
O meu ano novo começa antes daquele 1º de janeiro lento e arrastado, de ruas vazias e de dor de cabeça. Começa antes ainda das festas de reveillon, da calcinha branca e da taça de espumante. Para mim, há alguns anos, o ano novo começa quando abro os armários e tiro as roupas esquecidas. Saias, blusas, vestidos e calças compradas e pouco usadas, ou usadas e abandonadas, ou gastas e cansadas. Vai tudo para um grande saco preto, onde também entram sapatos e bolsas, lenços e bijuterias.
Depois disso, é a hora das estantes: ficam os livros essenciais, as obras da vida, os que mudaram o destino. O resto vai para alguém, para outra pessoa, para outros olhos atentos ou não. Cremes, perfumes, shampoos guardados também se vão - alguém há de fazer um uso melhor deles, dar alguma utilidade ao que não tive tempo ou vontade e simplesmente acumulei. Sem contar os papéis. As anotações gastas, os rabiscos, as páginas soltas - todos fragmentos sem sentido de dias já passados - e passado, já passou.
Nesses pequenos momentos, geralmente depois do trabalho e do jantar, começo a abrir espaço para um ano novo chegar - mesmo que ele chegue e traga tudo igual, ocupando os espaços do mesmo jeito. A expectativa de alguma coisa nova já é o momento que vale sozinho. Armários, gavetas, prateleiras e estantes vão ficando mais vazias, mais leves, guardando o que é essencial e se desprendendo do supérfluo. Do simples acúmulo. Da mania que temos de ir guardando, sem saber para quê - talvez para nos sentirmos seguros e protegidos rodeados de objetos já sem vida.
Assim, aos poucos e em meio a espirros e poeira, tento me deixar mais livre e leve para um recomeço - que na verdade, é sempre, e todos os anos, uma continuação. Para acreditar que, mesmo sendo tudo igual, pode ser tudo diferente. Para encher outra vez o estoque de energia e dormir me sentindo capaz de acordar na manhã seguinte com vontade de acordar, e com força para agir, e com estímulo para produzir, e, claro, com amor e paz para conviver.