Ontem à noite, atravessando um farol da Faria Lima, senti raiva do mundo, e da minha covardia. Da negligência de achar que os elementos do cenário de uma grande cidade são normais e aceitáveis. Garoava, ventava e já era quase meia noite. No canteiro do meio da avenida um garoto de bermudas, descalço e sem camisa se encolhia no meio-fio. Dava para perceber que tremia. Do lado, largada, a caixinha de chiclete. Passei com o carro, com o coração apertado, e só consegui dar um dinheiro a ele - menos do que eu poderia, menos do que eu deveria, menos do que ele precisava. Demorou pra perceber o gesto, eu chamei e ele levantou os olhos - claro que chorava. Pegou o dinheiro, agradeceu e segui em frente. Meu irmão, do meu lado, também doído, falava: por que ele está sem camiseta? ninguém devia ficar sem camiseta no frio! Vou dar a minha para ele. Concordei, em silêncio e sem saber o que fazer. Mais tarde, com a esperança de podermos fazer qualquer coisa que fosse, voltamos lá. Ele já tinha ido embora.
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