Quando abriu as janelas o mundo era outro. Os dois prédios da frente se transformaram em casinhas geminadas, a árvore do quarteirão não era mais que um pequeno pé de alguma coisa, o asfalto tinha virado pedregulhos encaixados e as lojas da esquina simplesmente não estavam mais ali - só terreno de terra vermelha. O cheiro que o ar tinha era familiar. Mas nunca tinha visto aquela menina saindo com a bicicleta, menos ainda o cachorro solto latindo pros carros. Criança com uniforme escolar há tempos não aparecia por ali, desde que a escola do bairro tinha virado uma dessas redes educacionais.
É, o mundo estava bem outro.
Fechou os olhos. Fechou outra vez. Piscou várias vezes seguidas. Mexeu a cabeça, se espreguiçou pra ter certeza que estava desperta. Se concentrou nos desenhos feito a giz, no chão da calçada. As flores do piso pintadas de amarelo e cor de rosa. Uma amarelinha pronta, meio desfalecida pela noite que passou ao relento. Sentiu um calafrio. Um medo. Um pavor. Uma vontade de voltar a dormir. De nunca ter visto isso de novo. Tem coisas que a gente pode desejar diariamente, pensou, mas quando acontecem, nunca sabemos o que fazer....
"Não dá pra voltar a ser criança", disse pra ela mesma, fechando as janelas.