Quando escrevo pouco, sinto falta daquele transe, daquela sensação de embalo que os sons do teclado fazem, levando algo dentro de mim pra bem longe, pra uma espiral sem fim - nem começo. Pode ser qualquer coisa que desencadeia o processo, uma gota de água que caiu no meu braço e deu arrepio, uma folha com formato diferente que estava no vidro do carro, um gato dormindo em cima do muro, uma conversa no balcão da lanchonete, um garoto que atravessa a rua sorrindo ou correndo ou chorando, uma sensação diferente que me chega quando acordo. O bacana é que cada coisa dessas puxa um fio, que vai percorrer caminhos tão distintos, que chega uma hora e nem eu sei mais por onde começou. É o grande embate entre escrever ficção e contar uma história sobre a realidade. No primeiro, tudo parte do se perder. No segundo, você nunca pode esquecer aonde está. Quando as coisas se mesclam, você chega no ponto onde mora o maior perigo de todos.
Outro dia, encontrei uma garota que não falava. Nunca. Com ninguém. Não gostava, diziam. A mãe contou que ela tinha visto alguma coisa algum dia em alguma época e decidiu parar para sempre com isso de conversar. Ela desenhava. Ela pintava. Ela até mesmo compunha canções num violão usado que tinha ganhado do padrasto. Ela tinha cabelos longos e claros, e usava sempre vestidos um pouco pra cima dos joelhos. Observei ela por bastante tempo, enquanto ela permitiu, e descobri: ela não tinha cansado nem decidido. Ela tinha é engolido todas as palavras que conhecia. De uma só vez. Foi demais pra ela. Com o engasgo, ela perdeu tudo. Achei melhor não contar nada para a mãe dela.