Tem cheiros que lembram pessoas; gostos que trazem momentos; sons que te levam a algum trecho do passado. Hoje, o calor me deu as aleluias (que tem gente que chama de siriri ou de cupim-voador ou de sei lá quantos nomes mais elas devem ter). Aleluias em volta dos postes de luz em fim de tarde quente. Aleluias que cutucam o cabelo e fazem cócegas no rosto. Aleluias que entram pela janela e morrem no chão de casa. É lembrança demais da infância bem longe, de outro lugar, com outras luzes - mas onde tinha as mesmas aleluias voadoras. Minha avó dizia que quando a lua tinha um anel amarelo em volta era sinal de chuva. Que quando o céu começava a escurecer no inverno, estavam chegando as nuvens de frio. E que quando uma aleluia voava perto, era para que a gente se recordasse dos mortos. Talvez ela soubesse que eu teria saudades, talvez ela saiba que agora é dela que eu me lembro.
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