ninguém deixou uma moeda.
- Uma professora russa recitando Fernando Pessoa com um sotaque praticamente igual ao de uma portuguesa. Perguntei se ela conhecia algum poeta brasileiro. Ela soube citar Manoel Bandeira, mas não tinha os versos na memória.
- Mulheres perdendo a compostura em meio a uma liquidação total, em todas as lojas, de todos os preços. Consumo pelo jeito acaba sendo igual em qualquer parte do mundo - e a loucura das mulheres por roupas idem.
-Dei duas voltas sem parar na roda gigante. E me perdi vendo a cidade do alto.
- Um casal do mesmo país, mas cada um com uma língua materna, que se entedia num terceiro idioma. Uma festa de aniversário de um alemão, casado com uma mexicana, onde os convidados eram de várias partes do mundo, inclusive do Brasil. E todo mundo se comunicava em inglês.
Vi também carros pararem para pedestres atravessarem as ruas, casais fazerem piquenique nos parques e pontes, além de tantos prédios, edifícios e ruas cheias de histórias. Vi amigos, fiz amigos, reconheci conhecidos. Sentei em cafés, conversei comigo mesma e, por fim, acabei de volta aqui.
Nao tenho os acentos, o Z esta fora do lugar, mas a tecnologia e isso e escrevo de um locutorio suico - nao sei o nome que isso tem aqui, onde estou, na parte alema do pais. Uma mistura de trabalho e ferias me tornaram uma turista na Europa por pouco mais de duas semanas. Ate la, tento aparecer por aqui, sempre que possivel. Grata pela compreensao.




