Quem me fez retomar esse assunto foi o Babelia, o caderno cultural semanal do El País. Nesse fim de semana, eles publicaram um especial sobre os novos cronistas da América Latina - cronistas jornalísticos, ou seja, os jovens que estão fazendo matérias especiais com textos bem escritos a partir de fatos que passaaram desapercebidos pela maior parte dos jornais e revistas, cada vez mais chatos e iguais, principalmente pelas nossas bandas...
O começo do texto já é muito legal: "América Latina ha dejado de ser un continente inventado por la literatura para transformarse en un continente redescubierto por los narradores" e a frase escolhida para abrir a matéria é uma citação do García Márquez, um defensor desse tipo de jornalismo: "Una crónica es un cuento que es verdad". O texto segue ouvindo esses caras e mostrando como, a partir dos fatos cotidianos, das notícias que passam desapercebidas, dos personagens que pouca gente presta atenção, ou às vezes presta exageradamente mas sempre com o mesmo olhar, é possível criar reportagens que dêem vontade de ler.
Num post antigo eu tinha citado algumas revistas. A mais legal, na minha opinião, é a Etiqueta Negra, editada desde 1998 no Peru, com textos de gente como John Lee Anderson e Gay Talese. O projeto gráfico é de bom gosto, os textos são extremamente bem escritos e editados e as abordagens são tudo menos lugar-comum. Outra publicação muito legal, feita no Chile, é The Clinic, um tipo de pasquim que pega pesado no humor e nas reportagens investigativas, mas que não é chato, nem maçante e dá vontade de ler até o fim. Fez tanto sucesso que de quinzenal virou semanal, lança edições especiais e tirou vários jornalistas cansados da mesmice de alguns grandes veículos. A Colômbia tem ElMalpensante, é a que conheço menos, mas li algumas vezes e a impressão que ficou foi bem boa. E até a Venezuela tem a sua, Marcapasos, voltada mais para área cultural. Ah, sem contar a Rolling Stone argentina, que é ótima (a nossa não é igual, mas é boa também, é verdade).
Fica a pergunta. Por que ninguém por aqui consegue fazer uma revista assim? Por que é tão difícil para quem conduz veículos de comunicação unir temas menos caretas, com um olhar mais ousado e criativo, num bom texto bem editado publicado num projeto gráfico de bom gosto?