1 - Há homens altos, magros, gordos, feios, corajosos, pacientes e há o homem-fumaça. Para os mais óbvios, não falo dos fumantes, nem dos trabalhadores de caldeiras, forno de pizza ou churrasqueira. O homem-fumaça é só um a mais no gênero masculino – a diferença é que ele é único. Por algum acordo decidido numa época esquecida, não pode existir no mundo, ao mesmo tempo, mais de um deles. Mas não pense que formam uma linhagem. Ele aparece de repente no meio de uma família – oriental, ocidental, pobre, rica, perdida na selva africana.
2 - Não se engane com a ciência também. Há inúmeros trabalhos sobre sua constituição genética. Suas células já foram esmiuçadas no microscópio. Seu comportamento analisado por psicólogos de variadas correntes. Tentaram atribuir sua condição a um efeito psicossomático decorrente de traumas uterinos que surgiriam desde o berço. Associaram seu aparecimento ao fumo durante a gestação ou ao uso excessivo de antidepressivos na primeira idade. Hipóteses não faltam, mas nenhuma conseguiu explicar porque há um homem -fumaça.
3 - Eu descobri aos quatro anos que era um deles. Brincava no parquinho e percebi uma neblina diferente, parecida com a que via na estrada quando papai nos levava para a praia de noite. Depois soube por mamãe que nasci dois anos depois que o último morreu. Nunca me senti especial por isso. Ao contrário dos outros que me precederam, flexíveis ao mundo em que surgiram, cresci sem me sentir adaptado, em nenhum lugar.
4 - Os anos passaram, mas não mudei. Hoje, queria somente poder sair dessa esfera, andar um pouco sem rumo, parar na faixa de pedestres que vejo daqui, atravessar no sinal verde como aquela senhora está fazendo agora e deixar para trás, como marca das minha presença, apenas a breve e curta fumaça de um cigarro sendo apagado.