Foi num dia qualquer desses que ele falou que tinha um carinho especial pelo Sputnik. Piscou no email, nem prestei atenção no título e fui direto pra mensagem: "bizarrices da minha vida...descobri que eu tenho um carinho pelo satélite Sputnik!". Estava em letras azuis, ele escreve em letras azuis - sempre reparo, mas nunca me lembro de perguntar porquê. Respondi rápido, como sempre. "Eu também. Você não sabia que somos todos um satélite girando em órbita por aí?". Gosto da imagem, que não é minha (Minha querida Sputnik, do Murakami). Só queria que ele entendesse que não é o único. E que isso é bom.
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Dele, fazia tempo que não chegavam notícias. Pelo MSN, acho que para os amigos acompanharem, fica só a cidade ou país da semana - espécie de cartão postal atual, vai ver. Tantos lugares, alguns onde eu ainda nem pensei em conhecer. Quando apareceu a janelinha, tinha uma pergunta sobre uma foto. Nela, ele parecia diferente, outra pessoa. Ele dizia que as fotos simples, tiradas no susto, sem retoques, enganavam. E eu disse que o contrário: elas são as mais sinceras. Nos revelam pros outros e pra gente mesmo. No fim, chegamos à conclusão de que os fotógrafos são uns manipuladores do olhar. E que a foto pertence mesmo a quem tira, não a quem nela saiu.
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Ela disse que tinha escrito para dizer que estava com saudades. Que, parando pra pensar, era estranho morar na mesma cidade, ter o telefone quase na cabeça, viver dentro do carro, mas precisar escrever pra dizer que queremos nos ver. Lembrava as cartinhas que trocava quando era pré-adolescente com pessoas de outros lugares - nunca com os melhores amigos. Lembrou do que diziam antes, época dos avós, dos pais até, sobre a vida adulta: você se acumula de obrigações, faz sua família ou não, trabalha, e tem menos contato e tempo pros outros. Nós continuamos sem tempo, mas contatos temos. Vontades de estar perto também. É, a tecnologia ajuda sim. É mentira que afasta.
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