- Filha, você vem pro enterro do seu Fernando?
- Não sei, mãe. Vou tentar... Mas como foi que ele morreu?
- Ah, você sabe, foi morte natural. Morreu...
- Mas morreu do quê? Ele estava doente?
- Imagina, sempre teve uma saúde melhor que a de todo mundo
- Então, que estranho... Tinha problemas do coração?
- Era hipocondríaco, segundo sua tia. Vivia no médico, mas nunca encontrava nada
- Ele ainda fazia exercício, pelo que eu me lembro
- É, sempre fez, desde moleque. Mas, mesmo assim, morreu...
- A a dona Maria, como está?
- Ah, ela tá muito mal, né. Também pelo jeito como aconteceu
- Ué, mas ele não morreu de repente?
- É que foi muito difícil pra ela o jeito que encontraram o corpo
- Que jeito?
- Morto ué
- Mas como encontrariam diferente?
- Não, mas é que foi como ele estava...
- Mãe, não to entendendo nada, o que aconteceu?
- Eles moravam no 21º andar.
Então começou uma nova estação. No hemisfério sul, no país, no estado, na cidade e, conseqüentemente, lá em casa também. Onde eu moro tem concreto, madeira, vidro, ferro. Os tons são branco, preto, vermelho, um pouco de azul. Bate sol e venta bastante. A estante tá cheia de livros e um computador fica ligado o dia todo. Tem um gato, ou melhor, uma gata. E tem a mulher, que ocupa a cama.
Tava faltando alguma coisa....
Agora tem também uma jabuticabeira num vaso redondo de cimento. Com terra fofa e muita água. Galhos ainda frágeis, folhagem clara, verde e frutos que estão por vir. Pequenas jaboticabas colhidas na sacada de um apartamento.
Insisto em dizer e você insiste em não acreditar.
Mas a verdade é que eu gosto de sair por aí, descobrindo sozinha
É porque a viagem é só minha,
Posso, se quiser, te ensinar a me encontrar
Então estava lá: um pai quarentão, um namorado carinhoso do pai e uma filha única de vinte e poucos anos. Podia ser na padaria, num café, numa livraria, mas decidiram passar o tempo até a sessão do cinema num sex-shop na única galeria comercial da cidade. Entre risos e brincadeiras com os apetrechos disponíveis, cada com um seus interesses, eles percebem a vendedora saindo em disparada em direção à entrada do local. Quando se viram, uma senhora de uns setenta e poucos anos, cabelos brancos, vestido amarelo abaixo do joelho, puxava pela mão uma menina de no máximo sete. A vendedora interpela: senhora, aqui não pode entrar menores de idade. A vovó, sem compreender, pergunta: mas aqui não vende roupa de bailarina?
"Olha, eu estou te escrevendo só pra dizer que se você tivesse telefonado hoje eu ia dizer tanta, mas tanta coisa. Talvez mesmo conseguisse dizer tudo aquilo que escondo desde o começo, um pouco por timidez, por vergonha, por falta de oportunidade, mas principalmente porque todos me dizem que sou demais precipitado, que coloco em palavras todo o meu processo mental (processo mental: é exatamente assim que eles dizem, e eu acho engraçado) e que isso assusta as pessoas, e que é preciso disfarçar, jogar, esconder, mentir. Eu não queria que fosse assim. Eu queria que tudo fosse muito mais limpo e muito mais claro, mas eles não me deixam, você não me deixa"
Haruki Murakami escreve seu último livro no Havaí, corre todas as manhãs na praia, ouve jazz no fim da tarde e dá uma entrevista para o jornal argentino La Nacion. Diz que quanto mais a sério leva a própria rotina, mais foge da realidade em suas histórias. Que aprendeu a escrever escutando música e que o ritmo é o mais importante para que a magia aconteça. Para os fãs, aqui.
Você iria achar superestranho, e eu não iria te censurar. Por isso, só vou te contar daqui a um tempo. Não dá para forçar intimidades assim, logo no começo, não é? Claro, a gente sabe que no começo tudo é um grande teatrinho. Eu finjo que sou perfeito, você finge que acredita, eu vejo beleza em cada espirro que você dá, você fica prestando atenção em cada nuance das cores do meu cabelo, eu acho você a garota mais fantástica do mundo. Nós acreditamos. Temos que acreditar.
Talvez por isso mesmo não dá para te contar tudo. Vamos aos pouquinhos. A cada dia eu prometo descer um degrau do céu. Mas você vai comigo. Ah, claro, eu tenho preguiça de sair todas as noites. Sim, você acha um saco ir ao cinema todo final de semana. Tá, Woody Allen não é tão genial assim. O quê? Você ficou com ciúme das minhas amigas? Mas você não tinha prometido jantar comigo hoje? A cada dia, vamos descendo um degrau até a gente chegar numa base bem segura, onde vamos poder nos abraçar bem forte.
Continua aqui...
Ontem, pensei em escrever sobre o Bergman, mas ao pegar o livro escrito por ele, achei que os trechos ali falavam por si mesmos. Hoje, ao ler sobre a morte de Antonioni, fiquei com vontade de descrever apenas o que é para mim uma das melhores cenas de sua filmografia: o fim do filme La notte.
Jeanne Moureau e Marcello Mastroianni são um casal entediado, com eles mesmos e com o mundo. Nem o contato com a morte, em uma visita a um amigo em comum, é capaz de despertá-los do torpor onde vivem, seguros pelas aparências. À noite, durante uma festa, em meio à frivolidade e apatia, esticam ao máximo o fio de sua união - ele, seduzindo uma jovem belíssima; ela provocando um dos rapazes no local. Manipulam os outros, e eles mesmos.
Esgotados, ressentidos, pela manhã eles desabam. Ela lê uma carta para ele, uma declaração de amor. Linda. Ele se revolta, pergunta de quem ela recebeu aquilo. E ela responde, entre lágrimas, que é o bilhete que ele mandou para ela, há muitos anos, logo que se conheceram.
"Um dia fui operado. Fora uma cirurgia rápida, mas, por engano, deram-me uma anestesia demasiado forte que me deixou inconsciente. Onde passei essas horas que não duraram sequer a milésima parte de um segundo?
De repente, fiquei sabendo que assim é. Conceber que do estado de ser nos transformamos em não ser não é fácil. Mas para alguém, como eu, com um medo constante da morte, aquela vivência foi um grande alívio. Por outro lado, e se assim é, é um pouco aborrecido, pois não deixaria de ser agradável continuar vivendo outras experiências depois de a alma ter descansado de sua separação do corpo. Mas não creio que seja assim. Primeiro somos, e depois não somos, o que, como disse, é sumamente satisfatório.
O que me dava tanto pavor, o enigmático, o além, não existe. Tudo é deste mundo. Tudo existe dentro de nós, tudo se passa dentro de nós, nos infiltramos uns nos outros e nos libertamos uns dos outros. É tudo"
Trecho no livro Imagens, escrito pelo Bergman, editado aqui pela Martins Fontes




