- Às 7h30, ele entra no meio das pernas dela e deixa marcas roxas no seu pescoço
- Às 8h40 ela bebe uma caneca de café e vai pro chuveiro, imaginando o fim de semana
- Um pouco depois das 10h ele chega no trabalho e passa meia hora lendo notícias na internet
- Por volta das 12h, ela atende um telefonema atrás do outro, enquanto manda um email para uma amiga
- Ele almoça com amigos na padaria da esquina, faz planos de comprar um videogame
- Às 14h45 ela senta com as pernas cruzadas e passa 10 minutos lembrando o livro que parou na metade na noite anterior. Fuma propositadamente de maneira lenta...
- Às 16h eles conversam mais um pouco pelo msn, hábito desde sempre, cultivado diariamente
-Passa das 18h e ela se concentra no trabalho. Ele tenta escrever um pouco
- Ela vê o anoitecer pela janela, entre as telas do computador. Chove forte na cidade, 19h e o trânsito começa a piorar
- Antes das 20h ele vai pro metrô. Hora de ir pra casa.
- Ela ainda passa no supermercado, deixa um documento na casa de uma amiga e o encontra lá pelas 21h.
A noite é particular e imprevista. Momento de mistério antes que tudo recomece.
A moça era morena, tinha cabelos longos, um pouco ondulados. O do meio devia ter uns 20 anos, camisa vermelha e bermula larga. Na ponta estava outra garota, de cabelos bem curtos, que ajeitava o sutiã por baixo da blusa de tempos em tempos. Tomavam cerveja, jogando as latinhas vazias de lado. Falavam com gestos largos e davam risada, a todo momento. Noites quentes são ideais pra não se fazer nada, pra jogar palavras no ar e deixar que elas virem sons aleatórios por aí. Do alto do prédio onde estavam, pouca coisa podia ser mais agradável. E eles deviam saber disso. Primeiro foi o garoto quem deitou no chão, esticando os braços pra cima. A garota de cabelos curtos se ajeitou em seguida, dobrando as pernas, seguida pela outra amiga. Ficaram ali jogados, como se tomassem sol no meio da noite.
Vai ver imaginavam, ou não, que era mesmo a luz do sol que brilhava através da lua cheia. Luz refletida, invertida como são nossos dias.
Gravador é porta-jóias de palavras
Caneta, arma de fogo
Tinta — rastro de pólvora
Bloco cacetete
Ser dono do campo não é ser dono da bola
Tirei daqui.
Ela me contou que desde criança sonhava em ter um sótão. Escondido, empoeirado, daqueles que é preciso subir alguns degraus de escadas de maneira de ranguem com o peso dos pés - daqueles de filmes e desenhos que via quando não tinha nada pra fazer. Ela disse que mesmo mudando de casa em casa, de casa em apartamento, de apartamento em casa, nunca tinha realizado seu sonho doméstico. Já teve piscina, jardim, varanda, cachorro, peixe e gato. Mas como era difícil ter um sótão só seu, pra esconder suas caixas fechadas, seus baús pesados, seus dias escuros e solitários, que ela acreditava serem inúmeros e preciosos. Até que ela decidiu construir um. Demorou mais de um ano, porque o dinheiro era curto e o pedreiro só aparecia uma vez por semana. Quando ficou pronto, colocou uma camiseta, um shorts, prendeu os cabelos, segurou uma garrafa de água e subiu. Fechou o portãozinho de acesso. Com o silêncio, demorou um pouquinho até perceber. E quando percebeu até ficou feliz. Na verdade, ficou muito feliz. Uma felicidade que crescia, crescia, crescia a cada vez que respirava. Era tão forte que ela entendeu: passara a vida sem ter onde deixar seus rastros pesados, e, nem imaginando como, foi deixando eles pelo caminho....Seu sótão seria o mais bonito, e também o mais leve e vazio que existiria.
Quebrou a promessa de ano-novo acendendo o primeiro cigarro do dia, em frente à janela aberta, observando os cachorros da vizinhança latindo. Caía uma chuvinha fina, paulistana, que deixava o ar mais fresco. Fumou devagar, daquele jeito que dá pra ouvir o cigarro queimando. Mexeu no cabelo, tossiu um pouco e, batendo as cinzas, foi pra cozinha acender o fogo. Ferveu a água e preparou um café rápido, sem açúcar, com umas gotinhas de leite. Passou manteiga no pão e comeu devagar, no sofá, passando os canais de televisão. Quando terminou, foi para o quarto. Viu ele deitado, a respiração suave, a expressão leve - tinha dias que ele parecia sorrir enquanto dormia. Colocou a mão no seu peito e adormeceu. Outra vez.
O ano já pode começar...




