Sabe, de tempos em tempos eu vejo algo de mim andando por aí. Uma blusa parecida que atravessa a rua, um corte de cabelo quase igual meio desarrumado na correria, um braço estendido, um sapato que eu usaria, uma maneira de olhar, de se mexer, de caminhar. Na maior parte das vezes é só isso mesmo. Um flash de um corpo ou um acessório que me traz à tona a minha própria imagem. Não muda nada, não toca em nada, cada um segue seu rumo.
Mas raramente acontece diferente. Vejo algo de mim vivo por aí. Mais jovem, mais esperto, tão bobo quanto, tão sensível e sedento de vida quanto. Tão falante, tão ansioso, tão musical e tão empolgado quanto. E aí bate uma coisa. É a identificação imediata - não daquelas psicanalíticas, de enxergarmos e criticarmos nos outros nossos defeitos. É outra coisa, e coisa melhor. É sentir que tem gente como você nesse mundo grande e tão pequeno. Gente que, em contextos dos mais diversos, e às vezes bem parecidos, sentiu o mesmo que você também sentiu. Chorou igual, sorriu igual, se cansou igual. E quando não foi igual, foi parecido, foi próximo.
Enfim, isso tudo pra dizer que sim, distância e tempo não importam em algumas ligações, em amizades especiais. Porque é como se ela acontecesse numa linha fina e brilhante, que liga pessoas e pessoas.
Isso é valioso - e por incrível que pareça, pouca gente tem. A maioria tá perdido por aí, tá tentando se defender, tá tentando se impor, tá atrás das coisas erradas...
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