Ela me contou que desde criança sonhava em ter um sótão. Escondido, empoeirado, daqueles que é preciso subir alguns degraus de escadas de maneira de ranguem com o peso dos pés - daqueles de filmes e desenhos que via quando não tinha nada pra fazer. Ela disse que mesmo mudando de casa em casa, de casa em apartamento, de apartamento em casa, nunca tinha realizado seu sonho doméstico. Já teve piscina, jardim, varanda, cachorro, peixe e gato. Mas como era difícil ter um sótão só seu, pra esconder suas caixas fechadas, seus baús pesados, seus dias escuros e solitários, que ela acreditava serem inúmeros e preciosos. Até que ela decidiu construir um. Demorou mais de um ano, porque o dinheiro era curto e o pedreiro só aparecia uma vez por semana. Quando ficou pronto, colocou uma camiseta, um shorts, prendeu os cabelos, segurou uma garrafa de água e subiu. Fechou o portãozinho de acesso. Com o silêncio, demorou um pouquinho até perceber. E quando percebeu até ficou feliz. Na verdade, ficou muito feliz. Uma felicidade que crescia, crescia, crescia a cada vez que respirava. Era tão forte que ela entendeu: passara a vida sem ter onde deixar seus rastros pesados, e, nem imaginando como, foi deixando eles pelo caminho....Seu sótão seria o mais bonito, e também o mais leve e vazio que existiria.