O romance mais recente de um dos principais escritores japoneses contemporâneos, Haruki Murakami, 60, se tornou um sucesso de vendas no Japão antes mesmo de chegar às livrarias nesta sexta-feira. Milhares de exemplares de "1Q84", que pode ser lido como "1984" em japonês, foram reservados pelos fãs de Murakami, que não lançava um livro em seu país há cinco anos. O lançamento da obra, vendida em dois volumes, não teve campanha de promoção para manter o teor do livro em sigilo, ao contrário do que aconteceu em 2002 com "Kafka à Beira-Mar". A decisão foi da editora Shinchosha, que recebeu queixas de leitores que já conheciam a história de "Kafka" antes de ler a obra. A editora prevê uma tiragem integral de 580.000 exemplares. Vi agora na Folha Online.
Qualquer caminho leva a toda parte,
Qualquer caminho
Em qualquer ponto seu em
dois se parte
E um leva aonde indica a estrada
Outro é sozinho.
(Fernando Pessoa)
Sábias agudezas... refinamentos...não!
Nada disso encontrarás aqui.
Um poema não é para te distraíres
como com essas imagens mutantes de caleidoscópios.
Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe
Um poema não é também quando paras no fim,
porque um verdadeiro poema continua sempre...
Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras.
Muchas veces al borde de hallar la receta de la inmortalidad me distrajo la presencia espantosa de la muerte. Pocos conocen y menos reconocen la eficacioa de la cura que pasaré a explicar. Pero es quizá la única receta que jamás decepciona. He querido llamarla la cura del rostro, porque no hay quien no tenga en la memoria un grupo no muy grande de caras que a su vista producen alegría.
El rito del sosiego es el siguiente. Dos sillas y una mesa, un paté de hígado de ave, tostadas de pan fresco y trigo íntegro, una botella helada de vino de sauternes y frente a ti la cara del amigo, de la amiga, el rostro que conoces, uno de esos que con solo verlos nos devuelven la calma.
El paté, a los amigos, les recuerda que son carne. El pan no los deja olvidar que todo nace de la tierra y todo a ella vuelve. El espíritu del vino de sauternes aviva lo que más nos hace vivos: la posibilidad de unir dos pensamientos."
O trecho é de um livro de bolso chamado Tratado de Culinaria para Mujeres Tristes, do escritor colombiano Hector Abad Faciolince. Como ele diz na contracapa: "Si los escritores son unos mentirosos que dicen la verdad, el título de este libro cumple con su cometido: no es un tratado, no es de culinaria y, más que para mujeres tristes, parece escrito para mujeres alegres, demasiado alegres." Descobri esse livro sem querer há um tempo. Li, gostei, guardei. Fica a recomendação.
A frase do título é do Câmara Cascudo e só me lembrei dela porque a lâmpada da luminária queimou, o que me fez acender a luz do teto e sombras diferentes se formaram no chão da sala. Eu, que costumo levar tudo aos extremos, na medida do oito ou oitenta, quando se trata de ambientes, busco o meio-termo, nem tão claro, não tão escuro. À meia-luz...
Há um tempo escrevi um texto sobre a sombra para um livro infanto-juvenil. Aprendi várias coisas, entre elas que os coveiros da antiga China amarravam suas sombras com uma corda para que elas não deslizassem para dentro do caixão. Os aborígenes australianos acreditavam, no dia do casamento, que a sombra da sogra não podia se encostar na sombra da noiva, ou ela corria o risco de cair gravemente doente.
Na Indonésia, antigos habitantes da Ilha de Wetar temiam que sua sombra fosse golpeada: sinal de que doenças estavam a caminho. Entre os iorubas, povos da África subsaariana, a sombra era a representação da alma e que, para prejudicar alguém, bastava fazer um “trabalho” sobre ela. Os dogons também a associavam à alma, mas a uma parte não-inteligente dela - a outra parte, que seria a mente, estaria guardada dentro da cabeça. Para esse povo, a alma-sombra podia ser vista no reflexo formado na água. Ela seria um gêmeo de seu dono, só que do sexo oposto.
