As pessoas vão se sentindo cada vez mais sozinhas, cada vez mais sozinhas. Elas não saem de casa, trabalham em casa e não conhecem mais ninguém. Falta emoção na vida de todo mundo. Daí, um belo dia surge uma locadora diferente. Uma locadora de gente. Na locadora tem fotos das pessoas a serem locadas separadas por gênero. São comédia, ação, musical. Pessoas que cantam. São sapecas em ação, etc. a locadora é um sucesso. Quem tava em casa, começa a dançar no novo musical. Quem não tinha com quem ir ao parque, saía pra correr com o DVDgente alugado. E as pessoas vão descobrindo aos poucos quem faz seu gênero e claro, quem ri por último ri melhor.
Esse não é meu. Tirei daqui.
Numa dessas novas metas que a gente teima em se colocar de tempos em tempos, voltei a frequentar diariamente o Parque da Aclimação - é bem pertinho de casa e um dos motivos de eu morar no bairro. Tem as pessoas de sempre - corredores natos, caminhantes e atletas de fim de semana. Mas todo dia tem surpresas. Anteontem, por exemplo, dia de chuva e vento, velhinhos - vários - davam suas voltas no lago carregando o guarda-chuva, as mulheres com alguns coloridos ou floridos. Outro dia, num banco logo na entrada do parque, um bêbado que acredito viver por lá, tentava fazer uma ligação num telefone imaginário. O problema era que, segundo ele mesmo falava pra todo mundo que passava, só estava dando ocupado!
Eu ia dizer muitas coisas hoje. Estava aqui pensando sobre ovos de páscoa, movimentos religiosos, intolerância, trabalhos incessantes, cansaço, o lago do parque, cadeiras bonitas, contas pra pagar, jogos de futebol e vagões novos no metrô. Mas daí, dando uma olhada na internet, achei isso aqui e fiquei bem quietinha. Acho que diz mais do que eu, no momento, conseguiria. Então, aí vai, pra dar um empurrão em todo mundo.

A criança olha curiosa para a máquina de escrever que acabou de chegar. Meio empoeirada, ela sai de dentro de uma caixa de papelão - o pai trouxe da casa da avó, que ia jogar aquela tralha fora. Testa a fita gasta e velha, coloca uma folha de papel sulfite e deixa o menino apertar algumas letras. Ele olha maravilhado o ir se mexendo.... "Nossa pai, é mais legal que computador, já sai na hora."




