
Ela estava sozinha ao pé do mar. E queria cantar para que cada peixe lá embaixo parasse para ouvir. Um sonho de infância, talvez um traço megalomaníaco, uma bobeira como tantas outras. Começou a abrir bem a boca, a soltar sua voz aguda e limpa. As ondas continuaram chegando, naquele embalo que inspira entrega e calma; a luz do sul seguiu espalhando seus reflexos prateados; Os peixes lá embaixo até ouviram, pararam por uns minutinhos para ver de onde vinha a melodia, mas se distraíram rapidamente e esqueceram a música. Ela percebeu. E ficou triste. E nunca mais quis olhar para o mar.

Ela é engraçada, genial, safada, bem-humorada, ácida, cínica, inteligente, enfim, única. Para quem lia, para quem nunca leu e para quem tem saudades, a Devir está publicando uma antologia com 16 fascículos da Chiclete com Banana, revista em quadrinhos criada pelo Angeli na época pós-redemocratização do país. Tá tudo lá: Rê Bordosa, Bob Cuspe, Escrotinhos, Los Tres Amigos, Meiaoito e por aí vai.
Vida noturna, sexo, política, esperança, desilusão, saco cheio e rotina, cidade e um retrato bem particular do que foram nossos anos 80 e 90. Vale muito a pena.

O céu azul, a lagoa verde transparente, a imensidão de areia em volta e uns três ou quatro caiçaras, vendendo bebida, camarão e queijo coalho tentando explicar de onde surgem os peixes no meio daquela areia toda.
- Tá vendo esse monte de peixe aí na lagoa?
- O que tem?
- Vieram da chuva. Quando chove, a lagoa enche e aparecem os peixes. Na seca, fica sem água e eles vão embora
- Que bobagem, chuva não traz peixe.
- Então como eles aparecem aqui?
- Eles surgem sozinhos
- Como assim sozinhos?
- Ué, quando enche a lagoa, esse tipo aí de peixe aparece sozinho, com a água. Que nem planta...

Mais importante do que o bairro, a metragem, o número de quartos, o piso, a cozinha, o banheiro e as paredes é a janela. Ela é a ponte entre o mundo que existe na sua casa e o mundo que acontece fora dela. Com o tempo, parece que arquitetos e decoradores tem se esquecido delas - é triste, quanto menores são as janelas de uma casa, menos as pessoas que moram nela conseguem ver; e quanto menos alguém vê, menos alguém sabe; e quanto menos alguém sabe, menos sente; e quanto menos sente, mais pobre é.




