Quando abriu as janelas o mundo era outro. Os dois prédios da frente se transformaram em casinhas geminadas, a árvore do quarteirão não era mais que um pequeno pé de alguma coisa, o asfalto tinha virado pedregulhos encaixados e as lojas da esquina simplesmente não estavam mais ali - só terreno de terra vermelha. O cheiro que o ar tinha era familiar. Mas nunca tinha visto aquela menina saindo com a bicicleta, menos ainda o cachorro solto latindo pros carros. Criança com uniforme escolar há tempos não aparecia por ali, desde que a escola do bairro tinha virado uma dessas redes educacionais.
É, o mundo estava bem outro.
Fechou os olhos. Fechou outra vez. Piscou várias vezes seguidas. Mexeu a cabeça, se espreguiçou pra ter certeza que estava desperta. Se concentrou nos desenhos feito a giz, no chão da calçada. As flores do piso pintadas de amarelo e cor de rosa. Uma amarelinha pronta, meio desfalecida pela noite que passou ao relento. Sentiu um calafrio. Um medo. Um pavor. Uma vontade de voltar a dormir. De nunca ter visto isso de novo. Tem coisas que a gente pode desejar diariamente, pensou, mas quando acontecem, nunca sabemos o que fazer....
"Não dá pra voltar a ser criança", disse pra ela mesma, fechando as janelas.
"Um tribunal autorizou nesta quarta-feira o casamento de um homem de mais de 50 anos com uma menina de nove anos na cidade de Anidh, ao nordeste de Riad, na Arábia Saudita. A mãe da menor pediu às autoridades do país envolvidas no julgamento que intervenham para impedir o matrimônio. 'Minha filha ainda não sabe que está casada', disse."
A matéria inteira aqui.
Corina corta cebolas para chorar. Umas cebolas grandes, brancas ou roxas, frescas. Começa pelas pontas, depois descasca a primeira camada, prepara o facão afiado e vai picando, picando, picando, picando até que sobrem apenas miniquadradinhos espalhados na tábua em cima da pia, quase cobertos pelas lágrimas que escorreram fartamente de seu rosto. Depois lava as mãos, pega um lenço, enxuga os olhos vermelhos e acende o fogo. Joga um fio de azeite, um pouco de sal, folhas de manjericão e as cebolas tão bem picadinhas. Refoga a mistura, sentindo o cheiro bom que sai da panela. Esvazia uma lata de tomates, deixa tudo cozinhando por um tempo. Acrescenta uma pitada de açúcar e sente a mistura com uma concha. Sem pressa, escorre o macarrão que cozinhou em outra panela. Mistura tudo e monta o prato. Abre a garrafa de vinho. Começa a comer, a beber, e dessa vez, a sorrir.
Quando escrevo pouco, sinto falta daquele transe, daquela sensação de embalo que os sons do teclado fazem, levando algo dentro de mim pra bem longe, pra uma espiral sem fim - nem começo. Pode ser qualquer coisa que desencadeia o processo, uma gota de água que caiu no meu braço e deu arrepio, uma folha com formato diferente que estava no vidro do carro, um gato dormindo em cima do muro, uma conversa no balcão da lanchonete, um garoto que atravessa a rua sorrindo ou correndo ou chorando, uma sensação diferente que me chega quando acordo. O bacana é que cada coisa dessas puxa um fio, que vai percorrer caminhos tão distintos, que chega uma hora e nem eu sei mais por onde começou. É o grande embate entre escrever ficção e contar uma história sobre a realidade. No primeiro, tudo parte do se perder. No segundo, você nunca pode esquecer aonde está. Quando as coisas se mesclam, você chega no ponto onde mora o maior perigo de todos.
Outro dia, encontrei uma garota que não falava. Nunca. Com ninguém. Não gostava, diziam. A mãe contou que ela tinha visto alguma coisa algum dia em alguma época e decidiu parar para sempre com isso de conversar. Ela desenhava. Ela pintava. Ela até mesmo compunha canções num violão usado que tinha ganhado do padrasto. Ela tinha cabelos longos e claros, e usava sempre vestidos um pouco pra cima dos joelhos. Observei ela por bastante tempo, enquanto ela permitiu, e descobri: ela não tinha cansado nem decidido. Ela tinha é engolido todas as palavras que conhecia. De uma só vez. Foi demais pra ela. Com o engasgo, ela perdeu tudo. Achei melhor não contar nada para a mãe dela.
Não sei bem de onde ela desenha, o que faz da vida nem quantos anos tem. Mas ela sabe fazer quadrinhos, daqueles bons mesmo, tiros certeiros em uma única tomada. São sensíveis, crônicas em forma de desenho. O site e o blog chamam Corn Flakes - adorei até o nome, lembra café da manhã, lembra rotina, lembra dia a dia - exatamente como devem ser as boas tirinhas. Pra quem quiser se arriscar, aqui.

O mundo pós-adolescente é divertido, e tão simples de vez em quando....
O cara tatuado, com piercings pelo corpo, boa pinta, beija a menina moderninha da balada. Papo vai, papo vem, ela percebe que ele não manja de bandas indie, de cinema, de livros descolados - ou seja, nã era bem o que ela estava esperando... Tenta cair fora. E ouve:
- Sou tosco mesmo, se fodeu, agora já beijou!
Chega o café no balcão e o cliente reclama:
- Ei, eu tinha pedido um café curto.
Sem hesitar, o funcionário olha pra xícara, pega ela, leva até a pia e joga metade fora.
- Aqui está, um café curto
O triste é que aconteceu mesmo...
Há uns três anos, ao sermos apresentadas, a mãe de um amigo olhou bem pra mim, pensou por um tempo, e disse que eu era filha de Iemanjá. Na hora, apesar de ser pouco religiosa e conhecer pouco sobre orixás, simpatizei com a idéia. Tenho uma ligação com o mar, gosto da imagem radiante e feminina das representações da orixá, acho as cantigas bonitas. O tempo passou e um dia, ao entrevistar uma mãe de santo pra uma matéria sobre religiões, ela deu o mesmo veredito. Aceitei novamente. Enfim, hoje, dia dela, gostaria de estar aos pés do mar, jogando uma bela flor e fazendo uma simples reverência...

"O oceano está em todas as partes do mundo, tanto une quanto separa as nações. Do pólo norte ao pólo sul, o mar é símbolo de uma mística qualquer, em todas as crenças. Mesmo quem não acredita em nada gosta de olhar o mar e se acalma. O mar tem esse efeito calmante, mas a fúria do mar ninguém acalma. O oceano representa também o infinito, aquilo que não tem tamanho, não tem comparação" (Mãe Stella, ,74 anos, 60 no candomblé)
Uma matéria bacana sobre as festas e a simbologia do orixá aqui.




