Era uma tarde tão quente e calma que nos galhos das árvores nenhuma folha se mexia. Gato esticado na sombra, porteiro largado na guarita, lixo para ser recolhido. O ponto de ônibus vazio e os pedregulhos irregulares se esquentando na calçada, esperando um tropeço distraído. O café não chegava. Escorria calor e monotonia. O único movimento vinha daquela fumaça - névoa circular que colava na pele sem se desfazer... Mas nada disso tinha a ver com ele, ou melhor, só aqueles halos, de brasa incandescente, como descobri tarde demais.
Foi dele a iniciativa. Fez um gesto simples com a cabeça pedindo para sentar. Trazia a xícara na mão e uma revista dobrada debaixo do braço. Tinha cabelos desfeitos, um pouco grisalhos. Sorria sem mostrar os dentes, sinalizando um ar complacente, de paciência calculada. As mãos eram grandes e a pele, espessa. Quase sem piscar, mantinha o olhar sobre mim - um esverdeado brilhante, hipnótico.
Imóvel, escutei suas perguntas, comentários sobre qualquer coisa, indagações vagas sobre minha história. Naquela atmosfera de horas pausadas, de vida em suspensão, a pulsão de seus olhos vibrava pelo ar. No tempo de um arrepio, soube que tinha me perdido. Não veio o medo que deveria vir, não senti a repulsa que talvez sentisse, não me levantei. Permaneci. Não sei quanto tempo se passou até que veio o pedido, silencioso.Queria o meu sim - o que eu não diria, mas, já me deixando conduzir, disse.
Estávamos longe dali quando apertou minha mão. Estremeci. O calor intenso me deixou dormente. A respiração curta despejava vapores na minha boca, ditando o ritmo das minhas veias. Não demorou para seus dedos ásperos me percorrerem, para sua boca descobrir meu gosto, para a pressão ritmada do seu corpo me arrancar sussurros e gemidos. Sentia que se satisfazia, enquanto aumentava a vermelhidão em minha pele. Quando saciou a fome, queimou meu útero com seu sangue branco e morreu dentro de mim.
Dormiu encolhido. No dia seguinte foi embora. Voltou durante a noite. Continou assim por uma semana, que logo virou mês, que de repente completou o ano. Seus vestígios já se misturavam à casa, e a mim. Uma camada de cinzas se acumulava nos cantos da cama, marcas na pele clareavam e voltavam a escurecer. E aquele vapor, que nas madrugadas claras, ficava verde como seus olhos.
Comecei a trocar as combinações pretas e os cabelos presos por vestidos coloridos. Tomava longos banhos de espuma. Sorria para o espelho, para a janela dos vizinhos, para mim mesma. Dizem que ria mais alto - nunca prestei atenção. Sei que mudava o perfume para o surpreender. Pintava os olhos e esperava por ele.
Na noite de ontem tive muitos calafrios. Senti o calor pesado. Percebi que uma névoa se prendia em mim, novamente aqueles halos indissolúveis no ar. A lembrança reapareceu. O medo cortou minha respiração. Como que pressentindo, corri para ver as árvores na rua. Nenhuma folha se mexia nos galhos. *Os dragões não conhecem o paraíso, ele costumava dizer, sempre que eu perguntava sobre nosso futuro. Citava Caio Fernando Abreu, relia suas cartas para mim. Nessas noites, gritava em seus pesadelos. Eu fingia não saber. Agora, como você deve imaginar, amanheceu e ele não veio. E nunca mais virá. Então, imagino, recorrendo à sua própria leitura, será que *um dragão vem e parte para que você aprenda a dor de não o ter, depois de ter alimentado a ilusão de possuí-lo?
PS: Esse texto foi minha colaboração feminina, e também minha estréia, no Haja Saco. Como já disse a eles, foi uma honra aparecer ali no meio de tantos e diversificados talentos masculinos.