Há um exército de insones em São Paulo. Mas, em vez de estarem perambulando pelos bares da Vila Madalena ou pelas danceterias do Itaim, estão sendo monitorados por fios e eletrodos em suítes particulares, onde a única distração possível, sob os olhos de uma câmera atenta, é a programação da NET disponível numa televisão de plasma pregada na parede. Há um mês, quando agendei a polissonografia, a pedido da médica que queria saber tudo sobre o meu sono, imaginei meia dúzia de quartos no último andar do Instituto do Sono. Não devo ter sido a única: ontem à noite, no elevador, um senhor dividiu comigo seu espanto. "Quanta gente não consegue dormir, né?". Pois é, só ali eram 16 quartos por andar. E quatro andares no edifício. Mesmo com a chuva que piorou o trânsito, ninguém faltou.
Parece um quarto de hotel simples - com a vantagem de não ter nada que acumule poeira (alérgicos devem ser uma boa parte dos pacientes ali). As recomendações são curiosas: sem esmalte escuro, cremes, condicionador ou gripes e resfriados - todos os fatores podem interferir nos aparelhos. Pouco antes das 22h, uma enfermeira chega para ver se você cumpriu com os requisitos e começar a te preparar. Mapeia sua cabeça para colocar eletrodos. Cola um em cada perna, um em cada lado do peito, um na ponta do dedo da mão. Uma faixa em volta da cintura serve para medir esforço respiratório. É incômodo e engraçado. Cena de ficção científica quando você olha no espelho. Pra que servem as grades encostadas na parede? "Tem paciente que cai da cama, que se mexe demais", conta ela, que disse que já viu de tudo ali - eles passam a noite monitorando cada paciente. "Os que tem terror noturno são os piores, acordam em pânico", diz. Quando, no meio da madrugada, eu arranco um deles sem querer, em cinco minutos aparece a técnica no quarto colocando o fio de volta.
Tem um questionário antes e depois do exame para ser respondido. Quantas vezes você acorda por noite? Ingere bebidas alcóolicas quantas vezes por semana? Toma algum medicamento? Sente dificuldades para respirar durante a noite? Você, aplicada, responde direitinho, tentando lembrar detalhes que te contaram - já que enquanto dorme, a gente pode saber de tudo, menos de como está se comportando. Quando você está instalada, dá pra ouvir as televisões alheias. O meu vizinho de quarto assistia Jô Soares ontem (tédio). Acordada e ainda com sono (pois é), encontro de novo o senhor no elevador, descendo para a lanchonete, onde servem um café da manhã como cortesia. "Dormiu bem moça?", me pergunta. Diante da minha negativa, e talvez das olheiras, solta: "Espero que tenha valido a pena, para todos nós".