Nas lendas do povo zulu, quando a sombra fica pequena, é sinal que a morte está se aproximando – uma vez que os mortos, por estarem deitados, deixam de projetá-la. Os gregos visualizavam a alma de um homem na sua sombra. Eles a pintavam como uma figura negra, que reproduzia delicadamente os traços do indivíduo. Era lá que ficaria a parte destinada a sobreviver após a morte do corpo.
Também na Grécia Antiga, uma das lendas sobre a origem da arte da pintura, dizia que ela surgiu quando uma mulher, prestes a perder o homem que amava, traçou seu um perfil à luz de velas num muro. O relato para explicar o surgimento da escultura é bastante semelhante. Dele, participaram Butade, oleiro de Cícion que trabalha em Corinto, sua filha e o namorado. Antes de o namorador sair para uma viagem ao exterior, a moça traçou o perfil da sua sombra na parede. No dia seguinte, a partir do contorno, seu pai fez um baixo-relevo. A sombra havia sido fixada num muro pela primeira vez.
Bom, depois o mundo girou bastante, fez muitas sombras, e veio o estudo científico, a fotografia, a psicanálise, e a sombra passou a representar conceitos diferentes uma série de outros contextos... Agora, nesse instante, minha gata Capitu acha que a sombra de um DVD na parede é alguma coisa animada, que se aumenta e diminuiu, mas que ela não consegue pegar.
To na dúvida entre deixar ela brincar mais um pouco ou guardar logo o DVD.
Pernambucano radicado no Rio, Antonio Maria tinha ciúmes até dele mesmo, segundo conta Danuza Leão em sua autobiografia - ela que deixou o casamento com Samuel Wainer para ficar com o cronista e compositor, um homem orgulhoso de sua feiúra, segundo ele conta em um de seus textos. Antonio Maria, para quem nunca o leu, é o autor de Ninguém me Quer, música da amargura e da dor de cotovelo, justo ele que namorou as mulheres mais bonitas da sociedade carioca dos anos 50 e morreu, aos 42 anos, depois que sua amada o deixou - e também porque era obeso e desde criança tinha problemas cardíacos que preferia ignorar. Seja como for, suas crônicas, que falam dos relacionamentos entre homens e mulheres, são sensacionais. Com muito humor, alguma sutileza, bastante sensibilidade, uma ironia certeira e um olhar apuradíssimo, elas falam de desejo, paixões, segredos domésticos, desencontros, traições, noites perdidas, olhares cruzados, encontros e solidão.
Alguns de seus momentos, tirados daqui:
"Carlos Heitor Cony conta: "Um dia, Maria me telefona: — Carlos Heitor, Carlos Heitor, você nunca me enganou." Disse então que, vindo de São Paulo, viu no avião uma mulher linda lendo o livro Matéria de Memórias, de Cony. Aproximou-se, se apresentou como o autor do livro, e a mulher, uma típica apaixonada, acreditou. Pintou para ela um quadro bastante dramático: era um desgraçado, que nunca tinha tido sucesso, que as mulheres o abandonavam." — Mas, Maria..." era tudo o que o espantado Cony conseguia dizer. "— Fica tranqüilo, Cony, fica tranqüilo porque em seguida nós fomos pra cama. Ou melhor, você foi pra cama." E Cony, curioso: "— E ai?" "— E aí foi que aconteceu o problema" — gargalhava Maria. "— E ai você broxou, Cony, você broxou!"
"Às vezes, me sinto muito só. Sem ontem e sem amanhã. Não adianta que haja pessoas em volta de mim. Mesmo as mais queridas. Só se está só ou acompanhado, dentro de si mesmo. Estou muito só hoje. Duas ou três lembranças que me fizeram companhia, desde segunda-feira, eu já gastei. Não creio que, amanhã, aconteça alguma coisa de melhor." (O diário de Antônio Maria)
"Um homem e uma mulher jamais deveriam dormir ao mesmo tempo, embora invariavelmente juntos, para que não perdessem, um no outro, o primeiro carinho de quem desperta. *** Mas, já que é isso impossível, que ao menos chova, a noite inteira, sobre os telhados dos amantes."
