Ao pisar en La Paz, essa capital esquecida de um país tumultuado, há três primeiras impressões inevitáveis: ela é fria, alta e barata. É mais difícil respirar, é mais cansativo caminhar e é mais barato viver - quer dizer, para nós, que chegamos de fora. A quarta impressão é que você está, literalmente, dentro de um buraco - a cidade, que já foi parte do império inca, foi construída dentro de uma cavidade geográfica natural, uma maneira de se proteger de ataques inimigos. O centro está bem na parte mais baixa desse buraco, e conforme vai escasseando o dinheiro, as famílias vão se abrigando nas partes mais altas. Buscar o horizonte em La Paz é encarar casas sem reboco montanha acima.
A quinta impressão te deixa perdido no tempo - cadê a tal globalização? para o bem e para o mal? É uma capital, de um país vizinho ao seu, que não ostenta grandes redes de lojas, produtos e serviços. É uma economia local, de pequenas lojas, de comércio familiar, que mantém a cidade. São as choclas (as índias aymará e incas) que vendem jornais, chicletes, resfrigerantes e chocolates nas esquinas. São seus filhos que pedem dinheiro ou tentam te vender artesanatos. É a folha de coca que dá alento, histórico já, para que eles caminhem e sobrevivam - ao frio, à altura e à pobreza.
Mas daí, no meio disso tudo, tem um funcionário da prefeitura vestido de zebra coordenando o trânsito, que funciona sem divisão de pistas nas avenidas. Tem um restaurante simpático, conduzido por um francês casado com uma boliviana, que serve carnes nobres e onde, pela primeira vez, eu experimentei ratatouille - antes do filminho eu nem sabia que isso existia - e descobri que é bem gostoso. Tem também bares onde pessoas jovens, politizadas ou não, orgulhosas ou não, saem para dançar durante os dias da semana. Não tem McDonald´s, a Inka Cola, peruana, é mais popular que a Coca-Cola e há protestos nas ruas praticamente todos os dias; pacíficos, aglomeram estudantes, indígenas e profissionais sindicalizados.
No inverno, o ar é muito seco - e quem não está acostumado, sofre. O nariz arde, sangra, você quer tomar um banho a cada meia hora só pra aproveitar aquela nuvem úmida do chuveiro. As pessoas são baixas - eu, com meu 1,60m, tão baixinha por aqui, por lá sou do tamanho das mais altas. É difícil sintetizar o que uma capital assim provoca, ou melhor, o que uma capital assim é de verdade. Para o olhar estrangeiro, é uma transição, um caminho no tempo para um futuro indefinido; só eles podem saber o quantão conseguirão unir a tradição indígena com as exigências do mundo moderno.
Tem imagens, para ilustrar, ou contradizer tudo o que escrevi aqui.
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