A essa altura, o que ainda não aconteceu vai ficar mesmo pro ano que vem. E o que faltou resolver, por essas terras, só quando o carnaval passar...Portanto, quem vai viajar, quem vai ficar em casa, quem vai se refugiar em algum quarto de hotel e quem, como eu, vai trabalhar, fica o recado: Locutório deseja brindes e bebedeiras, beijos apaixonados e explosões de fogos de artifício, roupas coloridas e sonhos realizados pra todo mundo. E nos vemos outra vez, mais uma vez como sempre, no ano que vem!
Sabe, de tempos em tempos eu vejo algo de mim andando por aí. Uma blusa parecida que atravessa a rua, um corte de cabelo quase igual meio desarrumado na correria, um braço estendido, um sapato que eu usaria, uma maneira de olhar, de se mexer, de caminhar. Na maior parte das vezes é só isso mesmo. Um flash de um corpo ou um acessório que me traz à tona a minha própria imagem. Não muda nada, não toca em nada, cada um segue seu rumo.
Mas raramente acontece diferente. Vejo algo de mim vivo por aí. Mais jovem, mais esperto, tão bobo quanto, tão sensível e sedento de vida quanto. Tão falante, tão ansioso, tão musical e tão empolgado quanto. E aí bate uma coisa. É a identificação imediata - não daquelas psicanalíticas, de enxergarmos e criticarmos nos outros nossos defeitos. É outra coisa, e coisa melhor. É sentir que tem gente como você nesse mundo grande e tão pequeno. Gente que, em contextos dos mais diversos, e às vezes bem parecidos, sentiu o mesmo que você também sentiu. Chorou igual, sorriu igual, se cansou igual. E quando não foi igual, foi parecido, foi próximo.
Enfim, isso tudo pra dizer que sim, distância e tempo não importam em algumas ligações, em amizades especiais. Porque é como se ela acontecesse numa linha fina e brilhante, que liga pessoas e pessoas.
Isso é valioso - e por incrível que pareça, pouca gente tem. A maioria tá perdido por aí, tá tentando se defender, tá tentando se impor, tá atrás das coisas erradas...
Curioso como nunca usei a palavra ciúme no singular. Pra mim, sempre foram ciúmes. Mais de um. Múltiplos. Palavra pra um sentimento que nunca vem sozinho, que nunca é um só.
Procurei agora no dicionário: ciúme, segundo o Houaiss, é "um substantivo masculino, que experime estado emocional complexo que envolve um sentimento penoso provocado em relação a uma pessoa de que se pretende o amor exclusivo; receio de que o ente amado dedique seu afeto a outrem"
Ciúme me lembra a história do Antonio Maria, contada pela Danuza Leão, sua ex-mulher nas décadas cariocas passadas. Apaixonado e passional, tinha ciúmes até dele mesmo. Diz ela que um dia, deitados na cama, ele sobre ela, ele viu na televisão o reflexo de um homem sobre sua mulher. Surtou.
Acho que escritores em geral adoram o ciúme. Machado de Assis se valeu dele, em grande quantidade, pra criar o Dom Casmurro - uma vítima de ciúmes gerada pela culpa. Shakespeare criou Otelo, o mouro inseguro que deixa o ciúme destruir seu amor, e sua vida. Deve ter outros, São Bernardo, Graciliano Ramos, ciúmes de um coronel do nordeste de sua mulher cheia de opiniões.
Robertão também cantou o ciúme. Quem se lembra..."Entenda que o meu coração/ Tem amor demais meu bem e essa é a razão/ Do meu ciúme, ciúme de você/ Ciúme de você, ciúme de você..."
O ciúme pra mim é mais ainda, é mais do que complexo Houaiss. É ambíguo. Isso porque me dói sua presença e dilacera sua ausência.
O projeto funciona asssim: todos os anos, desde 1997, os Correios separam as cartinhas enviadas por crianças da periferia ao Papai Noel. Deixam as cartas à disposição nas agências para os interessados em comprar o presente pedido. Eles se encarregam depois da entrega. É simples, fácil e vai deixar uma criança feliz momentaneamente. Quem tiver interesse, basta entrar aqui e está tudo explicadinho. Não vale carta de adultos, nem aquelas com pedidos mais caros, tipo carro ou computador. No ano passado, uma amiga que já conhecia a proposta pegou uma cartinha de uma menina que pedia uma boneca. Ela dizia que seu sonho era ganhar ma Barbie, mas sabia que era um pedido caro e ficaria feliz com uma boneca qualquer, mas pelo menos dessas que viessem numa caixa. É de partir o coração. Tá, não vai mudar a vida de ninguém - nem a sua nem a deles. Mas, ao menos, deixará uma recordação mais feliz em crianças que tem poucos motivos pra gostar de Natal.
