Ela passava a escova no cabelo cinco vezes com a mão direita, entortava à cabeça, olhando pro espelho, e dava outras cinco escovadas com a esquerda. Passava batom fazendo bico pra si mesma, piscava para testar o rímel. Fechava o botão da saia, amarrava os cadarços do All Star´s vermelho e saía. Pro portão da escola. Eu nunca tomava café, chegava de cabelo molhado e andava sozinho. Comprava umas balas no bar da esquina, encostava no muro como se não precisasse de nada e esperava ela chegar. Eu e minha mochila azul.
Era tão meticulosa que não precisava olhar no relógio para saber que pisava no primeiro degrau da escadaria às 7h. Subia contando os passos - se começasse com o pé esquerdo, terminaria com o direito. Falava bom dia para faxineira no corredor por volta das 7h08. Parava para encher a garrafinha de água no bebedouro às 7h10 e, no máximo, 7h15, entrava na sala de aula.
Conhecia a rotina dela. E desde a primeira vez, me ofereci para carregar seus livros. Com um sorriso, me estendeu os cinco volumes de capa dura e o caderno listrado. Devo ter ganhado uns 10 centímetros na hora, no mínimo. Não sei se ela percebeu...Mas acho que ainda estou com eles.
Depois desse dia, vi que a turma da quarta série cochichou atrás de mim, as meninas da classe ficaram com risadinhas. Eles não sabem de nada. Já tinha o que eu precisava. O resto da manhã voava, e eu voltava pra casa querendo que o dia acabasse, só pra poder carregar os livros dela e seguir seus passos na escada até a sala de aula.
Fui feliz assim, até que no fim de outubro ele apareceu. Dava aula de biologia, chegou para substituir uma professora que mudou de cidade. Falava arrastado e, sorrindo, passava a mão pela cintura das mulheres. Andava de calça jeans e camiseta. E um dia, quando eu estava, como sempre, no muro esperando a professora Marisa chegar, ele veio antes, e carregou ela e os livros embora de mim.