"Don José Medina parou de beber aos 106. De vez em quando, ainda toma "um puro" (aguardente), mas não mais de um por dia. Fuma, mas muito menos do que quando 'era jovem' -ali pelos 70 anos. Aos 112, não conseguiu largar o chamico, cigarro feito com uma erva alucinógena. Medina vive em Vilcabamba, um povoado com cerca de 4.000 habitantes no interior do Equador (650 km ao sul da capital, Quito) que a paranóia pela vida saudável ainda não encontrou. As condições sanitárias do local são um desastre -na maioria das casas, não há esgoto nem água encanada. Seus habitantes fumam, bebem álcool, comem muito sal, tomam muito café, usam drogas. E são um dos povos com maior proporção de pessoas centenárias no mundo -cerca de dez vezes mais do que a média. Centenários e saudáveis."
Genial, né? É assim que começa essa matéria que a Folha publicou hoje, feita pela correspondente em Buenos Aires Adriana Küchler (pelo texto, dá pra perceber que ela não foi até lá, mas com certeza deve ter morrido de vontade). É uma delícia saber que existe um povoado de pessoas que estão longe da ditadura médica dos bons costumes alimentares e de vida saudável e que, mesmo assim, vivem mais e melhor do que a maior parte do mundo. Além de beberem álcool, tomarem café, usarem uma erva alucinógena, comerem muito sal e terem vida sexual ativa até os 120 anos, os moradores desse lugar têm uma morte natural e sem sofrimento: não ficam agonizando doentes por anos - um dia passam mal e morrem. Até os cachorros vivem mais do que a média, até os 25 anos.
É misterioso, mas fascinante. Invejável até. E por isso não falta gente aterrissando por aquelas terras em busca dessa vida longeva. É claro que precisamos nos cuidar, ter hábitos saudáveis, fazer exercícios e evitar, na medida do possível, os excessos. Não estou aqui fazendo uma apologia total da vida desregrada (apesar de adorá-la). Mas é divertido, e reconfortante, saber que existe outra opção, mesmo que restrita. Que em algum lugar do mundo se pode beber e fumar sem ser recriminado pelo policiamento natureba e viver muito assim mesmo - ou melhor, e viver ainda mais. E que ser saudável não necessariamente significa abdicar de tudo, levar uma rotina espartana, livre dos prazeres, das vontades e da espontaneidade.