O primeiro presente que ganhou foi uma boneca. O primeiro que gostou foi a máquina de escrever vermelha. Uma mini-máquina. Compacta dentro de uma caixa. Foi na época em que já sabia o próprio nome e conhecia o alfabeto. Não demorou uma semana para virar brinquedo favorito.
No ano seguinte descobriu o dicionário. As folhas e folhas e folhas cheias de letras miúdas com explicação para tudo o que ela não sabia - para tudo o que tinha nome do mundo. Entendeu os sinônimos, antônimos. Acepções. Latim.
Tempos depois chegou nos manuais, nos livros de referências, nas infinitas enciclopédias. Formatadas, quadradas. Puro consenso. Definições assépticas e racionais sobre as grandes áreas do conhecimento. Foi quando apareceu o computador, a internet. Logo, o vestibular.
E a menina que buscava respostas no dicionário virou uma jovem universitária que carregava livros e arquivos digitais. Planificava saberes e sistematizava informações. Se transformou numa professora. Rígida e aplicada. Cercada de fórmulas dadas, copiadas e repetidas.
Mas chegou o dia em que sentiu uma coisa diferente. Foi procurar o que era. Faltou um verbete. Havia alguma coisa no mundo que não estava - não cabia - em nenhum dicionário, em nenhuma definição. Existia algo que ninguém conseguiu até então descrever. O mundo ainda podia surpreender.
Nesse dia, parou de ensinar. Tirou os sapatos e foi tomar sol na praia.
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