
Eu devia ter uns oito ou nove anos e foi a primeira vez em que passei uma semana fora de casa. Não lembro como veio o convite, mas acabei num sítio da família de uma amiga de escola no interior de São Paulo. Foi uma tragédia só: me senti desamparada ao chegar lá, demorei pra me enturmar (era uma criança tímida e desconfiada), não me acostumei com a comida e fazia muito frio - e eu tinha levado um casaco que não era lá muito quente. Me lembro que tomei uma xícara inteira de café preto lá pela primeira vez, e um pouco de quentão também. E que andei a cavalo, coisa que nunca tinha feito. E ouvi meninas falarem de sexo de um jeito ainda meio novo pra mim na época (primas mais velhas da minha amiga, já adolescentes).
No primeiro dia lá, passamos a tarde fazendo bandeirinhas para a festa. Essa parte eu gostei, recortar e colar papéis coloridos, pendurar os cordões, organizar as mesas, acho que até lenha pra fogueira eu devo ter ajudado a pegar. No segundo, colocaram a gente para acompanhar uma procissão a cavalo entre um vilarejo e outro - foi cansativo, eu passei muita sede e fiquei com medo do cavalo sair em disparada e eu perder o controle dele. No quarto dia, à noite, mulheres vizinhas foram fazer uma reza na casa - de todas as idades, em torno de uma imagem de Nossa Senhora que era levada pra lá e pra lá - senti um medo daquilo e uma sensação estranha ao ouvir aquelas orações e cantos. Lembro que tive algum pesadelo à noite.
Foram dias novos e eu queria muito voltar pra casa logo - engraçado que, anos depois, quando comecei a viajar com frequência, quase nunca queria voltar...O resumo é que foi uma semana de festa junina um tanto traumática - mas que, por algum motivo um tanto confuso, fizeram com que, desde então e até hoje, as festas de São João se transformassem nas minhas preferidas.
Esse blog não é sobre jornalismo, mas é escrito por uma jornalista. Evito muito falar do tema aqui porque não é o espaço - já faço isso o dia inteiro em outros locais... Mas, como Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão, encerrando (?) uma discussão quase sem fim, dou aqui meu pitaco. Pra ser jornalista é preciso escrever bem. É preciso saber apurar bem. É preciso ter senso de notícia, e muita cara de pau - e carregar nas costas muita leitura e cultura geral. É necessário ter rigor com seu próprio método, buscar ser preciso, sempre. E não se cansar de ser curioso. Agilidade e capacidade de síntese são boas características também. Jogo de cintura, então, nem se fale. Claro que tudo isso pra você ser um bom jornalista -e há jornalistas de todos os tipos no mercado. E não estou dizendo aqui que eu tenho todos esses pré-requisitos, apenas que busco alcançá-los, como meta de quem quer melhorar sempre.
Nada disso você adquire, necessariamente, num curso específico de graduação - seria até mais fácil se fosse possível. Mas não é. É um conjunto de características que vem com a vida - com a formação básica, que se mistura com a personalidade, com as oportunidades, com os acessos e a experiência. Faculdade de comunicação pode, aliás, ser uma ótima experiência - a minha foi - pelos amigos, pelas histórias, viagens, buscas e também alguns conteúdos. Mas também pode haver outros caminhos - e há inúmeros exemplos de pessoas que trilharam essas rotas alternativas e são excelentes profissionais. Na prática, não mudará muita coisa - não tem tanta gente assim ansiando por um MTB e já há no mercado muita gente trabalhando sem diploma.
Por fim, fica aqui um texto que já coloquei aqui há um tempo, mas vale uma republicação. Está num livro do polonês Ryszard Kapuscinski, um dos melhores correspondentes de guerra que já tive a oportunidade de ler. Ele era, em sua profissão, tudo o que queremos diariamente ser.
"Creio que para exercer o jornalismo, antes de tudo, há de ser um bom homem ou uma boa mulher: bons seres humanos. Más pessoas não podem ser bons jornalistas. Se se é uma boa pessoa, se pode tentar compreender as demais, suas intenções, sua fé, seus interesses, suas dificuldades, suas tragédias. E converter-se, imediatamente, desde o primeiro momento, em parte de seu destino. É uma qualidade que a psicologia denomina “empatia”. Mediante a empatia, se pode compreender o caráter próprio do interlocutor e compartilhar de forma natural e sincera o destino e os problemas dos demais. Nesse sentido, o único modo correto de fazer nosso trabalho é desaparecer, esquecermos de nossa existência. Existimos somente como indivíduos que existem para os demais, que compartilham com eles seus problemas e tentam resolvê-los, ou ao menos descrevê-los. O verdadeiro jornalismo é intencional, a saber: aquele que fixa um objetivo e tenta provocar algum tipo de mudança. Não há outro jornalismo possível. Falo, obviamente, do bom jornalismo."
Dizem que o amor é cego, mas segundo a ciência, ele é mais é indefeso. Segundo pesquisas feitas por neurologistas, o cérebro do apaixonado desativa estruturas responsáveis pelo julgamento crítico e por nos manter alerta contra ameaças do ambiente. O resultado? O apaixonado dificilmente consegue ver defeitos e desconfiar da pessoa amada. Com o tempo, e a convivência, a tendência é que o cérebro vá mudando esse comportamento, reagindo ao ver a pessoa amada de forma parecida como age com outras pessoas.
Desse jeito, é fácil entender porque acaba. Mas o que ainda não tem explicação (e sobra especulação) é porque então permanecemos juntos.
Quando venta muito, parece que as coisas se mexem mais. Por mais que só as folhas, os papéis e o lixo da rua seja arrastado, acho que tudo o que existe vai junto - inclusive nós. É como se existissem cidades nômades, que imperceptivelmente, vão sendo levadas, tão devagar que a gente nem percebe. Acho que esses ventos todos revelam alguma coisa, descobrem. De repente, todas as mentiras são reveladas.