O texto hoje não é meu. Mas é tão bom, e tão bem-humorado, que precisei compartilhar aqui. Daquelas crônicas gostosas de ler.
Eu gosto de andar de ônibus. Bom, claro que prefiro andar de carro, mas o circular de São Paulo tem aquela mistura de tipos que eu gosto tanto. Gente bem-vestida, mal-vestida, bonita, feia e várias outras características que chamam a minha atenção. Mas eu gosto mesmo é de gente engraçada. E gente sem noção é engraçada. E gente moderninha sem noção é mais engraçada ainda.
Em frente ao Masp, o ônibus parou. Subiu um casal jovem, desses típicos moderninhos magrelos paulistanos, com estilo importado de revistas de moda européias e platéia de passarela de Fashion Week. O rapaz trajava roupa apertadinha, claro. Preta, ignorando o calor de 34° que fazia lá fora. Os óculos, Ray Ban clássicos, estilo Tom Cruise dançando de cueca em “Negócio Arriscado”. O cabelo também era igual, só que maior e precisamente despenteado. Passaria despercebido entre tantos hypes se não fosse pelo brinco: uma enorme pena colorida que ia da orelha ao ombro.
Então eu pensei: uma das coisas que eu admiro nos moderninhos é a exploração do próprio estilo, a ponto de poder usar uma coisa ridícula e ainda assim ficar bacana. Parece que a atitude acaba permitindo algumas ousadias. Caso contrário, óculos Ray Ban dourado, modelo aviador, com lentes verdes, ainda seria coisa apenas de motorista de fretado ou gigolô da Augusta.
Mas tudo tem o seu limite. Ousadia tem o seu limite, até mesmo para os moderninhos. Porra, uma pena? Nenhuma atitude no mundo é capaz de sustentar esse peso e ainda se sair bem. Será que tem alguma simbologia? Até porque, esteticamente, não tem a menor explicação. Tentei buscar referências, como o chapéu de Bob Dylan, os óculos de Elvis Presley, mas....uma pena? Homenagem a Luiz Caldas, o baiano da Tieta que cantava descalço? Então era melhor ele tirar o all star que usava e meter uma tornozeleira de búzios ali. Tem que escolher: ou a pena ou o all star! Imagina só Joey Ramone de pena colorida delicadamente pousada sobre sua jaqueta de couro? Não dá! Uma coisa ou outra.
Talvez isso seja a grande ilusão daquela idade, que todo mundo acha que o mundo gira ao seu redor. Por isso acha que é capaz de criar as maiores tendências porque é único, descolado, um cérebro genial e incompreendido, essas coisas. Alguns até conseguem, mas respeitando o limite da ousadia. Não adianta o pequeno emo sair na rua com um short de lantejoulas escrito “I coração NY” nas nádegas porque não vai pegar. Pior do que perceber que o mundo não gira ao seu redor, é perceber que ele não só gira mas tira sarro da sua cara.
E mais, porém do mesmo: porra, uma pena? Se não tem simbologia, não tem beleza estética, sobra o quê? Os restos mortais de uma ave, só isso. É o mesmo que andar com um pé de coelho na orelha. Ou um alargador de olho de boi. Se fosse meu filho, ia ter que trocar de brinco! E eu que brigava com o meu pai apenas para poder furar a orelha. Bons tempos esses novos tempos. Eu seria um pai moderno: brinco pode, mas não de pena! Isso é coisa de galinha, pomba e nem ao menos é original, já que nos anos 80, até o Sr (a). Clóvis Bornay já utilizava em suas fantasias de carnaval.
A boa notícia é que sempre dá pra voltar atrás. Até o Rei Roberto Carlos voltou, quando implantou aquela pena junto com o cabelo, por que não o rapazinho do ônibus? “Desencana, frangote. Isso não tá bonito. Vai lá tirar, vai...”.
Ponto Perdizes, hora de descer e voltar pro calor infernal do asfalto. Mas sem essa de pena! A viagem foi divertida....
Orlando Machado




