Um dia perdi meus sapatos na rua. Eram vermelhos. O salto era bem fino. Foi um homem de barba quem encontrou. Usava um casaco marrom e gostava das mulheres. Saiu procurando pela dona, como na história da fada-madrinha. Tentou na rua, no bairro, na cidade. Viajou para outros lugares, sempre levando os sapatos na mala. Era uma pessoa que tinha esperança. Mas em nenhuma delas o encaixe era perfeito. Maior, menor, apertado. Até que um dia se resignou. Cansado, sentou num banco de praça e calçou o pé esquerdo. Tentou o direito. Deu uns passos. Quando finalmente topou comigo, os sapatos já tinham passado a ser dele.