
Há sons agradáveis, insossos e insuportáveis. O daquele dia, pra variar, tinha atingido o limite máximo da categoria insuportável. Era agudo, estridente, constante e, o que aumentava sua solitária angústia, só ela ouvia. Na cama, na cozinha, na rua, nos bancos do metrô, todo mundo demonstrava ouvir ruídos, conversas, risos, xingos e bocejos - e ninguém aparentava se incomodar com aquele som que lembrava cordas desafinadas de um violino velho. Era impossível trabalhar, era impossível almoçar, era impossível conviver daquela maneira. Dia após dia, noite seguida de noite, nada mudava.
Primeiro ela reclamou em silêncio, depois procurou o pronto-socorro, o médico especialista, a benzedeira, o psicólogo, os melhores amigos, a cartomante; ouviu todo tipo de explicação e nenhuma solução. Incrível como a mente das pessoas pode ser criativa diante da ignorância. Todo mundo mente, principalmente para si mesmo, concluiu. Decidiu viver assim, com a agudez que atormentava seus momentos de existência.
Um dia, depois de escovar os dentes, o som desapareceu. Do nada, do mesmo jeito que tinha surgido. O silêncio pareceu estranho - irreconhecível até. E, convivendo agora com seus próprios pensamentos, correu ligar a televisão.