O romance mais recente de um dos principais escritores japoneses contemporâneos, Haruki Murakami, 60, se tornou um sucesso de vendas no Japão antes mesmo de chegar às livrarias nesta sexta-feira. Milhares de exemplares de "1Q84", que pode ser lido como "1984" em japonês, foram reservados pelos fãs de Murakami, que não lançava um livro em seu país há cinco anos. O lançamento da obra, vendida em dois volumes, não teve campanha de promoção para manter o teor do livro em sigilo, ao contrário do que aconteceu em 2002 com "Kafka à Beira-Mar". A decisão foi da editora Shinchosha, que recebeu queixas de leitores que já conheciam a história de "Kafka" antes de ler a obra. A editora prevê uma tiragem integral de 580.000 exemplares. Vi agora na Folha Online.
Talvez a vida de verdade só aconteça nos intervalos. Como quando você enrosca seu corpo em outro, se joga na cama, ri com vontade, senta debaixo do sol porque na sombra faz frio. Aí você leva um soco, no meio da barriga. É tão forte que não dá pra respirar. Quando retoma o fôlego, passou. Já é pensamento. Fragmentado.
Acho que a vida é furtiva. E nós, não.

Fez tempo que eu descobri isso, mas preciso relembrar de tempos em tempos. Quem preenche nossa vida somos nós mesmos - com o que pensamos, fazemos, buscamos e encontramos. É como se cada dia fosse um pedacinho de papel em branco - com seus espaços vazios e suas limitações de espaço. Eles podem até continuar em branco, acumulando uma caixa enorme cheia de praticamente nada. Ou podem ter desenhos, figuras, rabiscos, letras grandes e pequenas. Tem épocas em que nos esquecemos disso, achando que os papéis de cada dia já estão preenchidos - ditando o que devemos fazer. Bobagem. É tudo folha solta. Quero fazer da minha uma obra de arte, nem que seja só para mim.
Foi quando reli a carta que percebi todos os erros. Tinha faltado ponto final, aquelas vírgulas em excesso e um monte de exclamações irritantes que aparecem em adultos que escrevem como adolescentes. Isso é que dá ter pressa, fazer as coisas sem prestar atenção, não se ater aos detalhes. Ah, os detalhes. São eles que mostram tudo, revelam qualquer mentira escondida, todo sentimento guardado, a menor mágoa oculta. Devia ter percebido a intenção naquele dia, quando segurou minha mão com mais força, olhou de lado pra mim, como bicho quando sabe que foi visto fazendo o que não devia. Mas a gente repara quando quer, mesmo quando eles estão ali, todos os detalhes dançando cancan na sua frente. E a carta, a tal carta que devia ter lido com mais calma, há muito tempo. E quanto tempo... Lá se vão tantos dias que passou de ano. Se puder voltar no tal tempo hoje, teria rasgado a carta naquele momento. Melhor saber nunca que tomar conhecimento tardio. O que tá feito é pra sempre.
De tudo que nunca é dito, e fica suspenso no ar, perdido nas intenções e nas vontades, ela construiu uma outra coisa. Uma outra rua. E um outro emprego. Uma outra relação. Até um outro corte de cabelo. Uma vaidade diferente. Uma coragem mais persistente. Uma segurança que não aparecia. Ela construiu tantas coisas que passou a não se reconhecer mais. De tudo que nunca é dito, ela preencheu uma vida - e agora se divide em duas; a oficial onde tudo é somente como é, e aquela lá, onde tudo o que é, só é porque nunca chegou a ser.
O blog tá abandonado - é fato. Mas a ausência virtual esconde dias agitados, cheios de trabalho, de coisas para entregar, prazos pra cumprir, presentes pra comprar, pessoas para encontrar e, de quebra, um computador novo (finalmente terei todas as teclas para escrever de novo!), um técnico que precisou configurá-lo e uma rede sem fio. Agora, ao menos, vou conseguir escrever com calma de casa outra vez, me concentrar e, loguinho, aparecer mais. Afinal, essa é, por mais que não pareça, uma segunda casa para mim...




