O orgulho de Seu Manoel era dizer que morava na mesma casa há seis décadas, com a esposa há 45 anos, tinha criado com seu trabalho três filhos - dois homens feitos e uma moça bem casada. Puxava conversa no mercado, dava instruções para motoristas perdidos e, desde a aposentadoria, seguia uma rotina de exercícios; série que lhe garantiu os músculos que ainda exibia, apesar da pele flácida. Acordava a mulher com uma xícara de café preto, abria a porta pro menino da padaria que entregava cinco pãezinhos e uma caixinha de leite. Boa praça, era o homem do bairro.
Mas Seu Manoel tinha um grande segredo, que o fazia se sentir pequeno e inseguro diante de Zulmira, que mesmo envelhecida, conservava o corpo arredondado, os traços fortes de olhos claros. Desde que sua filha havia nascido, Seu Manoel tinha morrido. Aquilo que lhe era tão essencial, tinha desaparecido. Entre as pernas, era uma carne morta. Escondido, tentou consultas psiquiátricas, cirurgia espírita, receitas caseiras e nada. Até pai de santo chegou a procurar, mesmo sendo bom católico apostólico romano. Zulmira, que se esforçava por manter a condição de mulher, e a vaidade quase apagada, murchou junto. Azedou.
E apareceu a pílula azul e Seu Manoel decidiu ir até a farmácia comprar. Envergonhado, esperou o farmacêutico aparecer e a balconista sair para o horário de almoço. Demorou para dizer exatamente o que queria, fez questão de explicar que não era homem que precisava disso, mas que tinha ficado curioso, um amigo tinha comentado. Depois do fim da novela, tomou um comprimido. Esperou, ansioso. Contou os minutos. Chegou a achar que era mais um engodo. Até que endureceu. Forte. Grande. Como há anos não acontecia. Correu até a cama e esperou ela chegar. Chamou-a baixinho. Puxou com determinação o quadril da mulher.Durou 18 minutos. Naquela noite, Manoel chorou mais que Zulmira.