Tem gente que chama de jornalismo literário, outros preferem jornalismo narrativo, na prática tudo acaba sendo resumido como matéria especial. Em inglês, a referência ainda é new jornalism e na américa hispânica, cronicas periodisticas. Mas isso é o que menos importa. O bacana, para quem ainda acha que jornalismo tem esperança e pode ser bem feito, é que existem algumas revistas inspiradíssimas que propagam boas reportagens escritas maravilhosamente bem por pessoas que sabem o que estão fazendo. E, a vantagem para nós, é que pelo menos algumas delas têm parte de seu conteúdo acessível online. Além da clássica New Yorker, referência em todo o mundo, na América Latina existe a Etiqueta Negra, uma revista mensal editada no Peru com textos de colaboradores que incluem tipos como Gay Talese, Eduardo Galeano, Ryszard Kapuscinski, John Lee Anderson, entre vários outros. A revista chama atenção pela qualidade do texto, pela criatividade nas histórias (cada edição é temática e gira em torno de um assunto), pela ousadia nas abordagens e também pelo cuidado gráfico. O triste é que não chega aqui no Brasil. Também entre os hermanos, na Colômbia é editada El Malpensante, outra experiência bem boa, mas que infelizmente não libera os textos na internet. No Chile, uma outra proposta, que mistura num formato pasquim putaria com grandes reportagens investigativas é The Clinic, que começou quase como um fanzine distribuído na época em que Pinochet estava internado na Europa. Atualmente, é uma publicação quinzenal que ganhou respeito e credibilidade, sem deixar de ser engraçada e com cara de feita quase artesanalmente. Pena que não temos nada do tipo por aqui - quem sabe, talvez, um dia, a Piauí.
Capote dispensa apresentações. Bonequinha de Luxo nem preciso dizer. Agora, Morrissey cantando Moon River , para quem nunca ouviu, é uma pequena jóia que merece ser escutada incansavelmente. Para provocar arrepios.
A Salon, numa entrevista antiga, titulou-o como outsider, um individualista no Japão. Para o Guardian, seus livros se pautam por um surrealismo melancólico. Seja como for, Haruki Murakami despontou na literatura japonesa no começo dos anos 80 com personagens que moram numa Tóquio 24 horas, ouvem música pop e gostam de jazz, citam Hemingway, bebem café e vivem, sem entender muito bem como nem porque. Se perdem no consumismo, aproveitam a tecnologia, fazem um sexo doméstico e buscam sempre alguma coisa, dentro ou fora deles. Prato cheio pra ganhar a antipatia dos críticos mais exigentes (ele realmente não está a altura de um Yukio Mishima ou Yasunari Kawabata, por exemplo) e o grande mercado ocidental.
Sem mais preâmbulos, descobri Murakami lendo Norwegian Wood (graças a uma amiga queridíssima). Depois veio Minha Querida Sputnik, Caçando Carneiros e Dance Dance Dance. Infelizmente, acabam aí as edições no Brasil. Em espanhol, há ainda Cronica del Pajaro que dá cuerda al mundo. O resto, e são vários, só em edições americanas ou inglesas (dá para encomendar na Livraria Cultura).
A questão é que Murakami tem um texto bem bom de ler, sabe mesclar referências pop e eruditas e ao mesmo tempo, saindo da superfície, passar pelas incógnitas que todos tentamos responder. Consegue ser poético e criar imagens lindas ("As poucas estrelas pareciam fixas no lugar, imóveis. Fechei os olhos e prestei bastante atenção aos descendentes do Sputnik, mesmo agora em círculo ao redor da Terra, a gravidade seu único elo com o planeta... Almas solitárias de metal, na escuridão desobstruída do espaço, encontravam-se, passavam umas pelas outras e se separavam, nunca mais se encontrando. Nenhuma palavra entre elas. Nenhuma promessa a cumprir.").
Para quem quiser, o New York Times disponibilizou um especial Murakami, com resenhas, entrevistas, contos e trechos de livros. Vale a pena.




