Amelí, com acento mesmo, é paulistana nata, mas dizem que, após duas décadas de Rio, virou uma carioca. Todo dia, depois de preparar o café, ela se perde em algumas travessas pouco suspeitas da cidade. A patroa jura que, depois de velha, Amelí viciou no jogo do bicho. Some, vive sem dinheiro, tá sempre com pressa pra ver alguma coisa fora de casa. Chegaram a achar que tinha homem no meio da história (de tanto trabalhar para ajudar no casamento dos outros, nunca teve tempo para ter um próprio).
Ritmo de crise, empresas anunciando férias coletivas, demissões e suspensões. E um monte de empresários e investidores mundiais irresponsáveis, pra dizer o mínimo, dando uma de coitadinhos porque o dinheiro que brotava fácil nas bolsas mundo afora, especialmente nas de terceiro mundo, como o Brasil, onde os juros eram altíssimos, de repente, por eles mesmos, deixaram de ser tão rentáveis. A notícia dos jornais são de rir pra não chorar. "Itaú adianta resultados e revela queda em lucro no trimestre." O cidadão clica no link e descobre que o lucro da instituição no trimestre foi de apenas R$ 1,8 bilhão, abaixo do ganho de R$ 2,428 bilhões registrado no mesmo período em 2007.
Ninguém sabe, mas Amelí tem um segredo. Dela e de mais algumas pessoas, que preferem ignorá-lo. Todas as manhãs, quando sai de casa para preparar o café, ela não vai encontrar nenhum homem, menos ainda jogar no bicho. Nem vai ao cabeleireiro, à feira, passear por alguma loja. Ela faz é faxina em outras casas. Pra receber mais dinheiro. Quando perguntei o motivo, ela nem teve pudor em dizer: "Ouvi minha patroa dizer que to velha pra limpar e que não sabe o que fazer comigo. Vai me mandar embora logo, mas sente vergonha de dizer o motivo".