Foi quando reli a carta que percebi todos os erros. Tinha faltado ponto final, aquelas vírgulas em excesso e um monte de exclamações irritantes que aparecem em adultos que escrevem como adolescentes. Isso é que dá ter pressa, fazer as coisas sem prestar atenção, não se ater aos detalhes. Ah, os detalhes. São eles que mostram tudo, revelam qualquer mentira escondida, todo sentimento guardado, a menor mágoa oculta. Devia ter percebido a intenção naquele dia, quando segurou minha mão com mais força, olhou de lado pra mim, como bicho quando sabe que foi visto fazendo o que não devia. Mas a gente repara quando quer, mesmo quando eles estão ali, todos os detalhes dançando cancan na sua frente. E a carta, a tal carta que devia ter lido com mais calma, há muito tempo. E quanto tempo... Lá se vão tantos dias que passou de ano. Se puder voltar no tal tempo hoje, teria rasgado a carta naquele momento. Melhor saber nunca que tomar conhecimento tardio. O que tá feito é pra sempre.