Alguma coisa acontece, sempre

17.02.09

Quando escrevo pouco, sinto falta daquele transe, daquela sensação de embalo que os sons do teclado fazem, levando algo dentro de mim pra bem longe, pra uma espiral sem fim - nem começo. Pode ser qualquer coisa que desencadeia o processo, uma gota de água que caiu no meu braço e deu arrepio, uma folha com formato diferente que estava no vidro do carro, um gato dormindo em cima do muro, uma conversa no balcão da lanchonete, um garoto que atravessa a rua sorrindo ou correndo ou chorando, uma sensação diferente que me chega quando acordo. O bacana é que cada coisa dessas puxa um fio, que vai percorrer caminhos tão distintos, que chega uma hora e nem eu sei mais por onde começou. É o grande embate entre escrever ficção e contar uma história sobre a realidade. No primeiro, tudo parte do se perder. No segundo, você nunca pode esquecer aonde está. Quando as coisas se mesclam, você chega no ponto onde mora o maior perigo de todos.

Outro dia, encontrei uma garota que não falava. Nunca. Com ninguém. Não gostava, diziam. A mãe contou que ela tinha visto alguma coisa algum dia em alguma época e decidiu parar para sempre com isso de conversar. Ela desenhava. Ela pintava. Ela até mesmo compunha canções num violão usado que tinha ganhado do padrasto. Ela tinha cabelos longos e claros, e usava sempre vestidos um pouco pra cima dos joelhos. Observei ela por bastante tempo, enquanto ela permitiu, e descobri: ela não tinha cansado nem decidido. Ela tinha é engolido todas as palavras que conhecia. De uma só vez. Foi demais pra ela. Com o engasgo, ela perdeu tudo. Achei melhor não contar nada para a mãe dela.

posted by Simone Iwasso | 07:02 | 2 Comentários | #Link

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Comentários, Pingbacks:

Nome:
Frizero
Comentário:
Que angústia perceber em alguém essa condição: a de ter engolido as palavras, sem vontade alguma de negociá-las com os outros ao redor.

De minha parte, tenho essa mesma angústia tua: a de escrever. Talvez esta seja nossa maneira de não engolir de vez as palavras.

Parabéns, como sempre, pelos sensíveis textos.
#Link 18.02.09 @ 10:30
Nome:
Lídia
Comentário:
Poxa Simone, muuuiito obrigada pelo elogio viu...de coração!
E adorei ter aparecido aqui pra te conhecer e te ler também!

=))

Quanto à situação da menina que engoliu todas as palavras...juro que pensei que pensei que fosse eu.
Acho que sei exatamente o que ela sente...só depois de uns seis meses de terapia que estou reaprendendo a falar...

Kissus querida!
Até mais!

=}


#Link 18.02.09 @ 21:31

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