Eu podia ter passado rímel e batom, trocado de vestido, bebido o resto do vinho, tomado um táxi, acendido um cigarro, furado a fila, entrado com você e deixado o resto pra trás; ou quem sabe seria melhor ter esquecido, me jogado na pista, cantado bem alto, gritado em coro e te beijado em público; dava também pra ter batido a porta, desligado o telefone, tomado um banho, ligado a televisão, chorado sozinha e, por fim, dormido inocente. Era possível, ainda, ter rasgado o script, levado uma folha e branco e preenchido, hora a hora, com o acaso que aparecesse de qualquer direção...
Acontece que a maquiagem borrou, o roteiro tá improvisado demais, a direção nem é minha, o cenário ficou muito quente e não gostei do figurino. Nenhum dos atores em cena agrada, e meus protagonistas estão em outras estréias. Sem palco, nem camarim, muito menos espelho. Minha voz tá rouca. Hoje não subo ao palco, nem encaro platéia. A peça pode acontecer, mas um dos papéis foi cancelado.
Quando se mistura drama com comédia, fica arriscado desacelerar, mas não tem outro jeito. É difícil sustentar a ironia e manter a criatividade. Essa noite, meu teatro do absurdo vai estar fora de cartaz.