A leitura ingênua

15.12.10

De Locutorio


Autores falando sobre sua própria obra podem ser muito chatos ou muito interessantes. Quando cai no narcisismo e na reverberação do próprio ego, fica insuportável. Quando conseguem se mostrar um pouco mais ao leitor, de maneira clara e direta, são atraentes - e despertam a vontade de ler. Nesse texto, publicado no New York Times, Haruki Murakami opina, se mostra e se auto-avalia - e faz pensar.

Uma das coisas que ele diz é que sempre percebeu que seus livros eram recebidos de maneira diferente pelos leitores do Ocidente e do Oriente. Enquanto os primeiros precisavam do crivo da análise literária, da rotulagem dentro de alguma categoria ou corrente artística (pós-modernismo, orientalismo e por aí vai), para então tentarem compreender por si mesmos cada livro, os segundos só liam - e, posteriormente, tentavam ou não encaixá-lo em alguma coisa. E no Japão ele chegou a ser bastante rejeitado pelos mais tradicionais por ser considerado ocidentalizado (leitura rasa baseada nas citações de música pop e literatura americana, mas vá lá).

Seja como for, ele toca num ponto interessante. Hoje, grande parte da análise literária que se faz nas universidades é cristalizada e um tanto anacrônica - não adianta ler uma obra escrita há cinco anos com os mesmos parâmetros com que se lê uma do século 19. Não estou desmerecendo os estudos literários - eles são importantes e ajudam a compreender muito mais do que a própria literatura. Mas simplesmente acho que as conclusões teóricas que você chega dissecando frases, formatos e analogias dentro de métodos estáticos geralmente são bem menos produtivas do que uma leitura atenta, e solitária. Literatura não é ciência.

Aqui, uma outra parte interessante do texto, que toca em cheio quem gosta de livros:

"The proper goal of a story is not to judge what is right and what is wrong, what is good and what is evil. More important is for us to determine whether, inside us, the variable elements and the traditional elements are moving forward in harmony with each other, to determine whether individual stories and the communal stories inside us are joined at the root.

In other words, the role of a story is to maintain the soundness of the spiritual bridge that has been constructed between the past and the future. New guidelines and morals emerge quite naturally from such an undertaking. For that to happen, we must first breathe deeply of the air of reality, the air of things-as-they-are, and we must stare unsparingly and without prejudice at the way stories are changing inside us. We must coin new words in tune with the breath of that change. "

posted by Simone Iwasso | 03:12 | 1 Comentário | #Link

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Comentários, Pingbacks:

Nome:
Fe Mortara
Comentário:
Olá!
Adorei 'a outra parte do texto', inspiradora, provocante, questionadora sem ser chata.
E definitivamente 'Literatura não é ciência.' Graças a Deus.
#Link 16.03.11 @ 21:29

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