- Você já assistiu a algum filme sozinho numa sala de cinema?
- Nunca, mas sempre quis
- Uma vez tinha só eu e mais duas pessoas
- Cada um num canto da sala, é quase isso
- Que nada, elas sentaram bem atrás de mim
- Vai ver não queriam se sentir sozinhas, pessoas tendem a se aglomerar
- Mas era um casal!
O entrevistado parece estar com a atenção dividida. Depois de segundos em silêncio, pede licença por um minuto - dá para ouvir um resmungo de criança ao fundo. Seu filho está impaciente? Prefere que eu te ligue em outro momento?, pergunta a repórter, tentando ser simpática. Pois é, ele diz, ele estava vendo os aviõezinhos, responde o orgulhoso pai-entrevistado. Que bacana, quantos anos? Dois e meio. Ele tá fazendo avião de papel? De plástico, de montar? Nada, a diversão dele é ver os aviões na internet, diz o pai, e explica: ele adora os aviões da Embraer. Só gosta de ficar vendo esses no computador. Boeing, jatinho, fokker, ele não liga muito....
Ontem, pensei em escrever sobre o Bergman, mas ao pegar o livro escrito por ele, achei que os trechos ali falavam por si mesmos. Hoje, ao ler sobre a morte de Antonioni, fiquei com vontade de descrever apenas o que é para mim uma das melhores cenas de sua filmografia: o fim do filme La notte.
Jeanne Moureau e Marcello Mastroianni são um casal entediado, com eles mesmos e com o mundo. Nem o contato com a morte, em uma visita a um amigo em comum, é capaz de despertá-los do torpor onde vivem, seguros pelas aparências. À noite, durante uma festa, em meio à frivolidade e apatia, esticam ao máximo o fio de sua união - ele, seduzindo uma jovem belíssima; ela provocando um dos rapazes no local. Manipulam os outros, e eles mesmos.
Esgotados, ressentidos, pela manhã eles desabam. Ela lê uma carta para ele, uma declaração de amor. Linda. Ele se revolta, pergunta de quem ela recebeu aquilo. E ela responde, entre lágrimas, que é o bilhete que ele mandou para ela, há muitos anos, logo que se conheceram.
"Um dia fui operado. Fora uma cirurgia rápida, mas, por engano, deram-me uma anestesia demasiado forte que me deixou inconsciente. Onde passei essas horas que não duraram sequer a milésima parte de um segundo?
De repente, fiquei sabendo que assim é. Conceber que do estado de ser nos transformamos em não ser não é fácil. Mas para alguém, como eu, com um medo constante da morte, aquela vivência foi um grande alívio. Por outro lado, e se assim é, é um pouco aborrecido, pois não deixaria de ser agradável continuar vivendo outras experiências depois de a alma ter descansado de sua separação do corpo. Mas não creio que seja assim. Primeiro somos, e depois não somos, o que, como disse, é sumamente satisfatório.
O que me dava tanto pavor, o enigmático, o além, não existe. Tudo é deste mundo. Tudo existe dentro de nós, tudo se passa dentro de nós, nos infiltramos uns nos outros e nos libertamos uns dos outros. É tudo"
Trecho no livro Imagens, escrito pelo Bergman, editado aqui pela Martins Fontes
Capote dispensa apresentações. Bonequinha de Luxo nem preciso dizer. Agora, Morrissey cantando Moon River , para quem nunca ouviu, é uma pequena jóia que merece ser escutada incansavelmente. Para provocar arrepios.




