Ouvi esses dias, ao comentar que, do dia pra noite, tinha decidido me mudar. "Mas você é a pessoa que mais se mudou que eu conheço". Exagero. Tem gente que muda mais. Mas fiquei pensando. É verdade, em cada casa que morei, vivi uma fase da minha vida: difícil dizer, em retrospectiva, se foram os fins das fases que impulsionaram a mudança ou o contrário. Mas é como se em cada lugar, ficasse para trás uma parte da vida. Sem contar as mudanças na cidade natal, conto as que tive já em São Paulo.
O primeiro apê, super pequeno, foi ali na Caio Prado, fins da Consolação, quando ainda não tinha Shopping Frei Caneca nem grupos de teatro que bombaram os prédios da Roosevelt. Mesmo assim, era barato, era movimentado e eu dividia com uma amiga - depois ela foi embora, veio um namorado. Foi meu primeiro referencial da cidade, não teve geladeira por um bom tempo e meus livros e textos ficavam amontoados ao lado da cama.
O segundo era antigo e enorme, na Vila Mariana. Um prédio de esquina que me fez descobrir que eu tinha muito poucas coisas materiais: era cheio de armários e eu nunca tive o que colocar em todos eles. Mas foi lá que tive meus primeros móveis de verdade, que consegui estabelecer uma rotina e tive uma estante, para meus livros, meus discos, meus textos, meus objetos de estimação. Nos últimos anos lá, tinha pintado a parede do quarto de lilás - dizem que a cor da mudança.
O terceiro e atual lá na Aclimação, tá parecendo música do Chico Buarque, tem uma sacada e uma árvore nela - apesar de ser minúsculo. Foi, de verdade, o primeiro que escolhi - sem ter tanta pressa ou tanta limitação financeira. Talvez por isso, seja o primeiro que considerei cada de verdade. Tipo lar. Gosto dele. Gosto do silêncio dele à noite, da vida da janela, das escolhas que fiz ali dentro.
O quarto pode ser grande novamente. Tem janelas enormes, mais de um quarto, novamente armários, novamente espaço. Pode ou não ser meu, temporariamente. Levei hoje toda a documentação exigida pelo proprietário, que não é pouca, e ele decidirá em cinco dias úteis. Meu coraçãozinho tá batendo mais forte. É uma nova relação amorosa, não?