Se ele estender a mão, ela tira os dedos do teclado e troca o barulho das letrinhas que preenchem a tela em branco pela batida de um outro coração. Se ele der um passo, ela levanta da cadeira e abandona os sapatos com os saltos que incomodam seus pés. Se ele sorrir, ela sabe que será um dia diferente. Mas, como todos os dias, ele chega pelo corredor e passa apressado, olhando reto para a próxima curva do outro lado do edifício.
Ela, então, ajeita os óculos e continua, e do ritmo de suas palavras começa a construir uma melodia, acelerando a composição, intercalando pausas; contratempos feitos de vírgulas e travessões, sinais de exclamação que levam a sentenças antes de interrogações. O quadrado com o alfabeto é real, o som é audível e a tela está imóvel. É o mundo da concretudo que a envolve, que a confina numa baia de escritório.
Mas é quando ela insiste, despreende seu próprio ritmo numa espaço vazio. É assim que a aspereza da máquina vira canção, que a acalenta, a seduz, a leva para um outro mundo, onde não há silêncios.
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